Mulheres morrem mais por doenças cardíacas do que por câncer
Por que ainda se fala tão pouco sobre isso?
Dr. Raphael Boesche Guimarães, cardiologista, explica por que as doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte feminina e alerta para sintomas muitas vezes ignorados
Embora o câncer de mama concentre grande parte das campanhas de conscientização feminina, um dado ainda surpreende fora do meio médico: as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres, superando todos os tipos de câncer somados.
Para o cardiologista Raphael Boesche Guimarães, o problema não é apenas clínico, é também cultural.
"Durante muito tempo, o infarto foi tratado como uma doença predominantemente masculina. Isso criou uma falsa sensação de segurança nas mulheres e atrasou a conscientização sobre o risco cardiovascular feminino", explica o especialista.
O mito da proteção natural
Existe a crença de que as mulheres estariam protegidas até a menopausa por conta do estrogênio. Embora o hormônio tenha, de fato, efeito protetor parcial, isso não significa ausência de risco.
"Hipertensão, colesterol alto, diabetes, obesidade e sedentarismo continuam sendo fatores de risco importantes em qualquer fase da vida. Após a menopausa, essa proteção hormonal diminui e o risco cardiovascular aumenta de forma significativa", alerta o médico.
Segundo ele, muitas pacientes chegam ao consultório já com alterações avançadas justamente por não se enxergarem como grupo de risco.
Sintomas podem ser diferentes
Outro fator que contribui para o subdiagnóstico é que os sintomas de infarto nas mulheres nem sempre seguem o padrão clássico.
"Nem sempre há dor intensa no peito irradiando para o braço esquerdo. Em mulheres, é comum aparecer falta de ar, cansaço extremo, náusea, dor nas costas ou no maxilar. Isso pode atrasar a procura por atendimento", afirma Dr. Raphael.
Esse reconhecimento tardio aumenta a chance de complicações e impacta diretamente na taxa de mortalidade.
A sobrecarga feminina também pesa
Além dos fatores biológicos, o cardiologista destaca o impacto da sobrecarga emocional e física.
"A mulher costuma priorizar trabalho, filhos e família. O autocuidado acaba ficando em segundo plano. Muitas só procuram avaliação quando já apresentam sintomas mais graves."
Estresse crônico, noites mal dormidas e múltiplas jornadas também influenciam negativamente a saúde do coração.
Prevenção precisa ganhar protagonismo
Para o especialista, a solução passa por ampliar a informação e reforçar a importância do acompanhamento regular.
"Pressão arterial controlada, colesterol monitorado, avaliação da glicemia e prática regular de atividade física são medidas simples que salvam vidas. A prevenção é sempre o melhor caminho."
Ele reforça que campanhas de conscientização sobre câncer são fundamentais, mas é necessário dar o mesmo destaque às doenças cardiovasculares.
"Quando a mulher entende que o coração é o principal fator de risco para a sua longevidade, ela passa a cuidar da saúde de forma mais estratégica."