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Como lidavam com as doenças e a dor na pré-história?

Adoecer e aprender a se curar já fazia parte da experiência humana há milhares de anos

26 dez 2025 - 12h52
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Hoje consideramos algo natural ir a hospitais, os diagnósticos e os medicamentos da medicina moderna, mas a preocupação em aliviar a dor nos acompanha há milhares de anos. Registos arqueológicos documentam os estragos causados pela doença no ser humano desde o Paleolítico. Fraturas consolidadas, sinais de artrite e patologias dentárias mostram uma longa convivência com o sofrimento e a limitações físicas nos neandertais e nos Homo sapiens arcaicos.

Tratamentos neandertais

Esses mesmos registros também fornecem as primeiras evidências de mitigação da dor, como o uso de plantas medicinais, manipulação dentária ou cuidados a indivíduos com deficiência.

Uma das respostas mais antigas frente ao mal-estar foi o consumo de plantas e ervas com propriedades curativas. Por exemplo, sabemos que os neandertais que habitavam a caverna de El Sidrón (Astúrias) usavam analgésicos e antibióticos de fontes naturais como ácido salicílico e penicilina provenientes de brotos de álamos e fungos, ou da camomila (Chamaemelum nobile).

Com o sedentarismo, mais infecções

Com a chegada do Neolítico, o panorama biossanitário mudou radicalmente. O sedentarismo, a convivência próxima com animais domésticos, as dietas à base de cereais, o adensamento demográfico e o surgimento de novas atividades econômicas criaram a tempestade perfeita para a proliferação de infecções, distúrbios metabólicos, patologias osteoarticulares, problemas dentários e parasitoses.

A saúde deteriorou-se em muitos aspectos, mas as respostas aos problemas também: multiplicaram-se práticas destinadas a prevenir, tratar e mitigar o sofrimento.

As evidências de que houve trepanações cranianas cada vez mais complexas, cuidados prolongados a pessoas dependentes, uso sistemático de plantas medicinais e substâncias psicoativas, procedimentos cirúrgicos rudimentares e tratamentos para infecções, dores crônicas ou distúrbios intestinais mostram um profundo conhecimento empírico do corpo humano e do ambiente vegetal e animal.

Remédios extraídos da natureza

A mesma familiaridade com o poder terapêutico da flora aparece em outros lugares do mundo. A análise de fezes fossilizadas com 8 mil anos de idade, provenientes da caverna de Boqueirão da Pedra Furada, no Piauí, demonstra um grande conhecimento dos habitantes sobre plantas medicinais.

O estudo permite corroborar o uso de diferentes variedades de árvores e plantas para aliviar problemas intestinais e respiratórios, bem como a utilização de outras como antiparasitários, analgésicos ou expectorantes.

O paciente "de gelo"

O testemunho mais completo da medicina pré-histórica é o de Ötzi, o "homem do gelo", encontrado nos Alpes e datado de entre 3000 e 4000 aC. Seu corpo revela uma saúde muito prejudicada: artrite no quadril e coluna, lesões vasculares precoces, problemas pulmonares por inalação de fumo, cáries e periodontite, anemia leve, osteomalácia e infecções intestinais causadas por Helicobacter pylori e pelo parasita Trichuris trichiura.

Mas ele também carregava remédios. Entre seus pertences, foram encontrados o pólpio de bétula (Fomitopsis betulina), um fungo com propriedades anti-helmínticas, e restos de uma samambaia medicinal, eficaz contra parasitas como os que ele possuía.

Além disso, suas mais de 60 tatuagens concentram-se em áreas doloridas, o que sugere um uso terapêutico, com técnicas de pressão, para aliviar desconfortos crônicos.

O caso de Ötzi mostra que, juntamente com uma vida difícil e doenças frequentes, as comunidades pré-históricas desenvolveram conhecimentos empíricos sobre plantas, fungos e cuidados corporais. Mesmo há mais de 5 mil anos, adoecer e se tratar já fazia parte da experiência humana.

Drogas sagradas… e anestésicas

O consumo de substâncias psicoativas capazes de alterar a percepção também não é uma novidade.

Plantas como a papoula-dormideira (Papaver somniferum), a efedra (Ephedra fragilis), o beleno (Hyoscyamus niger), a mandrágora (Mandragora officinarum) ou o estramônio (Datura stramonium) estão presentes em numerosos sítios arqueológicos pré-históricos europeus.

Sua descoberta em sepulturas, depósitos rituais ou espaços cerimoniais sugere que eram usadas para acompanhar práticas simbólicas, transes ou experiências ligadas à morte e ao sagrado.

No entanto, seu papel nem sempre foi estritamente espiritual: o crânio masculino de Can Tintorer (Barcelona), submetido a duas trepanações, é o único do sítio arqueológico com evidências de consumo de papoula, o que aponta para um possível uso calmante ou analgésico para lidar com a dor e a convalescença.

Um legado que continua vivo

Muitos desses recursos vegetais continuam sendo hoje a base dos medicamentos modernos. Das cascas com salicilatos derivou-se o princípio ativo da aspirina, de fungos como os do gênero Penicillium surgiram antibióticos e de plantas como a efedra ou a papoula da Índia provêm compostos que continuam sendo usados em medicamentos respiratórios, analgésicos ou opiáceos.

Esses indícios nos lembram que a medicina em sua forma mais humana não começa com a escrita ou com os tratados clássicos, mas com a necessidade de compreender o corpo e o sofrimento. Onde havia doenças, surgiu também a busca por alívio.

*Sonia Díaz Navarro é pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de Burgos, na Espanha.

Este conteúdo foi publicado originalmente em The Conversation. Para ler o texto original, .

Estadão
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