'Não reconheci meu namorado quando o encontrei no supermercado': como descobri que tinha cegueira facial
Após receber diagnóstico de prosopagnosia, a jornalista Caroline Steele investiga a ciência por trás dessa condição, incluindo suas causas e como os especialistas determinam se uma pessoa pode ou não tê-la.
A prosopagnosia, ou cegueira facial, afeta cerca de 1 em cada 50 pessoas e impede o reconhecimento de rostos, inclusive de pessoas próximas. Causada geralmente por fatores congênitos, ambientais ou menor conectividade nos circuitos neurais, a condição raramente decorre de lesões cerebrais. Diante da baixa eficácia de treinos cognitivos e estimulações, quem convive com o distúrbio recorre a adaptações práticas, identificando indivíduos pela voz, postura ou outros detalhes marcantes.
Uma vez, não reconheci quem era meu namorado na época. Estávamos juntos havia cerca de seis meses quando nos encontramos por acaso em um supermercado.
Mas, quando nos cruzamos no corredor dos cereais, não fazia ideia de quem ele era. Lembro de ter me sentido desconfortável com o fato de ele estar tão perto, até que ele falou e reconheci sua voz.
Como era de esperar, ele não gostou nem um pouco.
Mas, para mim, isso é normal. Sempre tive dificuldade para reconhecer rostos, independentemente de quão bem eu conheça alguém.
Por isso, decidi fazer um teste para detectar a prosopagnosia, uma condição em que as pessoas têm dificuldade para reconhecer rostos.
O que causa a prosopagnosia, a cegueira facial?
Especialistas afirmam que a prosopagnosia (cegueira facial) é mais comum do que a maioria das pessoas imagina e afeta aproximadamente uma em cada 50 pessoas.
Em alguns casos, a condição se desenvolve após uma lesão cerebral, por exemplo, depois de um acidente vascular cerebral (AVC), embora "não conheçamos muitas pessoas que tenham prosopagnosia por esses meios", afirma a professora Sarah Bate, psicóloga da Universidade de Bournemouth, no Reino Unido.
É muito mais comum que as pessoas tenham dificuldades desde cedo, explica ela. É o que se conhece como prosopagnosia do desenvolvimento ou congênita.
Acredita-se que essa forma da condição seja hereditária, o que sugere uma possível relação genética, embora os genes responsáveis ainda não sejam conhecidos com exatidão.
"Nunca é tão simples quanto existir um único gene", diz Bate. "Geralmente, trata-se de uma interação muito mais complexa entre fatores genéticos e ambientais."
Bate acredita que as experiências visuais na infância podem influenciar. Algumas pessoas com prosopagnosia descrevem que sua visão era deficiente ou incomum quando eram crianças.
"Pode haver fases críticas do desenvolvimento que sejam importantes para aprender a reconhecer rostos", diz. "Se uma criança não recebeu óculos quando precisava, ou se nasceu com catarata que afetava sua visão, isso poderia alterar esse processo."
Pessoalmente, isso faz todo sentido para mim. Quando era pequena, tive algumas dificuldades de visão, mas jamais teria relacionado o fato de ter usado um tampão em um dos olhos aos oito anos à dificuldade que eu tinha, já adulta, para reconhecer meu então namorado.
Também há indícios de que outros fatores possam contribuir.
"Sabemos, por exemplo, que, em transtornos do espectro autista, algumas pessoas podem não se sentir confortáveis fazendo contato visual. Um grande número de pessoas com esses transtornos também tem dificuldades com o reconhecimento facial", afirma Bate.
Crianças que crescem com contato social limitado também podem ter dificuldades para reconhecer rostos mais tarde na vida, acrescenta ela.
Menor conectividade
Reconhecer um rosto familiar pode ser fácil para a maioria das pessoas, mas neurocientistas afirmam que isso depende de uma complexa sequência de processos cerebrais.
"Temos um circuito cerebral específico para o reconhecimento facial", afirma a professora Zaira Cattaneo, neurocientista da Universidade de Bérgamo, na Itália, que pesquisa a percepção facial.
"Tudo começa na parte posterior do cérebro, nas regiões sensoriais", que evoluíram para ser "extremamente seletivas para rostos".
Essa região, conhecida como lobo occipital, contém o córtex visual primário, onde as informações visuais são recebidas e interpretadas pela primeira vez.
As informações visuais então seguem para uma região do cérebro chamada córtex temporal, onde o reconhecimento se aprofunda.
"Nesse ponto, você não apenas reconhece um rosto, mas também sabe se ele é familiar", explica Cattaneo. "Você pode associar um nome e todas as informações semânticas e biográficas sobre a pessoa."
A etapa final envolve o córtex pré-frontal, uma área ligada ao pensamento consciente e à tomada de decisões, onde "basicamente representamos conscientemente o rosto, porque a maior parte do processamento sensorial não é consciente".
Cientistas como Cattaneo acreditam agora que o processo quase instantâneo de reconhecer um rosto não depende apenas de regiões cerebrais individuais, mas de como elas trabalham juntas.
Segundo ela, pessoas com prosopagnosia (cegueira facial) "podem ter menor conectividade entre as diferentes partes do circuito facial".
Caras famosas
As evidências sugerem que, à medida que envelhecemos, podemos ter mais dificuldades para reconhecer rostos, e não apenas por causa de um declínio geral da memória.
Cattaneo explica que, com o tempo, as regiões do cérebro envolvidas se tornam menos seletivas para rostos familiares.
Assim, tanto para quem teve dificuldades quando era mais jovem, como eu, quanto para quem não teve, "todos nós podemos ter deficiências no reconhecimento facial à medida que envelhecemos", afirma.
Mas minha prosopagnosia definitivamente não está relacionada à idade. Lido com ela desde que me lembro. Por isso, fiquei muito feliz quando Bate se ofereceu para fazer o teste comigo para verificar se eu atendia aos critérios oficiais.
O teste começou com um questionário sobre minhas experiências cotidianas com rostos. Indiquei meu grau de concordância ou discordância com afirmações como se frequentemente não reconheço as pessoas ou se tenho dificuldade para identificar indivíduos quando usam roupas parecidas.
Depois, respondi a perguntas sobre a frequência com que apresento sintomas comuns de prosopagnosia (cegueira facial). Por fim, fiz um teste com rostos famosos, no qual me mostraram uma série de pessoas conhecidas e eu precisava decidir se cada rosto me era familiar.
Fiquei muito feliz ao ver David Attenborough, o naturalista e apresentador britânico, mas não consegui reconhecer Paul McCartney, dos Beatles, o ator de Hollywood Tom Hanks e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Como era de esperar, eu atendia aos critérios para prosopagnosia. Não foi uma surpresa, mas receber um diagnóstico oficial me fez sentir que minha experiência era validada.
Treinamento cerebral?
Provavelmente é algo com que terei de conviver por toda a vida, embora os cientistas estejam investigando se a rede de reconhecimento facial do cérebro pode ser ativamente aprimorada.
Os neurônios costumam se ativar juntos em padrões sincronizados chamados oscilações. "Basicamente, podemos treinar o cérebro para oscilar em uma frequência que esteja relacionada a uma percepção eficiente", afirma Cattaneo.
Ela está pesquisando o uso de uma corrente elétrica fraca e não invasiva, aplicada por meio do couro cabeludo, para estimular a sincronização dos neurônios.
Os primeiros resultados sugerem que isso pode ajudar no reconhecimento facial, mas Cattaneo alerta que não se deve fazer promessas exageradas.
"Às vezes, o risco é que as pessoas recorram a essas técnicas pensando que são milagrosas", afirma. "Os efeitos que observamos são de apenas dois ou três pontos percentuais em uma tarefa específica, ou de uma melhora de alguns milissegundos."
Bate afirma que as tentativas de treinar o reconhecimento facial, de forma semelhante aos exercícios gerais de treinamento cerebral, tiveram sucesso limitado.
"São feitas centenas de repetições de uma determinada tarefa; já testamos esse tipo de abordagem tanto em adultos quanto em crianças, com resultados bastante modestos, para ser sincera."
Ela sugere focar em maneiras práticas de lidar com o dia a dia, usando estratégias que dependam menos do reconhecimento de rostos, como se planejar com antecedência em situações sociais.
"Muitas pessoas sempre combinam um ponto de encontro muito claro, para saber exatamente onde estarão e garantir que sejam as primeiras a chegar", sugere.
Aprendi a reconhecer as pessoas prestando atenção a pequenos detalhes: alguém anda com um ar de superioridade? Tem uma voz marcante? Ou sempre usa um determinado batom?
É uma estratégia que funciona bem para mim, mas tem seus riscos. Se alguém corta o cabelo, volto à estaca zero.
Baseado em um episódio do programa CrowdScience, da BBC World Service. Informações adicionais de Lara Owen.
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