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Coronavírus é exemplo de como julgamos os riscos de forma errada

Embora as estatísticas coloquem a gripe ao lado ou mesmo à frente do novo coronavírus em termos de mortalidade, a mente tem seus próprios meios de medir o perigo

15 fev 2020
05h10
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Logo depois da Universidade de Washington anunciar que o quarto caso suspeito do novo coronavírus teve resultado negativo, dois professores com suspeitas de terem contraído o vírus e outras pessoas envolvidas com a saúde pública realizaram um pequeno jantar para os alunos e membros da faculdade.

Como todas as pessoas no campus, e em boa parte do mundo, o coronavírus foi o tópico predominante da conversa. Mas um dos participantes, uma aluna da faculdade de saúde pública, exasperada com o assunto, citou várias estatísticas: o vírus matou 1.300 pessoas em todo o mundo e infectou uma dezena nos Estados Unidos. Algo alarmante, mas uma gripe muito mais comum, a influenza, mata 400 mil pessoas a cada ano, incluindo 34.100 americanos no ano passado e 51.099 no ano anterior.

Existem profundas dúvidas sobre a taxa de mortalidade do novo coronavírus, com uma estimativa que chega a 20 vezes mais a da gripe comum, embora algumas indiquem 0,16% de afetados foram da província chinesa de Hubei, mais ou menos o equivalente à influenza.

"Não havia algo estranho?", indagou a aluna, chamando atenção para a extrema disparidade nas reações do público?

Ann Bostrom, que colaborou para o jantar riu quando relatou a conversa. Segundo ela, a estudante estava certa quanto ao vírus, mas não no caso das pessoas. Ann é especialista em como, psicologicamente, os humanos avaliam o risco.

Embora as estatísticas coloquem a gripe ao lado ou mesmo à frente do novo coronavírus em termos de mortalidade, ela diz que a mente tem seus próprios meios de medir o perigo. E a epidemia do novo coronavírus, chamado COVID-19, atinge quase todos os gatilhos mentais que temos.

Isso explica a onda global de inquietação.

Naturalmente não é nada irracional ter medo dessa epidemia de coronavírus que avança rapidamente na China e em outros lugares.

Mas existe aí uma lição, afirmam psicólogos e especialistas em saúde pública, do quase terror que o vírus induz, mesmo quando ameaças graves, como a gripe, provocam pouco mais do que desdém. Isso ilustra o viés inconsciente na maneira como os humanos reagem ao risco e os impulsos que com frequência orientam nossa resposta - às vezes com graves consequências.

Como nosso cérebro avalia a ameaça

O mundo está repleto de riscos, grandes e pequenos. Teoricamente o uso de atalhos ajuda as pessoas a imaginarem o que é motivo de preocupação e o que deve ser ignorado. Mas esses atalhos da mente podem ser imperfeitos.

O coronavírus é um caso que explica isto.

"Este caso afeta todos os pontos sensíveis que levam a uma intensificação da percepção do risco", disse Paul Slovic, psicólogo da Universidade de Oregon e um dos precursores da moderna psicologia do risco.

Quando você se defronta com um risco potencial, seu cérebro realiza uma busca rápida das experiências passadas no caso. Se ele consegue facilmente reunir várias lembranças alarmantes, então vai concluir que o perigo é grande. Mas com frequência ele não consegue avaliar se essas lembranças são realmente representativas.

Um exemplo clássico são os acidentes de avião.

Se dois acidentes ocorrem numa rápida sucessão, voar de repente fica mais aterrorizador - mesmo que sua mente consciente saiba que esses acidentes são uma aberração estatística com pouca relevância no tocante à segurança do seu próximo voo. Mas se você mais tarde realizar algumas viagens de avião e nada ocorrer de errado, seu cérebro muito provavelmente começará a lhe informar que voar é seguro.

No tocante ao coronavírus, disse Slovic, é como se as pessoas estivessem tendo uma notícia atrás da outra de quedas de aviões.

"Estamos ouvindo falar de fatalidades. Não sobre as cerca de 98% de pessoas que estão se recuperando da doença e que há casos em que a doença é moderada", disse Slovic.

Essa tendência vai em ambas as direções, levando não só a um alarme desnecessário, mas também a uma complacência indevida. Embora a gripe mate dezenas de milhares de americanos a cada ano, muitas experiências de pessoas neste são relativamente rotineiras.

Vieses, atalhos e intuição

O coronavírus também aproveita outros atalhos psicológicos para avaliação do risco.

Um é a novidade: estamos condicionados a nos concentrar intensamente nas novas ameaças, buscando qualquer causa para alarme. O que nos leva a ficar obcecados com as notícias mais assustadores e os piores cenários, caso em que o risco se torna ainda maior.

Talvez o atalho mais poderoso seja a emoção.

Avaliar o perigo apresentado pelo coronavírus é extremamente difícil, mesmo cientistas estão inseguros. Mas nosso cérebro age como se tivesse uma maneira mais fácil para isso: ele traduz as reações emocionais naquilo que acreditamos serem conclusões congruentes, mesmo se os dados concretos nos informam o contrário.

"O mundo na nossa mente não é uma réplica precisa da realidade" escreveu Daniel Kahneman, economista vencedor de um prêmio Nobel, em seu livro de 2011. "Nossas expectativas sobre a frequência de eventos são distorcidas pelo predomínio e intensidade emocionais das mensagens a que estamos expostos".

Ameaças que sentimos estão fora do controle, como o surto desenfreado de uma doença provocam uma resposta similar, levando as pessoas a buscarem maneiras para retomar o controle, como por exemplo, estocando remédios.

Os riscos que assumimos voluntariamente, ou pelo menos achamos que assumimos voluntariamente, com frequência são vistos como menos perigosos do que são na realidade.

Pense no risco de dirigir, que muitos assumem voluntariamente, e que mata mais de 40 mil americanos todo ano. Mas terrorismo, uma ameaça imposta a nós, mata menos do que 100.

Existem incontáveis razões racionais pelas quais o terrorismo provoca uma resposta mais contundente do que as mortes no trânsito. É o mesmo caso de uma epidemia pouco compreendida e que se propaga rapidamente, em comparação com uma gripe familiar.

E esse é exatamente o ponto, dizem os psicólogos.

"Tudo isso interfere em nossos sentimentos. E essa é a representação da ameaça para nós. Não são as estatísticas de risco, mas as percepções do risco". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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Estadão
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