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Exposição prolongada a componentes do petróleo está associada a risco de doença cardíaca

Pesquisador faz alerta diante do vazamento de óleo no nordeste brasileiro; problemas graves ocorreriam no longo prazo

16 out 2019
12h44
atualizado às 12h50
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A exposição a substâncias presentes no petróleo, em especial os hidrocarbonetos, está associada ao risco de desenvolver alterações ou doenças cardiovasculares, segundo estudos recentes. O alerta ganha destaque diante do vazamento de petróleo cru que, desde o início de setembro, atinge praias dos nove Estados do nordeste brasileiro. O desastre ambiental também pode desencadear doenças respiratórias e de pele, mas seria necessário o contato prolongado com o poluente para levar a problemas mais graves.

Considerando o impacto ambiental e à saúde humana, integrantes do Centro de Estudos do Sistema Nervoso Autônomo, vinculado à Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, fez um levantamento científico sobre as associações do petróleo ao risco de doença cardíaca.

Uma das pesquisas acompanhou 24.375 trabalhadores que atuaram na limpeza do derramamento de óleo no Golfo do México, em 2010, após a explosão da plataforma Deepwater Horizon. Eles foram expostos ao óleo cru e à queima do líquido. Desde o início da pesquisa, em 2011, até 2016, foram registrados 312 ataques cardíacos que ocorreram pela primeira vez no período analisado.

Para fazer a associação entre a exposição às substâncias e a ocorrência cardíaca, os pesquisadores mediram a concentração de poluentes no ar expelido pelos trabalhadores, bem como no ar do ambiente ao qual estavam expostos. Os investigadores também ponderaram outros fatores de risco, como idade, gênero e tabagismo. Dessa forma, o risco de ataque cardíaco era 1,8 vezes mais alto para aqueles que foram expostos à maior concentração de hidrocarbonetos.

"[O petróleo] é uma mistura de hidrocarbonetos — como benzeno, tolueno e etilbenzeno —, nitrogênio e enxofre. Os hidrocarbonetos causam um aumento da concentração de radicais livres que agem, inicialmente, nas células do corpo e vão prejudicar o funcionamento dos vasos sanguíneos e do coração. Existem evidências científicas de que a exposição a hidrocarbonetos contribui para aterosclerose [inflamação nas artérias] e, com o tempo, para enfarte e AVC", explica Vitor Engrácia Valenti, professor de fisiologia da Unesp e coordenador do centro de estudos que fez o levantamento científico.

Em setembro, quando a mancha de óleo começou a se espalhar por praias do nordeste do Brasil, o especialista, juntamente com estudantes da universidade, começaram a pesquisar dados por meio de revisão sistemática de outros estudos para aprofundar o tema. "É um assunto que não é tão estudado, porque raramente acontece derramamento de petróleo." O poluente já foi identificado em 161 pontos no litoral nordestino. Veja aqui a lista de praias atingidas por dia.

A avaliação do caso no Golfo do México também observou impacto negativo em quem morava perto da região afetada. Viver próximo ao derramamento de óleo foi associado a um risco 30% maior de doenças cardíacas, sendo que o risco persistiu ao longo dos cinco anos de estudo.

No caso do Brasil, Valenti sugere duas possibilidades de prejuízo aos moradores das regiões. "Aquele que tem hábito de ir à praia e tem contato com a água [do mar] tem risco maior. Quem não tem esse hábito, mora no centro da cidade ou em cidades mais distantes pode acabar comendo peixes, camarões, animais marinhos que tiveram contato com o petróleo. Ao ser ingeridos, o sistema gastrointestinal vai absorver os componentes tóxicos, que vão entrar na corrente sanguínea", diz.

O especialista reforça que a inalação é um mecanismo fisiopatológico importante, porque causa reflexos cardiovasculares que potencializam os riscos da exposição ao óleo. "Por inalação, esses agentes tóxicos entram em contato com neurônios na cavidade interna do nariz, que ativam o sistema nervoso central e desenvolvem reflexos cardiovasculares. No período longo, colabora para o aparecimento de doenças como hipertensão", afirma. Já o contato direto do produto com a pele poderia levar à posterior inalação ou entrada dos agentes tóxicos na corrente sanguínea.

Valenti e outros especialistas reforçam que problemas mais graves ocorreriam em caso de contato repetido e prolongado com o poluente. Embora a quantidade de óleo encontrada nas praias nordestinas seja grande, não é suficiente para apresentar grandes riscos à população local.

O Instituto de Defesa do Meio Ambiente em Natal (Idema), juntamente com o Projeto Tamar, elaborou um material educativo em que orienta a evitar o contato com o óleo e, caso aconteça, colocar gelo no local ou retirá-lo com óleo de cozinha. Caso a pessoa tenha reação alérgica, deve procurar urgentemente atendimento médico.

Estadão
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