Risco de agonorexia com uso indiscriminado de canetas emagrecedoras preocupa médicos
Semaglutida e tirzepatida devem ser utilizadas com acompanhamento médico; sem isso, há riscos para a saúde.
O uso indevido de canetas emagrecedoras, como as baseadas em semaglutida, pode levar à agonorexia, condição marcada pela supressão extrema do apetite. Além da perda de peso exagerada, os riscos incluem desnutrição, sarcopenia e dependência emocional. Especialistas alertam para a necessidade de educação em saúde e uso criterioso dessas medicações. ⚠️🍴
Utilização indiscriminada de canetas emagrecedoras pode levar à agonorexia, que causa desnutrição
Você já ouviu falar em agonorexia? Embora não seja oficialmente reconhecido pelos manuais diagnósticos de psiquiatria, esse termo vem sendo utilizado para descrever um dos efeitos do uso de canetas emagrecedoras à base de semaglutida, tirzepatida e similares. A agonorexia consiste na supressão extrema e patológica do apetite induzida pelo uso inadequado ou abusivo das canetas.
Canetas emagrecedoras
Para a endocrinologista e metabologista Eliane Dias JK, o maior desafio não está na eficácia desses medicamentos, mas na forma como eles vêm sendo incorporados à cultura da busca por corpos cada vez mais magros. "Os análogos de GLP-1 e GIP representam uma das maiores revoluções da medicina metabólica das últimas décadas. Eles oferecem benefícios muito além do emagrecimento e mudam a vida de pacientes com obesidade", frisa. Ela ressalva que o problema surge quando essa terapia "passa a ser utilizada para atender expectativas estéticas irreais ou padrões corporais incompatíveis com a saúde".
De acordo com a especialista, a popularização das canetas emagrecedoras leva muitas pessoas sem obesidade ou indicação clínica a buscar essas medicações apenas para perder poucos quilos ou manter uma magreza considerada ideal. Em alguns casos, esse comportamento evolui para perda excessiva de peso, desnutrição e redução importante de massa muscular. Além disso, tende a gerar uma relação cada vez mais disfuncional com a alimentação, bem como a dependência emocional.
Aversão a comida
Uma vez que as canetas agem sobre os mecanismos que regulam fome, saciedade e recompensa cerebral, algumas pessoas passam a demonstrar desinteresse excessivo pela comida, ou até mesmo aversão ao ato de se alimentar. Desse modo, o que deveria funcionar como uma ferramenta terapêutica para auxiliar no controle alimentar acaba se transformando em uma restrição extrema, que pode comprometer a ingestão adequada de nutrientes.
"Na prática clínica, o que observamos é uma combinação preocupante entre a potente ação dessas medicações sobre os mecanismos da fome e fatores psicológicos preexistentes", pontua a médica. Segundo ela, pacientes com histórico de insatisfação corporal, rigidez cognitiva ou até transtornos alimentares latentes podem encontrar nesses medicamentos uma ferramenta para sustentar uma restrição alimentar extrema sem experimentar a fome biológica.
Dependência da medicação
Outro componente que se associa ao fenômeno da agonorexia é a dependência psicológica da medicação. Mesmo após atingir um peso saudável ou até abaixo do recomendado, alguns indivíduos desenvolvem medo intenso de interromper o tratamento e recuperar peso. Dessa forma, mantêm o uso da medicação não mais por indicação médica, e sim pela necessidade emocional de preservar uma imagem corporal cada vez mais magra.
"O medicamento deixa de ser visto como tratamento e passa a funcionar como uma espécie de âncora emocional", adverte Eliane Dias. Assim, o paciente passa a se preocupar constantemente com qualquer possibilidade de ganho de peso, o que pode perpetuar o uso inadequado da terapia e gerar sofrimento psicológico.
Perda de massa e força
Outra ocorrência preocupante é sarcopenia oculta, ou seja, a perda silenciosa de massa e força muscular. Quando o emagrecimento acontece de forma muito rápida e sem acompanhamento nutricional adequado, parte significativa da perda de peso ocorre às custas da massa muscular. O resultado pode ser uma combinação de fragilidade física, piora da composição corporal e prejuízos metabólicos.
"Muitas pessoas observam apenas a redução dos números na balança, mas se esquecem de que saúde não significa apenas pesar menos. A perda excessiva de músculo pode resultar em diminuição da força, pior desempenho funcional, alterações metabólicas e impacto importante na qualidade de vida", esclarece a médica. Ela reforça que preservar a massa muscular deve ser uma prioridade em qualquer tratamento para obesidade.
Educação em saúde
Para a a médica, o futuro das canetas é promissor, mas a expansão do acesso deve caminhar junto com educação em saúde e uso racional. "O objetivo dessas terapias nunca foi eliminar completamente a fome ou criar uma dependência permanente da medicação. O foco é tratar doenças crônicas, melhorar a saúde metabólica e oferecer mais qualidade de vida", destaca. "Quando bem indicados, os benefícios são extraordinários. Quando utilizados sem critério, podem favorecer comportamentos que colocam a saúde em risco".
Edição: Fernanda Villas Bôas
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