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Por rejeição a plantio, empresas miram importar canabidiol

Estratégia de facilitar importação ocorre diante de sinal contrário para liberar plantio

4 set 2019
03h11
atualizado às 08h11
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BRASÍLIA - Diante da sinalização contrária do governo para a liberação do plantio de maconha no País, empresários começam a investir na importação mais fácil de canabidiol, um dos componentes da planta já usado por pacientes no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) programa para outubro a votação de resoluções que tratam sobre o tema. Mas os empresários já estudam opções.

A GreenCare, que vende produtos importados individualmente por pacientes, descarta neste momento o cenário de plantio no País. Martim Mattos, presidente da empresa, concentra agora os preparativos em uma eventual mudança nas regras para importação. Ele diz que a GreenCare não definiu oficialmente se fabricará medicamentos no País ou se manterá a estratégia de apenas trazer o produto já pronto para uso em pacientes brasileiros.

Pesquisador segurando duas folhas de Cannabis (imagem ilustrativa)
Pesquisador segurando duas folhas de Cannabis (imagem ilustrativa)
Foto: CasarsaGuru / iStock

A movimentação do governo também é acompanhada pela Fluent, empresa que iniciou a atividade nos Estados Unidos e agora está em processo de expansão em Peru, Colômbia e Austrália. A companhia já havia iniciado os preparativos para o plantio da maconha no País para a extração de princípios ativos e fabricação de medicamentos. A área do cultivo já havia sido determinada e as parcerias estavam em estágio adiantado.

Diante da sinalização do governo, a recomendação agora é aguardar. "Mas não há dúvida de que o ideal seria plantar aqui. Isso reduziria os custos da produção e, consequentemente, o preço", diz Mario Grieco, presidente para América Latina da Fluent. Pelos cálculos da empresa, o preço poderia cair 80% em relação ao que é produzido hoje. "Isso traria economia também para o Sistema Único de Saúde, uma vez que alguns pacientes têm o tratamento fornecido pelo governo."

Grieco avalia que o mercado para exploração de produtos medicinais derivados do canabidiol e outros componentes da maconha é extremamente promissor. "A proibição do cultivo fará com que o Brasil perca oportunidade importante, não apenas para trazer remédios mais baratos, mas também de fazer pesquisas científicas."

O presidente da Entourage, Caio Santos Abreu, faz a mesma avaliação. A empresa trabalha neste momento no desenvolvimento de medicamentos com material importado. "A decisão da Anvisa não nos afetaria. Mas, ainda assim, acredito que o fato de o Brasil não poder cultivar a planta para fazer pesquisas, seja da genética da planta, seja sobre o uso, seria um desastre."

A Entourage foi criada em 2015 e somente depois de dois anos conseguiu trazer as plantas para a extração das substâncias que serão usadas em fórmulas pesquisadas pela empresa.

A demora, diz, também seria enfrentada pelos centros de pesquisa. Ele aponta outra perda em potencial. "Temos tradição de pesquisa agrícola. Desenvolvemos a melhor cana, os melhores eucaliptos. Não vamos aproveitar o potencial acadêmico. Isso será muito ruim", diz Abreu, citando as mais de 900 variedades da planta, o estudo das moléculas e eventual potencial terapêutico, sequenciamento e melhoramento genético.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem afirmado não haver necessidade de se permitir a plantação, nem mesmo para pesquisa. Segundo ele, estudos com base em importação de produtos já satisfazem as necessidades do País. Mandetta também tem defendido a permissão apenas do registro de medicamentos à base do canabidiol.

Para Abreu, esse discurso revela desconhecimento do campo científico. Ele cita documento do governo do Canadá indicando potencial uso terapêutico da cannabis para 32 problemas de saúde, náuseas provocadas por quimioterapia, síndromes de abstinência e como anti-inflamatório. O documento também traz descrições de efeitos colaterais. O importante, diz, é a possibilidade de pesquisar. Desde 2010, mais de 4 mil pesquisas sobre cannabis foram publicadas, segundo referências da PubMed. "Não estou dizendo que ela poderá trazer a cura, mas qualidade de vida para pacientes com dor crônica, crises de epilepsia. Espero que o bom senso predomine."

Anvisa analisa cultivo há 5 anos

Uma das propostas em análise pela Anvisa permite o cultivo da planta no País apenas para fins medicinais e para pesquisa. Outra prevê um processo de registro facilitado de medicamentos feitos com base nos componentes da planta. Os textos são debatidos há cinco anos.

Em uma primeira análise, foram aprovados pela direção da agência. Mas desde julho passaram a ser bombardeados pelo Executivo. Os ministros da Casa Civil, da Cidadania e da Saúde criticaram a proposta da agência. Como no próximo ano três cargos da diretoria serão renovados, há a avaliação de que um novo colegiado revise qualquer liberação.

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Estadão
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