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Por que uma atriz precisou fazer terapia para interpretar Elize Matsunaga?

Ao revelar que precisou fazer terapia para interpretar Elize Matsunaga, a atriz Lorena Comparato levantou uma questão importante: o que acontece com a nossa mente quando passamos tempo demais vivendo um papel?

4 ago 2026 - 21h10
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O que mais me chamou atenção nessa notícia não foi o crime. Foi o cérebro. A atriz Lorena Comparato contou que recorreu à terapia durante o processo de preparação para interpretar Elize Matsunaga. Para dar vida a uma personagem tão complexa, ela precisava compreender seus pensamentos, suas emoções e sua maneira de enxergar o mundo, mas sem permitir que aquela história invadisse completamente sua própria vida. Afinal, interpretar alguém não significa apenas decorar falas e repetir gestos diante das câmeras. Um ator precisa, de alguma forma, aproximar-se emocionalmente daquela pessoa, imaginar o que ela sentiria, compreender suas motivações e permanecer, durante algum tempo, olhando para o mundo através dos olhos dela.

Ao interpretar Elize Matsunaga, Lorena Comparato levanta uma reflexão sobre identidade, crenças e os papéis que repetimos sem perceber
Ao interpretar Elize Matsunaga, Lorena Comparato levanta uma reflexão sobre identidade, crenças e os papéis que repetimos sem perceber
Foto: Reprodução/YouTube / Bons Fluidos

A princípio, essa poderia ser apenas uma curiosidade sobre os bastidores de uma produção. No entanto, a história também nos convida a refletir sobre os personagens que nós mesmos interpretamos todos os dias. Mesmo sem perceber, podemos passar anos representando papéis que foram construídos para nos proteger, garantir aceitação ou evitar conflitos. Existe o personagem de quem precisa ser forte o tempo inteiro, de quem nunca pode decepcionar ninguém, de quem precisa agradar a todos para se sentir amado, de quem coloca as necessidades dos outros sempre à frente das próprias ou de quem acredita que jamais será bom o suficiente. Em muitos casos, esses papéis não surgem como uma escolha consciente. Eles aparecem como uma forma de sobrevivência emocional.

Uma criança que percebe que só recebe carinho quando se comporta perfeitamente pode aprender a ser extremamente exigente consigo mesma. Alguém que cresceu em um ambiente imprevisível pode assumir o papel de quem controla tudo, porque acredita que relaxar é perigoso. Uma pessoa que foi constantemente criticada pode começar a se diminuir antes que os outros façam isso. No início, esses comportamentos funcionam como estratégias de proteção. O problema acontece quando continuamos repetindo essas estratégias mesmo depois que o perigo já passou. Aquilo que começou como uma maneira de sobreviver pode, aos poucos, transformar-se em uma prisão.

Na psicologia, esse processo pode ser compreendido por diferentes teorias. Uma delas é a teoria dos esquemas, que mostra como experiências repetidas, especialmente na infância, podem formar padrões profundos de pensamento e emoção. Esses esquemas funcionam como lentes pelas quais interpretamos a realidade. Uma pessoa que desenvolveu um esquema de abandono, por exemplo, pode enxergar sinais de rejeição mesmo em situações ambíguas. Quem carrega um esquema de inadequação pode interpretar qualquer erro como prova de que não é bom o bastante. Com o tempo, essas interpretações deixam de parecer apenas hipóteses e passam a ser vividas como verdades absolutas.

Também existe o conceito de falso self, desenvolvido pelo psicanalista Donald Winnicott. Ele descreve uma identidade construída para corresponder às expectativas do ambiente, proteger o indivíduo e preservar vínculos importantes. Em vez de expressar espontaneamente o que sente, a pessoa aprende a ser aquilo que acredita que os outros esperam dela. Esse falso self não é necessariamente uma mentira consciente. Muitas vezes, é uma adaptação sofisticada, criada para garantir segurança emocional. A dificuldade aparece quando a pessoa passa tanto tempo vivendo de acordo com esse papel que já não consegue reconhecer os próprios desejos, limites e necessidades.

A teoria da aprendizagem social também ajuda a explicar esse fenômeno. Nós aprendemos observando, repetindo e recebendo respostas do ambiente. Se uma criança percebe que é elogiada quando se cala, cuida de todos ou nunca demonstra tristeza, é provável que repita esse comportamento. O cérebro registra aquilo que gera aceitação, reduz conflitos ou evita punições. Com o tempo, o papel é reforçado. A pessoa deixa de pensar "eu ajo assim porque aprendi que era mais seguro" e passa a concluir "eu sou assim".

O cérebro fortalece aquilo que repetimos. Podemos imaginar esse processo como uma trilha aberta no meio do mato. Na primeira vez em que passamos por ela, quase não existe um caminho. É preciso afastar galhos, observar cada passo e fazer algum esforço para avançar. Porém, quando percorremos a mesma trilha todos os dias, ela se torna cada vez mais visível e acessível. Depois de algum tempo, seguimos por aquele caminho quase automaticamente. Com os pensamentos, as emoções e os comportamentos acontece algo parecido. Quanto mais repetimos uma interpretação sobre nós mesmos, mais familiar ela se torna. E tudo o que é familiar tende a parecer verdadeiro, ainda que não seja.

Esse processo está relacionado à neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se modificar a partir das experiências. Quando repetimos um pensamento, uma reação ou um comportamento, fortalecemos determinados circuitos neurais. Isso não significa que o cérebro esteja condenado a repetir os mesmos padrões para sempre. Significa apenas que caminhos muito percorridos se tornam mais automáticos. A boa notícia é que novos caminhos também podem ser construídos. Para isso, porém, é preciso perceber o padrão, interromper a repetição e experimentar respostas diferentes, mesmo que, no início, elas pareçam desconfortáveis.

É assim que uma pessoa pode passar a acreditar que nasceu para fracassar, que sempre será abandonada, que precisa resolver os problemas de todo mundo ou que não merece ocupar determinados espaços. Essas ideias podem ter surgido em uma fase específica da vida, talvez como resposta a críticas, rejeições, traumas ou experiências dolorosas. Contudo, quando são repetidas durante muitos anos, deixam de parecer pensamentos e começam a ser percebidas como traços permanentes da personalidade. A pessoa já não diz apenas "estou com medo de falhar". Ela passa a dizer "eu sou um fracasso". Não pensa "aprendi a agradar para evitar conflitos". Afirma "eu sou assim". O personagem deixa de ser visto como personagem e começa a ocupar o lugar da identidade.

Na terapia cognitivo-comportamental, essa diferença é central. Um pensamento não é necessariamente um fato, ainda que seja vivido com enorme intensidade emocional. A pessoa pode ter aprendido a interpretar determinadas situações de forma automática, mas isso não significa que essa interpretação seja a única possível. Quando alguém acredita que precisa agradar a todos para não ser abandonado, pode evitar qualquer conflito, ignorar os próprios limites e aceitar relações profundamente desgastantes. Cada vez que faz isso, reforça a crença de que desagradar é perigoso. O comportamento alimenta o pensamento, e o pensamento alimenta o comportamento.

Existe uma diferença importante entre quem somos e o que aprendemos a fazer para sermos aceitos, amados ou protegidos. Nem toda característica que carregamos nasceu conosco. Algumas foram construídas a partir das expectativas da família, das experiências da infância, dos relacionamentos que vivemos e das mensagens que ouvimos repetidamente. Quando uma pessoa escuta durante anos que é difícil, egoísta, fraca ou incapaz, ela pode começar a organizar a própria vida em torno dessas definições. Aos poucos, deixa de questioná-las e passa a procurar provas de que elas são verdadeiras.

Esse movimento também pode ser compreendido pela teoria da confirmação. O cérebro tende a prestar mais atenção às informações que confirmam aquilo em que já acreditamos. Se alguém está convencido de que sempre fracassa, pode ignorar dezenas de experiências positivas e concentrar-se apenas no único erro cometido. Se acredita que não merece ser amado, pode desconfiar do afeto recebido e valorizar qualquer gesto de distância como prova de rejeição. Assim, a identidade parece se confirmar continuamente, embora parte dessa confirmação venha da maneira como a realidade está sendo filtrada.

Por isso, abandonar um personagem antigo pode ser tão desconfortável. Mesmo quando ele causa sofrimento, ainda representa uma forma conhecida de existir. A pessoa que sempre cuidou de todos pode sentir culpa ao estabelecer um limite. Quem passou a vida buscando aprovação pode sentir ansiedade ao desagradar alguém. Quem aprendeu a não demonstrar vulnerabilidade pode acreditar que pedir ajuda é sinal de fraqueza. Nesses momentos, não estamos apenas mudando um comportamento. Estamos questionando uma identidade que foi reforçada durante muito tempo.

Na psicologia existencial, há uma ideia importante: parte da nossa liberdade começa quando percebemos que não somos apenas aquilo que fizeram de nós. Somos também aquilo que fazemos com a nossa história. Isso não significa negar traumas, minimizar experiências dolorosas ou defender que basta ter força de vontade para mudar. Significa reconhecer que o passado influencia profundamente a nossa identidade, mas não precisa determinar sozinho tudo o que faremos a partir dele.

A psicoterapia pode ajudar justamente nesse processo de diferenciação. Ela oferece um espaço para investigar de onde vieram determinadas crenças, compreender por que certos papéis foram necessários e perceber se eles ainda fazem sentido na vida atual. Não se trata de apagar a própria história ou fingir que determinadas experiências nunca aconteceram. Trata-se de reconhecer que aquilo que foi aprendido também pode ser revisto. O cérebro possui capacidade de mudança, e novos caminhos podem ser construídos quando começamos a pensar, sentir e agir de outras maneiras.

Talvez Lorena Comparato tenha precisado de terapia para conseguir entrar e, depois, sair de uma personagem. Mas essa história também nos faz pensar em quantas pessoas permanecem vivendo personagens que começaram a interpretar ainda na infância e dos quais nunca conseguiram se despedir. Talvez você ainda seja a pessoa que nunca dá trabalho, que não pede ajuda, que aceita tudo, que precisa demonstrar competência o tempo inteiro ou que acredita que o amor precisa ser conquistado por meio do sacrifício. Talvez esse papel tenha sido importante em algum momento. Isso não significa que ele precise acompanhá-lo para sempre.

A pergunta não é apenas qual personagem você interpreta diante dos outros. A pergunta mais profunda é: quem você acredita que precisa ser para merecer amor, segurança e pertencimento? Às vezes, reencontrar a própria identidade não significa descobrir uma versão completamente nova de si mesmo. Significa retirar, pouco a pouco, os papéis que foram colocados sobre nós e perceber quem existe por baixo deles.

Nem toda identidade foi escolhida. Algumas foram apenas repetidas por tempo suficiente. E reconhecer isso pode ser o primeiro passo para deixar de viver no automático e começar a construir, de maneira mais consciente, a pessoa que você deseja ser.

Sobre a autora

Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.

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