Hipoglicemia noturna: ela levantava entre 4h e 6h, dobrava cobertores e limpava mesas sem acordar; exames revelaram alteração no pâncreas
Hipoglicemia noturna pode afetar o funcionamento do cérebro e alterar o comportamento. O caso da mulher que fazia tarefas dormindo.
Uma mulher de 58 anos na China realizava tarefas domésticas dormindo devido a episódios graves de hipoglicemia noturna. Inicialmente confundido com distúrbios do sono ou epilepsia, o quadro de confusão mental e perda de consciência decorria da falta de glicose no cérebro provocada pelo excesso de insulina. Exames revelaram um hamartoma pancreático, tumor benigno e raro no pâncreas. Após a remoção cirúrgica da lesão, as taxas de açúcar se normalizaram e os episódios noturnos cessaram por completo.
Durante seis meses, uma mulher de 58 anos na China apresentou um comportamento incomum nas primeiras horas da manhã. Entre 4h e 6h, levantava da cama, dobrava cobertores, caminhava pela casa e limpava mesas. Em outras noites, gritava, tocava repetidamente a cabeça ou se movimentava tanto que chegava a cair da cama.
O mais intrigante era que sua família não conseguia despertá-la durante os episódios. Depois, ela não se lembrava de nada do que havia acontecido.
O caso foi relatado em um artigo científico publicado recentemente na revista Frontiers in Oncology. O que parecia um problema do sono ou até epilepsia acabou levando os médicos a uma descoberta inesperada. A mulher apresentava quedas graves da glicose durante a noite, associadas a uma formação rara e benigna no pâncreas.
O que acontecia antes de amanhecer
A mulher trabalhava em um escritório e, além dos episódios noturnos, apresentava outros sinais. Ao longo de seis meses, perdeu cerca de 5 quilos, sentiu menos disposição e percebeu uma piora na concentração.
Ela também roncava intensamente e havia recebido, um mês antes da internação, o diagnóstico de apneia obstrutiva do sono, condição em que a respiração sofre interrupções repetidas durante o sono.
Em alguns episódios, apresentou perda involuntária de urina.
Os médicos consideraram duas possibilidades principais, o transtorno comportamental do sono REM, que pode levar uma pessoa a representar fisicamente os próprios sonhos, e uma forma de epilepsia que provoca episódios noturnos.
O eletroencefalograma não mostrou sinais definitivos de epilepsia. A pista decisiva veio das medições feitas pela família, que registrou valores de glicose próximos de 36 mg/dL durante os episódios.
A pista que mudou a investigação
No hospital, os médicos confirmaram episódios de hipoglicemia noturna, com a glicose da mulher caindo drasticamente durante o sono, para níveis entre 22 e 36 mg/dL.
O cérebro precisa de glicose para funcionar. Quando a disponibilidade desse combustível é insuficiente, a pessoa pode apresentar confusão e comportamentos incomuns, além de convulsões nos casos mais graves.
Esse efeito da falta de glicose sobre o cérebro é chamado de neuroglicopenia e poderia explicar o que acontecia com a mulher.
Mas por que sua glicose caía tanto? Os exames mostraram que a insulina, hormônio que ajuda a retirar a glicose do sangue, continuava elevada mesmo quando o nível de açúcar já estava muito baixo.
Isso levou os médicos a suspeitar de um insulinoma, uma formação no pâncreas que pode produzir insulina em excesso. A ressonância magnética revelou uma lesão de aproximadamente 1,9 centímetro na cauda do órgão.
Antes de decidir pela cirurgia, a equipe tentou controlar as quedas noturnas com um lanche antes de dormir e suporte nutricional. As medidas, porém, tiveram efeito limitado.
Depois da cirurgia, as noites voltaram ao normal
A mulher passou por uma cirurgia por laparoscopia, técnica realizada por pequenas incisões, para retirar a cauda do pâncreas, onde estava a lesão. A análise revelou um hamartoma pancreático, uma formação benigna, e não o insulinoma que os médicos suspeitavam.
Depois da operação, as quedas de glicose cessaram, e os episódios noturnos desapareceram. A mulher também relatou melhora da disposição, da concentração e da qualidade do sono.
Quando o comportamento durante o sono merece atenção
A hipoglicemia, ou queda excessiva da glicose no sangue, pode afetar o funcionamento do cérebro. Além de fraqueza e suor excessivo, pode provocar confusão e mudanças de comportamento.
Quando a falta de glicose é intensa, o quadro pode evoluir para convulsões ou perda de consciência.
No caso da mulher, os episódios noturnos estavam ligados a quedas acentuadas da glicose, mas a relação exata entre a lesão no pâncreas e esse problema não foi comprovada diretamente pelos médicos.
Isso não significa que comportamentos incomuns durante o sono indiquem uma alteração pancreática.
Existem outras causas possíveis, e episódios repetidos precisam ser avaliados, sobretudo quando vêm acompanhados de cansaço persistente, suor excessivo ou perda de peso sem explicação.
Se você ou alguém da família apresentar episódios assim, procure avaliação médica e relate o que acontece, em que horário e quais outros sintomas aparecem.
Convulsões ou perda de consciência exigem atendimento de emergência.
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