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Após câncer, corredora compara: "cada químio é 1km a menos"

Deborah Aquino teve câncer de mama e conta no livro 'Num Piscar de Olhos' como foi a luta contra doença

16 jul 2015 - 11h01
(atualizado às 11h14)
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A maratonista ao lado do marido Fábio e da filha Duda: “Apoio da família foi fundametal”
A maratonista ao lado do marido Fábio e da filha Duda: “Apoio da família foi fundametal”
Foto: Divulgação

Deborah Aquino é uma leonina prestes a completar 40 anos. Ela é maratonista, vaidosa, hoje com cabelos encaracolados e, após exercer por alguns anos a odontologia, faculdade que cursou a contragosto, pois queria mesmo fazer direito, poderia ser apenas mais uma mulher que viu na corrida uma forma de encarar o mundo e onde conheceu seu atual marido, Fábio, com quem teve a Duda, hoje com 4 anos. Sim, poderia. No meio desse caminho todo, surgiu um visitante inesperado: um câncer de mama descoberto logo depois de ter feito sua primeira maratona, em Berlim, em 2013. A luta contra a doença é relatada no livro Num Piscar de Olhos (editora Gregory, R$ 39,90) lançado na quarta-feira (15), na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, em São Paulo.

Sem pretensão de escrever uma obra de superação ou de mostrar um lado cor de rosa da vida após ter retirado as mamas, recolocado silicone, ter ficado careca e sofrido com as quimioterapias vermelhas, as mais fortes, Deborah compara a batalha com uma maratona. “A gente nunca treina os 42 km, o final é sempre inesperado, assim como o tratamento de câncer. Nunca sabemos como o corpo vai reagir durante uma maratona ou durante as quimioterapias. No treinamento, fui ensinada a pensar em 1 km de cada vez. Quando soube que teria de fazer quimioterapia, pensei exatamente isso: cada químio, 1 km a menos”, disse Deborah em entrevista ao Terra.

No livro, assim como no blog (Blogdadebs, que criou quando estava grávida da filha Maria Eduarda), Deborah, ou Debs, como gosta de ser chamada, fala de forma leve e fluida, sem chororô ou autopiedade. E se expõe de forma corajosa. “Não pensei em escrever um livro, mas recebi o convite da editora e topei. Comecei a escrever, pensando em depois filtrar algumas coisas. No final, acabou ficando muita coisa lá. Escancarei a porta da sala de terapia”, contou, rindo. Ela conta sobre sua relação difícil com o pai, seus relacionamentos frustrados, sua ansiedade e seus medos.

Deborah Aquino em foto que ilustra o livro Num Piscar de Olhos, onde fala como enfrentou o câncer
Deborah Aquino em foto que ilustra o livro Num Piscar de Olhos, onde fala como enfrentou o câncer
Foto: Divulgação

Mesmo tendo a herança genética de sua mãe, que teve câncer de mama, mas não precisou de quimioterapia por ter descoberto cedo, seu câncer foi totalmente inesperado. Nem mesmo um de seus médicos, o mastologista Waldemir Rezende, que fez o prefácio do livro, acreditava que a doença seria tão forte. Isso porque Debs tinha um estilo de vida saudável, com a alimentação, o esporte e os exames em geral.

“Fui para a sala de cirurgia como se estivesse entrando num castelo da Cinderela. Meus nódulos tinham aumentando muito. Entrei para retirar sabendo que tinha 12, mas provavelmente benignos, apenas um maior seria maligno. Pensava que seria como trocar a prótese de silicone, que já havia colocado há algum tempo. Já sabia que ia tirar as duas mamas, como prevenção. Quando acordei da anestesia, soube que cinco nódulos eram malignos, tinha metástase do linfonodo. Ou seja, eu teria de fazer químio e radioterapia.”

No livro, Debs conta como foram as sessões, como reagiu a elas, como queria interromper o processo numa das vezes quando sua veia estourou, e que se achava suficientemente forte para lidar com os efeitos colaterais do tratamento sem precisar de ninguém. Mas um dia desabou, não conseguia sair da cama, com os enjôos e dores no corpo. “Neste dia, agradeci que tinha gente ao meu lado. Peguei na mão de minha sogra e rezava para não morrer”, escreveu no livro. “A químio mata as coisas ruins, mas também as boas, como a serotonina, então é fácil entrar em depressão. Hoje, lembrando do que passei, é como um filme. A lição disso tudo é que a felicidade vem de dentro para fora. A família, meu marido, minha filha, os amigos e até meus seguidores das redes sociais (mais de 96 mil) foram fundamentais em todo o processo”, completou.

Esporte e vaidade ajudaram maratonista no tratamento contra câncer:

Vaidade
Dentro de todo o tratamento, entra o fator vaidade. “Com a químio, todos os pelos do corpo caem. Não é fácil encarar essa pessoa que você vê no espelho, diferente da que estava acostumada. Sempre fui vaidosa. A primeira coisa que fiz foi comprar uma peruca parecida com meus cabelos, lisos e castanhos. Gastei R$ 6 mil à toa. Essa é uma dica para quem tem o problema: antes de comprar a peruca, espere para se ver nesta nova fase”. Debs começou a usar lenços, se maquiava e saía com óculos de sol. “Depois, nem lenço mais usei. Como sou alta, uma moça, ao me ver careca, perguntou se eu tinha feito um trabalho de modelo para ter de cortar os cabelos. Disse a ela que era porque estava passando por um tratamento de câncer. Claro que ficou sem jeito, mas eu não podia mentir sobre a doença. Se antes eram lisos, os novos fios que nasceram vieram totalmente enrolados.

Deborah brinca com a filha Duda, posando com lenços usados durante o tempo que ficou careca
Deborah brinca com a filha Duda, posando com lenços usados durante o tempo que ficou careca
Foto: Divulgação

Corrida
A paixão pela corrida começou há 12 anos, e quem pensa que ela parou após o tratamento está muito enganado. Menos de um mês após terminar a quimioterapia, Deborah recebeu um convite da Nike, que selecionou atletas do mundo todo para representar seu País, não pelos tempos obtidos, mas por suas histórias de vida. Debs não teve dúvida: aceitou na hora. Estava cercada de uma equipe médica e percorreu os 23 km na Indonésia como mais uma etapa da batalha contra a doença. Chegou em último, mas com uma sensação de vitória. “Foi um cartão de boas-vindas para minha nova vida.” Depois dessa corrida, já fez duas maratonas e correu a de Boston, em abril.

Deborah Aquino completando a maratona de Boston desde ano: primeira corrida de 42 km após o fim do tratamento
Deborah Aquino completando a maratona de Boston desde ano: primeira corrida de 42 km após o fim do tratamento
Foto: Divulgação

Medo
Durante os próximos 10 anos, Deborah terá que tomar um remédio como prevenção. Só depois desse tempo saberá se estará totalmente livre da doença. Até lá, conviverá com efeitos colaterais como menopausa precoce, possível osteoporose etc. “A corrida me ajuda muito. Agora um conselho para as mulheres que passam por isso é mudar o estilo de vida: ter alimentação saudável e fazer exercícios, não precisa correr, mas nadar, caminhar. A doença muda nossa perspectiva de vida, temos de acreditar, para não pirar com o medo de o câncer voltar. E esse é meu maior medo hoje".

Ao lado do marido Fábio, também amante de corridas e que a apoiou e incentivou durante todo o processo de tratamento
Ao lado do marido Fábio, também amante de corridas e que a apoiou e incentivou durante todo o processo de tratamento
Foto: Divulgação
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Fonte: Ponto a Ponto Ideias
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