O que é a 'tarefa de seleção de Watson' — e por que ela é um dos problemas de lógica mais desconcertantes da história
Quatro cartas, uma regra e uma pergunta... por que tantas pessoas erram a resposta se o problema é tão simples?
A Tarefa de Seleção de Wason já foi descrita como "o paradigma experimental mais pesquisado na psicologia do raciocínio". Embora o nome e a descrição possam sugerir algo complexo, trata-se de um experimento surpreendentemente simples e incrivelmente revelador.
O "Wason" por trás de tudo isso é o britânico Peter Wason, um dos psicólogos mais influentes e criativos do século 20.
Ele tinha um estilo de trabalho pouco convencional, como relatou seu aluno e colaborador Philip Johnson-Laird: "Ele defendia que os psicólogos nunca deveriam saber ao certo por que estavam conduzindo um experimento".
Em vez de partir de uma hipótese que precisava ser confirmada ou refutada, ele inventava experimentos e, com base nas observações geradas, formulava hipóteses.
Seu interesse era o pensamento humano, então ele criava tarefas que revelassem seus segredos. Os experimentos cujos resultados se desviavam do esperado, em certo sentido, faziam com que a mente "se entregasse".
Essa atitude fascinava seus alunos, que participavam de seus experimentos.
"Depois, com o cachimbo na mão, ele explicava onde haviam se equivocado; sua aparência marcante combinava com a imagem que se tinha de Sherlock Holmes", recordou Johnson-Laird ao escrever o obituário de Wason em 2003.
E o mais famoso dos experimentos que criou, porque mostrou que o raciocínio humano não era como se acreditava, foi a Tarefa de Seleção, que ele escreveu pela primeira vez há cerca de 60 anos e, desde então, tem sido um dos enigmas cognitivos mais estudados.
Teste seus conhecimentos!
Você vê quatro cartas, cada uma com uma letra de um lado e um número do outro.
As faces que você vê possuem as letras E e K, e os números 4 e 7.
Dizem a você que se uma carta tiver uma vogal de um lado, ela terá um número par do outro.
A pergunta é: qual ou quais cartas você teria que virar para verificar se essa regra é verdadeira?
No experimento original, pouquíssimas pessoas, apenas cerca de 10%, resolveram o quebra-cabeça corretamente, ignorando a carta crucial e selecionando combinações incorretas.
A chave é sempre ter em mente o que a regra diz: se houver uma vogal, então deve haver um número par.
E também, o que ela não diz:
- que todos os números pares devem ter uma vogal
- que nem todas as consoantes devem ter números ímpares.
Portanto...
- E: pode confirmar ou refutar a regra.
- K: é irrelevante neste caso: a regra não diz nada sobre consoantes, então não importa qual número apareça do outro lado.
- 4: é aqui que muitas pessoas se confundem. Intuitivamente, parece importante porque a regra menciona "números pares"... mas não diz "se houver um número par, então há uma vogal". Então, se você virar a carta e houver uma vogal, você apenas confirma a regra, mas se houver uma consoante, você não a refuta.
- 7: Esta é a carta crucial, pois é a única que pode refutar a regra. Por ser um número ímpar, se o outro lado tiver uma vogal, ela a destrói imediatamente.
A combinação correta é E e 7.
Desde que Wason escreveu sobre este experimento em 1966, muitos estudos o replicaram, frequentemente variando as letras e os números, ou até mesmo substituindo alguns por cores ou formas.
O que não mudou muito foram os resultados. O padrão típico é mais ou menos este:
- cerca de 45% escolhem E + 4
- cerca de 35% escolhem apenas E
- cerca de 4% escolhem corretamente E + 7
O problema, como Wason disse corretamente, é "enganosamente simples", mas também esclarecedor.
Eliminar o erro
O que foi revolucionário no trabalho de Wason foi converter antigas intuições filosóficas sobre as limitações da razão humana em fenômenos que podiam ser estudados experimentalmente.
Aristóteles já havia estudado as falácias do raciocínio, ou seja, os erros que podem surgir em argumentos lógicos.
Séculos depois, Francis Bacon advertiu em Novum Organum que a mente humana tende a favorecer as ideias que já acredita serem verdadeiras. Como escreveu em 1620: "O entendimento humano, uma vez que adotou uma opinião, atrai todo o resto para apoiá-la e concordar com ela".
Bacon acreditava que as pessoas tendem naturalmente a buscar confirmação e ignorar tudo o que contradiz suas crenças: uma intuição que hoje parece surpreendentemente próxima do que chamamos de viés de confirmação.
Muitos outros perceberam o mesmo, mas talvez a influência filosófica mais importante sobre Wason tenha sido Karl Popper. Ele sustentava que "a ciência não consiste em encontrar confirmações, mas em eliminar o erro."
Em sua visão, a investigação científica deveria concentrar-se em buscar provas decisivas que pudessem refutar uma teoria, em vez de acumular exemplos que a apoiassem.
Foi justamente isso que fascinou Wason: que, ao se deparar com problemas simples de raciocínio, a maioria das pessoas parecia fazer espontaneamente o contrário.
Esse contraste não era uma vaga intuição: alguns anos antes, ele já havia começado a explorar essa mesma ideia com outro experimento igualmente simples e um tanto lúdico.
2-4-6
No problema 2-4-6, os participantes são informados de que existe uma regra oculta que gera sequências de três números. Sua tarefa é descobri-la.
Para começar, o experimentador deu um exemplo:
2 - 4 - 6
Os participantes são solicitados a propor outras sequências de três números para tentar deduzir a regra, e o experimentador informa se a sequência se encaixa ou não na regra.
A maioria das pessoas, quase imediatamente, formulou uma hipótese, como "a regra é somar 2", ou algo semelhante: "contar múltiplos", "somar os dois primeiros números para obter o terceiro".
E a partir daí, começaram a testar sequências como:
- 8 - 10 - 12
- 3 - 6 - 9
- 50 - 100 - 150
Todas eram razoáveis. Todas se encaixavam. Todas "confirmavam" a ideia inicial.
Mas nenhuma delas realmente testou a regra. Todas permaneceram dentro do mesmo tipo de exemplo que já parecia válido.
O que quase ninguém fez foi tentar algo que pudesse quebrar a hipótese, como:
- 1 - 2 - 3
- 3 - 5 - 7
- 10 - 5 - 0
Ou seja, casos que forçariam o experimentador a dizer "não".
E é aqui que o experimento começa a se tornar revelador, pois a regra real era muito mais simples do que quase todos imaginavam: qualquer sequência de números em ordem crescente.
A maioria dos participantes levou muito tempo para descobrir a regra, ou nunca a descobriu, não porque a regra fosse difícil, mas porque sua abordagem para encontrá-la era tendenciosa desde o início: em vez de tentar refutar suas próprias hipóteses, eles tentaram confirmá-las.
E foi isso que a Tarefa de Seleção de Wason confirmaria mais tarde.
O resultado foi desconcertante. Indicou que a maioria das pessoas falhava sistematicamente nesse tipo de problema abstrato.
Nas palavras de Wason (1968), "a tarefa de seleção reflete uma tendência à irracionalidade na argumentação, na medida em que os participantes erram".
Ele chegou a sugerir que, nesses tipos de situações, "a irracionalidade, e não a racionalidade, é a norma".
Mas então, os psicólogos começaram a perceber algo muito estranho, e a história se tornou ainda mais interessante.
Cervejas e refrigerantes
Durante as décadas de 1970 e 1980, pesquisadores como Richard Griggs e James Cox estudaram sistematicamente algo curioso: quando o problema era formulado em termos cotidianos, o desempenho melhorava drasticamente.
O cenário era o seguinte: você está em um bar e sua função é fazer cumprir uma regra.
Você recebe quatro cartas. Cada uma representa um cliente: um lado mostra o que ele está bebendo e o outro, sua idade.
As cartas que você vê são: Cerveja, Refrigerante, 20, 17.
A regra é: se uma pessoa bebe álcool, ela deve ter mais de 18 anos.
Quais cartas você teria que virar para verificar se alguém está violando a regra?
A resposta correta é: Cerveja e 17 anos.
A lógica é exatamente a mesma que com as letras e os números: você precisa virar a carta que confirma a regra (a pessoa que está bebendo cerveja tem mais de 18 anos?) e a que a refuta (o jovem de 17 anos está bebendo álcool?). O refrigerante não importa — a regra não diz nada sobre quem pode beber refrigerante — e o mesmo vale para o jovem de 20 anos: mesmo que ele beba cerveja, não estará infringindo nenhuma regra.
Mas aqui acontece algo surpreendente: nesse cenário, a maioria das pessoas acerta sem dificuldade.
O problema lógico é idêntico ao das cartas abstratas, mas algo no conteúdo — uma situação social reconhecível, uma regra que faz sentido — muda completamente a forma de raciocínio.
A partir daí, o experimento de Wason deixou de ser apenas um teste de lógica e se tornou um campo de batalha teórico. Leda Cosmides, da perspectiva da psicologia evolucionista, propôs uma explicação provocadora: talvez o raciocínio humano não seja projetado para a lógica abstrata, mas sim para detectar trapaceiros em interações sociais.
Dessa perspectiva, não é que falhamos na tarefa de Wason: é que somos extraordinariamente bons em uma versão diferente dela, uma que tem consequências reais no mundo social.
Outros pesquisadores dizem que a mente humana não é um sistema de lógica perfeita, mas um sistema com limites: racionalidade suficiente, não ótima — uma ideia que Herbert A. Simon, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, desenvolveu sob o nome de racionalidade limitada.
E os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky ampliaram essa linha de pensamento, mostrando que nossos julgamentos são guiados por atalhos mentais sistemáticos, não por dedução lógica estrita.
Além do laboratório
É difícil superestimar a influência da Tarefa de Seleção de Wason.
Na psicologia cognitiva, ela se tornou uma referência: poucas tarefas experimentais geraram tantos estudos, tantas replicações e tanto debate.
Seu impacto se estendeu muito além disso.
Na filosofia da ciência, a tarefa se tornou um exemplo vívido da assimetria entre confirmação e falsificação que Popper havia descrito no abstrato: não é que as pessoas não entendam lógica, mas sim que algo em nossa arquitetura mental nos inclina a buscar confirmação.
Na economia comportamental, o trabalho de Kahneman, Tversky e outros se baseou diretamente nessa mesma fonte. E na educação, o experimento é usado para ensinar pensamento crítico.
Mais recentemente, o experimento entrou no campo da inteligência artificial.
Quando pesquisadores querem medir se um modelo de linguagem realmente raciocina ou simplesmente reconhece padrões, um dos testes clássicos é uma versão da tarefa de Wason. Os modelos mais avançados resolvem o problema facilmente em sua forma abstrata — eles têm acesso a toda a lógica formal já escrita —, mas cometem erros surpreendentemente semelhantes aos humanos quando o conteúdo muda de maneiras sutis ou inesperadas.
A tarefa permanece, em certo sentido, um raio-X do raciocínio.
E esse é talvez o aspecto mais duradouro do trabalho de Wason: não a tarefa em si, mas a questão que ela deixou em aberto.
Não se trata de saber se os humanos são irracionais, mas sim por que falhamos precisamente onde falhamos e sob quais condições paramos de falhar.
A mente não é uma máquina lógica defeituosa. É algo mais estranho e interessante.
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