A obsessão pelo corpo: por que médicos alertam para a banalização dos anabolizantes no Brasil
Da testosterona à insulina, uso de hormônios para fins estéticos preocupa especialistas por riscos que podem até ocasionar a morte
A morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, aos 22 anos, reacendeu o debate sobre o uso de anabolizantes e hormônios para fins estéticos no Brasil. O laudo apontou uma doença cardíaca que pode ser agravada pelo consumo dessas substâncias, cujo uso já havia sido admitido publicamente por ele em entrevistas e publicações nas redes sociais.
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O caso também trouxe à tona uma questão que preocupa especialistas há anos: a crescente banalização de hormônios como testosterona, GH e até insulina entre pessoas que buscam mais massa muscular, definição corporal ou melhor desempenho físico. Embora sejam medicamentos destinados ao tratamento de doenças específicas, essas substâncias têm sido cada vez mais associadas a promessas de transformação estética rápida, muitas vezes sem indicação médica adequada.
O que está sendo usado para ganhar músculos?
Segundo a endocrinologista Fernanda Parra, os compostos mais comuns são a testosterona e seus derivados sintéticos, como oxandrolona, nandrolona, trembolona e estanozolol. Além deles, também são utilizados hormônios como o GH (hormônio do crescimento), insulina e até hormônios tireoidianos. Em alguns casos, usuários associam ainda diuréticos e estimulantes para potencializar os resultados.
"O problema é que, muitas vezes, essas combinações são feitas sem qualquer indicação médica, aumentando significativamente os riscos à saúde", alerta a especialista.
Apesar de serem frequentemente agrupadas no mesmo universo, essas substâncias atuam de formas diferentes no organismo. Enquanto a testosterona e os esteroides anabolizantes estimulam diretamente o crescimento muscular, o GH influencia mecanismos de crescimento celular e recuperação dos tecidos. Já a insulina, produzida naturalmente pelo pâncreas, facilita a entrada de nutrientes nas células e tem potente efeito anabólico.
A falsa sensação de segurança
Um dos fatores que contribuem para a popularização dessas substâncias é a percepção de que, por serem medicamentos, elas seriam menos perigosas do que drogas ilícitas. Fernanda afirma que essa conclusão é equivocada. "O fato de uma substância ser um medicamento não significa que ela seja segura quando utilizada sem indicação médica, ou em excesso", afirma.
A endocrinologista explica que qualquer medicamento possui riscos e benefícios. Quando hormônios passam a ser usados exclusivamente para melhorar a aparência física ou a performance esportiva, especialmente em doses superiores às terapêuticas, o risco de complicações aumenta consideravelmente. "Existem inclusive relatos de complicações cardiovasculares severas e mortes associadas ao uso inadequado dessas substâncias", acrescenta.
Os efeitos podem aparecer rapidamente
Embora muitos usuários se preocupem apenas com consequências futuras, os primeiros sinais de problemas podem surgir em pouco tempo. Entre os efeitos mais comuns estão aumento da pressão arterial, retenção de líquidos, alterações de humor, agressividade, ansiedade, acne intensa, palpitações cardíacas e distúrbios do sono.
No caso da insulina, os riscos podem ser ainda mais imediatos. "O risco mais grave é a hipoglicemia, que pode causar perda de consciência, convulsões e até morte", explica Fernanda. Dependendo da substância utilizada e das doses administradas, alterações hepáticas e cardiovasculares também podem surgir precocemente.
O impacto silencioso no organismo
As consequências mais graves costumam aparecer após meses ou anos de uso. Segundo a endocrinologista, o uso prolongado pode provocar lesões hepáticas, sobrecarga dos rins, alterações metabólicas importantes e desequilíbrios hormonais persistentes.
Dentre as consequências está a infertilidade. Entre os homens, é comum ocorrer redução da produção natural de testosterona, diminuição dos testículos e queda na produção de espermatozoides. Nas mulheres, podem surgir alterações menstruais e problemas de ovulação. "Esse é um dos riscos mais importantes e muitas vezes subestimado", destaca a médica.
Ela explica que, ao receber testosterona de forma externa, o organismo reduz ou interrompe sua própria produção hormonal. Como consequência, a produção de espermatozoides pode cair drasticamente, levando à infertilidade temporária ou até prolongada.
O coração está entre os órgãos mais afetados
Se para muitos usuários o objetivo é ganhar força e desempenho físico, o coração costuma ser um dos órgãos que mais sofre os efeitos do uso indiscriminado dessas substâncias. Segundo o cardiologista Marcelo Bergamo, os anabolizantes estão diretamente associados ao aumento do risco cardiovascular.
"Essas substâncias podem elevar a pressão arterial, alterar os níveis de colesterol, aumentando o LDL e reduzindo o HDL, além de favorecer processos inflamatórios e a formação de coágulos", explica.
O resultado é um maior risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), arritmias e insuficiência cardíaca, inclusive em pessoas jovens. O especialista destaca que testosterona e outros hormônios também podem alterar a estrutura do coração ao longo do tempo.
"O uso prolongado pode levar ao espessamento do músculo cardíaco, principalmente do ventrículo esquerdo, condição conhecida como hipertrofia cardíaca", afirma. Quando esse crescimento ocorre de forma excessiva, a capacidade de bombeamento do órgão pode ser comprometida, aumentando o risco de insuficiência cardíaca e arritmias potencialmente fatais.
Jovens saudáveis não estão imunes
A imagem de saúde associada ao corpo musculoso frequentemente leva à falsa impressão de que praticantes de atividade física estariam protegidos de problemas cardíacos graves. Para Bergamo, isso está longe da realidade. "A prática regular de atividade física é um fator de proteção importante, mas não elimina totalmente o risco cardiovascular", afirma.
Segundo ele, doenças genéticas, alterações congênitas e problemas cardíacos ainda não diagnosticados podem estar presentes mesmo em atletas ou pessoas aparentemente saudáveis. Nesses casos, o uso de anabolizantes pode funcionar como um acelerador de complicações.
"Muitas pessoas possuem alterações cardíacas que ainda não foram diagnosticadas. O uso de anabolizantes pode acelerar a progressão dessas doenças e aumentar significativamente o risco de eventos graves", alerta.
Quando o corpo dá sinais
Os especialistas destacam que o organismo costuma emitir alertas antes de eventos mais graves. Palpitações frequentes, sensação de coração acelerado ou irregular, falta de ar, dores no peito, tonturas, desmaios e queda inexplicável de desempenho físico estão entre os sintomas que exigem avaliação médica.
"Muitas vezes o organismo dá sinais antes de um evento grave, mas eles acabam sendo ignorados por quem acredita estar protegido pela boa condição física", afirma Bergamo.
Para Fernanda, o crescimento do uso de testosterona e outros hormônios para fins estéticos é motivo de preocupação justamente porque cria a falsa ideia de que se trata de uma solução simples para ganho de músculos, emagrecimento ou rejuvenescimento. "A testosterona é um medicamento importante quando bem indicado, mas não deve ser encarada como uma solução universal para sintomas inespecíficos", diz a endocrinologista.
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