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App de Pazuello indica cloroquina e antibiótico para náusea

Ministério da Saúde afirma que o TrateCOV sugere o diagnóstico por meio de sistema de pontos que obedece "rigorosos critérios clínicos"

20 jan 2021
11h33
atualizado às 11h47
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O aplicativo TrateCOV, lançado pelo Ministério da Saúde para orientar o enfrentamento da covid-19, recomenda uso de antibióticos e cloroquina, ivermectina e outros fármacos para náusea e diarreia ou para sintomas de uma ressaca, como fadiga e dor de cabeça. A lista de medicamentos sem eficácia comprovada é sugerida pela plataforma, que só pode ser usada por médicos, para qualquer soma de dois sintomas, mesmo se o paciente não saiu de casa ou teve contato com algum infectado nas duas últimas semanas.

TrateCOV indica uso do 'kit covid' mesmo para náusea e diarreia
TrateCOV indica uso do 'kit covid' mesmo para náusea e diarreia
Foto: Reprodução/TrateCOV / Estadão Conteúdo

Como mostrou o Estadão, o aplicativo foi apresentado pelo ministro Eduardo Pazuello na semana passada, quando esteve em Manaus (AM), em meio à explosão de casos da doença na cidade.

O Ministério da Saúde afirma que o TrateCOV sugere o diagnóstico por meio de sistema de pontos que obedece "rigorosos critérios clínicos". O teste com o produto é feito em Manaus, onde mais de 340 profissionais de saúde foram cadastrados no sistema. O ministério afirma que deseja expandir o uso a outras cidades.

Com estes sintomas, indicação é 'tratamento precoce'
Com estes sintomas, indicação é 'tratamento precoce'
Foto: Reprodução/TrateCOV / Estadão Conteúdo

Se o médico não quiser receitar o "tratamento precoce", precisa justificar dentro do aplicativo, por exemplo, pela "recusa do paciente", "contraindicação médica" ou "falta do medicamento".

O governo Jair Bolsonaro se isolou na defesa do tratamento com os medicamentos que compõem o "kit covid". Além da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a Associação Médica Brasileira (AMB) passou a rejeitar estes produtos. "As melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no "tratamento precoce" para a covid-19 até o presente momento", afirma nota conjunta destas entidades divulgada na terça-feira, 19.

Médico precisa justificar caso recuse prescrever o 'tratamento precoce'
Médico precisa justificar caso recuse prescrever o 'tratamento precoce'
Foto: Reprodução/TrateCOV / Estadão Conteúdo

O governo Jair Bolsonaro se isolou na defesa do tratamento com os medicamentos que compõem o "kit covid". Além da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a Associação Médica Brasileira (AMB) passou a rejeitar estes produtos. "As melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no "tratamento precoce" para a covid-19 até o presente momento", afirma nota conjunta destas entidades divulgada na terça-feira, 19.

Na semana passada, Pazuello e sua equipe foram à capital do Amazonas. O ministro deixou a cidade na véspera da falta de oxigênio ser anunciada. A passagem do general da ativa pelo Estado ficou marcada pela pressão sobre profissionais de saúde pelo uso de medicamentos sem eficácia comprovada, como a cloroquina. A Procuradoria da República no Amazonas abriu um inquérito civil para apurar se o ministério foi omisso na ajuda à região e optou pela aposta no tratamento contestado.

Pazuello afirmou, no último dia 11, em Manaus, que o pilar da estratégia do ministério contra a pandemia é o "tratamento precoce". "Diagnóstico não é do teste. Não aceitem isso. É do profissional médico. O tratamento, a prescrição, é do médico, e a orientação é precoce", disse Pazuello. "A medicação pode e deve começar antes desses exames complementares. Caso o exame lá na frente der negativo, reduz a medicação e tá ótimo. Não vai matar ninguém", completou.

Pressionado, Pazuello modulou o discurso e disse, na segunda-feira, 18, que jamais incentivou o uso de medicamento algum e apenas defendeu o "atendimento precoce". No vocabulário do governo federal, porém, a defesa do atendimento ou tratamento precoce se mistura com a pressão pelo uso da cloroquina. Há farto registro de alegações de Pazuello e de Bolsonaro de que o "kit covid" dá certo, o que contraria a própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O presidente chegou a propagandear o uso do produto ao apontá-lo para uma ema que vive no Palácio da Alvorada. Em 22 de outubro, Pazuello disse ter ficado "zero bala" após tomar o "kit completo" e recomendou que, se o médico não quiser prescrever estes medicamentos, é só buscar outro. Dias mais tarde, o general teve de ser internado num dos hospitais mais caros de Brasília por complicações da covid-19.

Ainda em Manaus, na última semana, a equipe de Pazuello fez visitas a unidades de atendimento do SUS. Médicos de diversas cidades, convidados pelo governo, reforçaram a blitz nos hospitais. Além de escutarem sobre a crise na cidade, a equipe entregou folders recomendando uso de medicamentos do "kit covid". A Procuradoria da República no Amazonas afirma ter recebido relatos de pressão pelo uso destes fármacos. Em ofício enviado à Secretaria de Saúde de Manaus, o ministério afirmou que seria "inadmissível" não prescrever os medicamentos de eficácia contestada.

Sem citar qualquer prova, Bolsonaro e Pazuello disseram que a crise de saúde em Manaus deve-se à falta do "tratamento precoce". Bolsonaro desestimula a adoção de medidas eficazes contra a pandemia, como uso de máscara e distanciamento social. "Não faziam tratamento precoce. Aumentou assustadoramente o número de mortes. Mortes por asfixia, porque não tinha oxigênio. O governo estadual e municipal deixou acabar oxigênio", disse o presidente a apoiadores no último dia 12.

Por ordem de Bolsonaro, o Laboratório do Exército fez mais de 3,2 milhões de comprimidos da cloroquina. Em novembro, estavam encalhadas mais de 400 mil doses. O País também recebeu cerca de 3 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e da farmacêutica Sandoz, mas até a metade de dezembro não conseguiu distribuir nem 500 mil unidades. Além da baixa procura, o fármaco foi enviado em caixas com 100 ou 500 comprimidos e precisa ser fracionado - com custo repassado a Estados e municípios. Dentro do Ministério da Saúde corre há meses, sob sigilo, um processo para inclusão do "kit covid" no programa Farmácia Popular, o que custaria R$ 250 milhões.

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