Micotoxinas: pesquisa mundial alerta para riscos na qualidade dos grãos
Realizada há 22 anos, a pesquisa é uma das séries históricas mais longevas do mundo no acompanhamento dessas substâncias em grãos e ingredientes utilizados na produção de ração animal
Pesquisa global da dsm-firmenich alerta para o risco elevado de micotoxinas na América Latina, com fumonisina (71%) e zearalenona (64%) liderando as ocorrências em grãos como o milho. Cerca de 80% das amostras têm cocontaminação, agravada por fatores climáticos. Os danos silenciosos à imunidade e ao ganho de peso animal elevam custos e ameaçam o comércio exterior, exigindo controle integrado desde o plantio e armazenamento até testes rápidos na indústria para mitigar prejuízos invisíveis.
A qualidade dos grãos utilizados na alimentação animal voltou ao centro das discussões do agronegócio durante um encontro de jornalistas promovido pela dsm-firmenich, que apresentou os resultados mais recentes do seu levantamento global sobre micotoxinas - confira aqui.
As micotoxinas são substâncias produzidas por fungos e podem contaminar principalmente ingredientes de origem vegetal. Entre as mais conhecidas estão a aflatoxina, fumonisina, deoxinivalenol — conhecida como vomitoxina — e zearalenona.
O levantamento mostra um cenário de atenção para a América Latina e para o Brasil. Na primeira metade de 2026, a região apresentou risco elevado de contaminação por micotoxinas.
Um dos principais alertas está relacionado à fumonisina, encontrada em cerca de 71% das amostras analisadas. O milho e seus coprodutos estão entre os principais ingredientes associados à ocorrência dessa micotoxina.
A pesquisa também identificou zearalenona em aproximadamente 64% das amostras e aflatoxinas em 44%. Já as micotoxinas da família dos tricotecenos, que inclui a vomitoxina, também apresentam presença significativa.
Outro dado chama atenção: cerca de oito em cada dez amostras apresentam duas ou mais micotoxinas simultaneamente. Essa chamada cocontaminação pode potencializar os efeitos negativos sobre os animais.
O problema nem sempre aparece de forma visível. As micotoxinas podem provocar efeitos agudos, mas o maior impacto para a produção está muitas vezes nos chamados efeitos subclínicos.
São perdas silenciosas de desempenho que podem afetar a conversão alimentar, o sistema imunológico, a reprodução e a resistência dos animais a doenças. Na prática, o animal pode precisar de mais ração e mais tempo para atingir o peso esperado.
E isso representa um impacto econômico importante, já que a alimentação pode responder por cerca de 70% do custo de produção animal.
A pesquisa também aponta a influência das mudanças climáticas sobre o cenário. Alterações de temperatura, excesso de chuvas ou períodos de seca podem favorecer o desenvolvimento dos fungos produtores de determinadas micotoxinas.
Outro desafio são as chamadas micotoxinas mascaradas e emergentes, que podem não ser identificadas pelos métodos convencionais de análise ou ainda não possuem conhecimento científico suficiente para estabelecer limites de risco.
Para reduzir os impactos, especialistas recomendam uma estratégia que começa ainda no campo, com boas práticas agrícolas, escolha adequada de variedades, controle da colheita e armazenamento correto dos grãos. Na indústria, o monitoramento das matérias-primas também é fundamental.
Entre as ferramentas disponíveis estão análises laboratoriais, testes rápidos, modelos de previsão e tecnologias capazes de identificar a exposição dos animais por meio de biomarcadores, ampliando a capacidade de diagnóstico.
O alerta também ultrapassa as fronteiras da produção. A presença de micotoxinas pode influenciar a segurança alimentar, a produtividade, os custos de produção e até o comércio internacional, já que diferentes mercados estabelecem tolerâncias específicas para essas substâncias.
O recado do encontro é claro: quando se fala em micotoxinas, o problema nem sempre está no que é possível enxergar. Muitas vezes, o maior prejuízo está justamente naquilo que permanece invisível, mas reduz silenciosamente a eficiência da produção.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião de Perfil Brasil.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.