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Cientistas holandeses descobrem como células de defesa do cérebro podem acabar agravando a esclerose múltipla

m estudo recente, pesquisadores do Instituto Holandês de Neurociência investigaram em detalhes o que acontece com as células de defesa do cérebro quando elas entram em contato contínuo com grandes quantidades de mielina destruída. Saiba mais sobre estudo relacionado à esclerose múltipla.

1 jul 2026 - 09h00
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A esclerose múltipla é uma doença em que o próprio sistema de defesa do corpo passa a atacar partes do sistema nervoso central, que inclui cérebro e medula espinhal. O alvo principal é a mielina, uma camada de gordura que envolve e protege os neurônios, funcionando como um "isolante elétrico". Quando essa capa protetora é danificada, a comunicação entre o cérebro e o resto do corpo fica prejudicada, o que pode gerar sintomas como fraqueza, alterações na visão, perda de equilíbrio e dificuldades de memória.

Apesar de todos receberem o mesmo diagnóstico, a esclerose múltipla não se comporta da mesma forma em todas as pessoas. Em alguns casos, a doença avança lentamente, com longos intervalos entre os surtos. Em outros, a progressão é rápida e leva a uma perda de funções mais acelerada. Pesquisadores do Instituto Holandês de Neurociência (KNAW) vêm tentando entender por que essa diferença acontece e o que, dentro do cérebro, faz a doença ganhar mais ou menos velocidade ao longo dos anos.

A esclerose múltipla é uma doença em que o próprio sistema de defesa do corpo passa a atacar partes do sistema nervoso central, que inclui cérebro e medula espinhal. O alvo principal é a mielina, uma camada de gordura que envolve e protege os neurônios, funcionando como um “isolante elétrico” – depositphotos.com / katerynakon
A esclerose múltipla é uma doença em que o próprio sistema de defesa do corpo passa a atacar partes do sistema nervoso central, que inclui cérebro e medula espinhal. O alvo principal é a mielina, uma camada de gordura que envolve e protege os neurônios, funcionando como um “isolante elétrico” – depositphotos.com / katerynakon
Foto: Giro 10

O que acontece no cérebro na esclerose múltipla?

Dentro do sistema nervoso, existem células de defesa especializadas, conhecidas como microglias e macrófagos. Em condições normais, essas células funcionam como equipes de limpeza e vigilância: identificam restos de células mortas, fragmentos de mielina desgastada, microrganismos e outras substâncias que não deveriam permanecer ali, e ajudam a removê-los. Dessa forma, colaboram para manter o tecido nervoso organizado e em funcionamento adequado.

Na esclerose múltipla, porém, o cenário muda. Quando a mielina é atacada pelo sistema imunológico, ela se rompe e libera grande quantidade de gordura e proteínas no ambiente ao redor dos neurônios. A microglia e os macrófagos são chamados para "apagar o incêndio" e fazer a limpeza desse material danificado. Em teoria, esse processo de remoção seria essencial para que o tecido pudesse se recuperar. A questão é que, em determinadas condições, essa tarefa de limpeza deixa de ser apenas protetora e passa a ter um papel na piora da doença.

Como a descoberta do KNAW explica a progressão diferente da esclerose múltipla?

Em estudo recente, pesquisadores do Instituto Holandês de Neurociência investigaram em detalhes o que acontece com as células de defesa do cérebro quando elas entram em contato contínuo com grandes quantidades de mielina destruída. Os cientistas observaram que, ao tentar limpar esse excesso de material gorduroso, microglias e macrófagos acabam absorvendo muita gordura de uma só vez. Essa sobrecarga faz com que essas células se transformem em chamadas "células espumosas" (em inglês, foamy cells), um tipo celular já conhecido em outras doenças inflamatórias.

Essas células espumosas ficam literalmente cheias de gotículas de gordura em seu interior, o que leva a uma espécie de falha metabólica. Em vez de manter o papel de limpeza e proteção, elas passam a funcionar de maneira alterada. O estudo mostrou que, nesse estado sobrecarregado, as células começam a liberar mais substâncias inflamatórias e menos moléculas associadas à reparação. Com isso, a inflamação local aumenta e novas áreas de mielina acabam sendo danificadas, ampliando as lesões no sistema nervoso.

Os pesquisadores descrevem esse fenômeno como um "ciclo vicioso" de inflamação. A sequência pode ser resumida em etapas:

  • A mielina é atacada e destruída.
  • Microglias e macrófagos tentam limpar os restos dessa mielina danificada.
  • Ao absorver muita gordura, tornam-se células espumosas e perdem o equilíbrio metabólico.
  • Nesse estado, passam a produzir mais mediadores inflamatórios.
  • A inflamação aumenta e provoca ainda mais dano à mielina.

Esse processo repetido pode explicar por que, em algumas pessoas, a esclerose múltipla entra em uma fase de progressão contínua, com piora gradual mesmo na ausência de surtos claros. Diferenças na forma como cada organismo lida com a sobrecarga de gordura dentro dessas células de defesa podem ajudar a entender por que a doença é mais agressiva em certos pacientes e mais lenta em outros.

De que forma esse "ciclo vicioso" acelera a doença?

O conceito de ciclo vicioso ajuda a visualizar como a inflamação, uma resposta inicialmente destinada à proteção, passa a alimentar o próprio problema. No início, o ataque à mielina gera uma lesão localizada. As células de defesa chegam para remover o material danificado, o que seria uma etapa importante de limpeza. Porém, ao ficarem sobrecarregadas de gordura, tornam-se fonte adicional de inflamação em vez de solução.

Com isso, a área de dano não apenas deixa de se recuperar totalmente como também se expande. Novas regiões de mielina podem ser afetadas e o sistema nervoso começa a acumular cicatrizes e perdas estruturais. A cada ciclo, mais mielina é destruída, mais gordura é liberada e mais células entram no estado espumoso. Em longo prazo, isso contribui para a progressão da esclerose múltipla, especialmente nas fases em que a doença avança mesmo sem crises evidentes.

  1. Primeiro dano: ataque autoimune à mielina.
  2. Limpeza intensiva: microglias e macrófagos absorvem muita gordura.
  3. Transformação: surgimento das células espumosas sobrecarregadas.
  4. Inflamação sustentada: liberação contínua de substâncias inflamatórias.
  5. Nova destruição: mais mielina é atacada, reiniciando o ciclo.
Em estudo recente, pesquisadores do Instituto Holandês de Neurociência investigaram em detalhes o que acontece com as células de defesa do cérebro quando elas entram em contato contínuo com grandes quantidades de mielina destruída – depositphotos.com / katerynakon
Em estudo recente, pesquisadores do Instituto Holandês de Neurociência investigaram em detalhes o que acontece com as células de defesa do cérebro quando elas entram em contato contínuo com grandes quantidades de mielina destruída – depositphotos.com / katerynakon
Foto: Giro 10

Qual é a importância científica dessa descoberta para o tratamento da esclerose múltipla?

A maioria dos tratamentos atuais para esclerose múltipla tem como foco principal reduzir surtos e controlar a atividade do sistema imunológico no sangue e no líquido que circula ao redor do cérebro. Essas terapias, em geral, são eficazes para diminuir o número de crises inflamatórias visíveis em exames. No entanto, muitas pessoas continuam apresentando progressão silenciosa da incapacidade, mesmo com a doença aparentemente controlada nos marcadores tradicionais.

A descoberta do papel das células espumosas e da sobrecarga de gordura dentro da microglia e dos macrófagos oferece uma nova peça para esse quebra-cabeça. Em vez de olhar apenas para o ataque inicial à mielina, os cientistas passam a observar também o que acontece depois, no interior das próprias células de defesa do sistema nervoso. Esse ponto abre várias possibilidades de pesquisa:

  • Novos alvos terapêuticos: desenvolvimento de medicamentos que ajudem essas células a lidar melhor com o excesso de gordura, evitando que se transformem em células espumosas ou reduzindo a produção de substâncias inflamatórias quando já estão sobrecarregadas.
  • Estratégias de limpeza de lipídios: estudos sobre formas de facilitar a eliminação ou o reaproveitamento seguro da gordura da mielina destruída, reduzindo o acúmulo prejudicial dentro das células.
  • Marcadores de gravidade: identificação de substâncias no sangue, no líquor ou em exames de imagem que indiquem a presença de células espumosas ou de falha metabólica, ajudando a prever quais pacientes têm maior risco de progressão rápida.

Ao trazer luz para esses mecanismos internos das células de defesa do cérebro, o trabalho do Instituto Holandês de Neurociência amplia a compreensão da esclerose múltipla como uma doença que não envolve apenas surtos visíveis, mas também processos inflamatórios e metabólicos crônicos, muitas vezes silenciosos. Esse conhecimento pode orientar, nos próximos anos, o desenho de tratamentos combinados, que atuem tanto na redução dos ataques autoimunes quanto na modulação da resposta das microglias e dos macrófagos.

Os resultados não representam uma cura imediata para a esclerose múltipla, nem alteram de forma instantânea as opções terapêuticas disponíveis. No entanto, indicam um caminho promissor para entender por que a doença progride de forma tão diferente entre as pessoas e como interferir nesse percurso. Ao revelar como o excesso de gordura da mielina danificada pode transformar células protetoras em fontes de inflamação, a pesquisa ajuda a construir uma base mais sólida para o desenvolvimento de terapias futuras voltadas não apenas para evitar novos surtos, mas também para desacelerar a marcha silenciosa da doença ao longo do tempo.

Giro 10
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