Saúde ocular: por que o mesmo grau pode ter indicações diferentes
Avaliação dos olhos e rotina do paciente orientam a escolha da lente e o planejamento do procedimento
Mesmo com idades e graus idênticos, pacientes necessitam de abordagens oftalmológicas distintas para cirurgias de catarata e correção visual. Exames de alta precisão e fórmulas com inteligência artificial aprimoram o cálculo das lentes intraoculares, mas não bastam sozinhos. A escolha do implante ideal exige avaliar a anatomia ocular individual, condições da córnea e da retina, além da rotina e das necessidades visuais do paciente, alinhando expectativas para um tratamento personalizado e seguro.
Exames de precisão e hábitos cotidianos ajudam médicos a definir a estratégia mais adequada para cada caso
Pelo menos 2,2 bilhões de indivíduos têm algum comprometimento da visão de perto ou de longe no mundo, segundo atualização da Organização Mundial da Saúde publicada em fevereiro de 2026. A entidade estima ainda que 94 milhões apresentem deficiência visual ou cegueira associada à catarata e que 826 milhões convivam com alterações de perto relacionadas à presbiopia. A evolução dos recursos diagnósticos passou a oferecer informações mais detalhadas sobre as características dos olhos, permitindo um planejamento mais individualizado e explicando por que pacientes aparentemente semelhantes podem seguir caminhos distintos no tratamento.
Arthur van den Berg, médico oftalmologista, com atuação dedicada à cirurgia do cristalino e ao implante de lentes intra oculares de alta tecnologia, e criador do PROTOCOLO VDB, afirma que idade e grau semelhantes não significam necessariamente a mesma recomendação. "Duas pessoas podem ter a mesma idade e praticamente o mesmo grau e, ainda assim, precisar de estratégias completamente diferentes. O grau é apenas uma das informações do planejamento", afirma van den Berg.
Segundo o cirurgião, os exames de alta precisão não servem simplesmente para apontar a lente mais avançada. "O objetivo não é escolher a lente mais tecnológica, mas a tecnologia mais adequada para aquele olho e para aquele paciente. Os exames ajudam a identificar as características oculares. E, a partir delas, definir qual estratégia pode ser mais compatível com as necessidades visuais daquela pessoa", explica.
O que os exames de alta precisão mostram antes da cirurgia
Na cirurgia do cristalino, a lente natural do olho é removida e substituída por uma lente intraocular artificial. O procedimento é utilizado no tratamento da catarata. E, em pacientes selecionados, também na troca do cristalino disfuncional, quando a lente natural ainda pode estar transparente, mas já perdeu progressivamente sua capacidade de foco, condição associada à presbiopia.
Como a lente implantada permanecerá no olho, a etapa anterior ao procedimento é fundamental para calcular sua potência e avaliar qual modelo pode atender melhor às características oculares e às necessidades visuais de cada pessoa.
A biometria está entre as avaliações recomendadas antes da cirurgia de catarata e fornece medidas utilizadas no cálculo da potência da lente intraocular. Quando há astigmatismo, a European Society of Cataract and Refractive Surgeons também recomenda medições adicionais por topografia ou tomografia da córnea.
Para determinados tipos de lentes, a avaliação pode incluir ainda aspectos relacionados à superfície ocular, à retina, à qualidade óptica e às expectativas em relação à independência dos óculos.
Busca por melhores resultados
A busca por maior exatidão também aparece nas pesquisas recentes. Estudo multicêntrico publicado em março de 2026 na Clinical Ophthalmology avaliou 246 olhos submetidos à cirurgia de catarata e comparou três métodos modernos de cálculo da potência de lentes intraoculares.
Em uma das análises, o cálculo baseado em inteligência artificial colocou 82% dos olhos dentro de uma diferença de até 0,5 dioptria do resultado previsto, ante 76% com a fórmula Barrett Universal II. O desempenho foi semelhante ao da fórmula Kane nos parâmetros avaliados. Os autores também destacaram limitações do estudo, entre elas o caráter retrospectivo da pesquisa e a utilização de um único modelo de lente.
Para van den Berg, a evolução das fórmulas amplia os recursos disponíveis, mas não substitui a interpretação clínica. "O cálculo ajuda a determinar a potência da lente, mas não responde sozinho qual solução faz mais sentido para aquela pessoa. É preciso considerar as medidas do olho, possíveis alterações oculares, expectativas e a forma como a visão é utilizada no dia a dia", ressalta.
Rotina pode mudar a indicação
Essa avaliação ajuda a explicar por que duas pessoas da mesma faixa etária e com graus semelhantes podem receber recomendações distintas. Quem permanece muitas horas diante do computador pode atribuir maior importância à visão intermediária. Já uma pessoa que dirige frequentemente à noite pode ter outras prioridades relacionadas à qualidade visual em condições de pouca iluminação.
O próprio objetivo de usar menos óculos também precisa ser detalhado durante a consulta. Ler, trabalhar diante de telas, enxergar à distância e dirigir exigem faixas visuais diferentes. Além disso, características da córnea, presença e tipo de astigmatismo, condições da retina, superfície ocular e outras alterações podem favorecer ou limitar determinadas opções.
"Não existe uma lente universal. Antes de falar em independência dos óculos, é preciso entender em quais atividades essa liberdade é mais importante e se as condições do olho permitem buscar esse resultado", explica o especialista.
Segundo van den Berg, essa investigação também é importante para alinhar expectativas e condições clínicas. "Cirurgia de precisão significa reunir o máximo de informações antes do procedimento para tomar uma decisão mais individualizada. Considerando tanto as características do olho quanto às necessidades visuais de cada paciente", destaca.
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