Médicos tratam de traumas de internações em UTI
Por muitos anos, os médicos consideravam que seu trabalho estava feito caso os pacientes saíssem vivos das unidades de terapia intensiva (UTIs). Agora, porém, pesquisadores se declararam alarmados com as constatações surgidas do acompanhamento de pacientes nos meses e anos posteriores a uma internação em UTI. Os pacientes, mesmo os mais jovens, podem sofrer de fraqueza por anos. Alguns têm dificuldade para pensar e se concentrar, ou sofrem de síndrome de estresse pós-traumático e de lembranças de pesadelos terríveis que tiveram quando estavam sedados.
» Chat: tecle sobre o assuntoEmbora os pacientes possam estar sofrendo efeitos persistentes das doenças que os levaram a uma UTI, os pesquisadores estão cada vez mais convencidos de que passar dias, semanas ou meses em leitos conectados a aparelhos de sustentação da vida em uma unidade como essa pode gerar efeitos inesperados e duradouros.
Assim, agora algumas UTIs estão tentando uma solução que parece radical: reduzir os níveis de anestesia e fazer com que os pacientes se levantem e caminhem ainda que estejam gravemente enfermos - mesmo que isso envolva deslocamento com sondas, tubos de alimentação e conexões com pulmões artificiais.
"Uma estada de poucos dias em uma UTI pode ter efeitos físicos devastadores, no período imediatamente posterior", disse o Dr. Naeem Ali, da Universidade Estadual do Ohio. Em um estudo recente, ele e colegas em três outras universidades reportaram que 25% dos pacientes que passaram pelo menos cinco dias conectados a máquinas de respiração artificial não conseguiam usar os braços ou se sentar sem ajuda. Muitos não tinham força suficiente para empurrar para trás a mão do pesquisador.
"Alguns dos pacientes que testamos pareciam essencialmente paralisados", ele contou. Os pesquisadores dizem que as questões sobre como e por que uma internação em UTI se torna tão devastadora, além dos novos esforços para promover mudança acentuada nessa experiência são cada vez mais importantes pois, à medida que a população envelhece, mais pessoas passam por esse tipo de internação. E, com os avanços da medicina, mais pacientes sobrevivem à experiência.
"Nós imaginávamos que esses pacientes simplesmente se curavam", disse o Dr. Pete Morris, do Centro Médico da Universidade Batista Wake Forest. "Mas agora muitos relatórios de diferentes universidades informam que não é assim tão simples."
Todos os médicos de UTI parecem ter histórias sobre um paciente que serve para ilustrar esse ponto de maneira inesquecível. Para Morris, o momento da verdade veio quando ele visitou uma jovem que tinha acabado de sair de sua unidade de terapia intensiva. Ela estava em um quarto comum do hospital, deitada na cama, com uma bandeja de comida ainda coberta na mesinha ao lado da cama. "Perguntei se ela estava bem e se estava com fome", contou o médico. "Ela respondeu que estava com muita fome, mas que não tinha força para levantar a tampa da bandeja ou se alimentar. Ela mal conseguia erguer os braços." "Foi como se uma lâmpada se acendesse em minha cabeça", disse Morris.
Para o Dr. Dale Needham, que dirige o centro de atendimento crítico e o programa de reabilitação do Hospital Johns Hopkins, os momentos da verdade surgiram em um estudo que ele iniciou, para acompanhar pacientes nos cinco anos posteriores a sua saída do hospital. Muitos deles tiveram dificuldade para retomar a força e alguns jamais foram os mesmos depois da passagem pela UTI.
Agora, diz Needham, em lugar de declarar sucesso quando um paciente sai vivo da UTI, ele e outros médicos têm um novo conjunto de desafios. "Estamos nos perguntando o que podemos fazer desde o primeiro dia para tirar a pessoa do hospital e recolocá-la no trabalho o mais cedo possível, sem problemas de fraqueza, humor ou desânimo. O que podemos fazer por elas?"
Tradução: Paulo Migliacci ME