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Por que tantas mulheres se sentem 'mais feias' durante a fase lútea?

Trend nas redes sociais descreve mudanças na aparência e na autoestima antes da menstruação; entenda o que os hormônios têm a ver com isso

10 set 2026 - 19h09
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Resumo
A sensação de "feiura" relatada por mulheres antes de menstruar, fenômeno que viralizou como "luteal uglies", tem base biológica. Ocorre na fase lútea, período pós-ovulação marcado pelo aumento da progesterona e queda do estrogênio. Essas oscilações provocam retenção líquida, acne e oleosidade na pele, além de alterações de humor que amplificam a autocrítica. Embora temporárias e naturais, essas mudanças exigem atenção médica se causarem prejuízos severos ao bem-estar e à rotina.

Você já se olhou no espelho alguns dias antes de menstruar e teve a impressão de que alguma coisa simplesmente estava diferente? Pele mais oleosa, espinhas que surgiram de repente, rosto inchado, cabelo que parece não colaborar e até uma percepção mais negativa da própria aparência. Nas redes sociais, tantas mulheres começaram a compartilhar essa experiência que ela ganhou até nome: "luteal uglies", algo como "feiura da fase lútea", em tradução livre.

Já ouviu falar em “luteal uglies”? Entenda por que algumas mulheres se sentem menos bonitas durante a fase lútea do ciclo menstrual
Já ouviu falar em “luteal uglies”? Entenda por que algumas mulheres se sentem menos bonitas durante a fase lútea do ciclo menstrual
Foto: Reprodução: BLACKDAY / Bons Fluidos

O termo não é médico e, evidentemente, não significa que alguém realmente fique "feia" durante uma parte do mês. O que existe, porém, são mudanças hormonais que acontecem ao longo do ciclo menstrual e podem provocar alterações físicas e emocionais capazes de influenciar a maneira como algumas mulheres se enxergam.

E entender em que momento isso acontece ajuda a explicar por que a sensação parece surgir quase sempre na mesma época.

Afinal, o que é a fase lútea?

O ciclo menstrual é dividido em diferentes etapas. A fase lútea começa depois da ovulação e termina com a chegada da menstruação, quando não ocorre uma gravidez. Sua duração costuma ficar em torno de duas semanas, embora possa variar de uma pessoa para outra.

Após a ovulação, uma estrutura chamada corpo lúteo passa a produzir principalmente progesterona. Ao mesmo tempo, os níveis de estrogênio também se modificam ao longo desse período.

"Depois que a mulher ovula, o corpo lúteo, que antes era o folículo, passa a produzir progesterona, que vira o hormônio predominante da fase lútea - e a produção do estrogênio reduz. Então é isso que caracteriza a fase lútea: é a segunda fase do ciclo depois da ovulação, cujo hormônio predominante é a progesterona", explica a ginecologista Rosana Maria dos Reis ao Estadão. Essas oscilações hormonais podem repercutir em diferentes partes do organismo - inclusive na pele, no intestino, nas mamas, na disposição e no humor.

Por que a aparência pode parecer diferente?

Uma das reclamações mais comuns durante esse período está relacionada à pele. Algumas mulheres percebem aumento da oleosidade e maior tendência ao aparecimento de espinhas, especialmente nos dias que antecedem a menstruação.

As mudanças hormonais também podem favorecer retenção de líquidos. Na prática, isso significa que o rosto pode parecer mais inchado, assim como outras regiões do corpo. As mamas também podem ficar mais sensíveis ou aumentar temporariamente de volume.

O intestino é outro que pode sentir os efeitos das oscilações hormonais. Algumas pessoas apresentam alterações no trânsito intestinal, sensação de estufamento ou maior desconforto abdominal.

Quando acne, oleosidade e inchaço aparecem ao mesmo tempo, não é difícil entender por que a imagem refletida no espelho pode parecer diferente daquela observada em outros momentos do ciclo. Mas existe outro componente importante nessa história: a maneira como a própria aparência é percebida também pode mudar.

Não é apenas o espelho: o humor também entra nessa conta

Nos últimos dias da fase lútea, algumas mulheres experimentam irritabilidade, cansaço, tristeza, maior sensibilidade emocional ou dificuldade de concentração. Isso pode fazer com que a autocrítica aumente justamente quando algumas alterações físicas também estão acontecendo.

Em outras palavras, pode existir uma combinação: o corpo realmente apresenta mudanças temporárias, como inchaço e acne, enquanto o estado emocional pode tornar a percepção sobre essas características ainda mais negativa.

É por isso que uma mulher pode se sentir extremamente bonita e confiante em determinada fase do mês e, dias depois, olhar para a mesma imagem de maneira muito mais crítica. A intensidade dessa experiência, entretanto, varia bastante. Algumas pessoas praticamente não percebem mudanças, enquanto outras sentem impactos importantes no bem-estar e na rotina.

Fase lútea e TPM são a mesma coisa?

Não. Apesar de estarem relacionadas, as duas expressões não são sinônimas. A fase lútea é uma etapa fisiológica do ciclo menstrual, iniciada após a ovulação e encerrada quando começa a menstruação.

Já a tensão pré-menstrual, conhecida como TPM, corresponde a um conjunto de sintomas físicos e emocionais que pode surgir durante a fase lútea, principalmente nos dias mais próximos da menstruação. Isso significa que toda pessoa que ovula passa por uma fase lútea, mas nem todas necessariamente apresentam TPM ou sentem as mudanças descritas nas trends das redes sociais.

O que pode mudar durante a fase lútea?

Os efeitos não são iguais para todas as mulheres, mas algumas podem perceber maior oleosidade e surgimento de acne, retenção de líquidos, inchaço, sensibilidade nas mamas, alterações intestinais, cansaço e mudanças de humor.

Também pode haver variações no sono, no apetite, na disposição e na capacidade de concentração. Observar se esses sinais aparecem repetidamente no mesmo período do mês pode ajudar a compreender melhor o próprio ciclo.

E quem toma anticoncepcional?

Nesse caso, a experiência pode ser diferente. Métodos contraceptivos hormonais não funcionam todos da mesma maneira. Alguns bloqueiam a ovulação de forma consistente, o que significa que a pessoa não percorre um ciclo ovulatório natural com as mesmas fases hormonais.

Outros métodos possuem mecanismos diferentes e podem permitir atividade ovariana em graus variados. Por isso, não é correto afirmar que toda pessoa que utiliza anticoncepcional terá (ou deixará de ter) os chamados "luteal uglies". Tudo depende do método utilizado e da resposta individual do organismo.

Como passar pela fase lútea de maneira mais confortável?

Antes de tentar eliminar qualquer mudança, pode ser útil reconhecer que ela é temporária. Acompanhar o ciclo durante alguns meses permite identificar padrões e entender se determinados sintomas realmente aparecem sempre na mesma época.

Esse conhecimento também pode diminuir a cobrança. Se você já sabe que costuma ficar mais inchada ou ter acne antes de menstruar, por exemplo, fica mais fácil lembrar que aquela mudança não é permanente.

Hábitos básicos de saúde também podem contribuir para o bem-estar: manter uma boa hidratação, praticar atividade física regularmente, dormir adequadamente e evitar excesso de álcool e alimentos muito salgados pode ajudar especialmente quem sofre com inchaço e indisposição.

Na pele, não é necessário reinventar toda a rotina de skincare a cada mês. Se houver aumento recorrente da oleosidade ou acne, um dermatologista pode orientar produtos adequados sem comprometer a barreira cutânea.

Quando os sintomas merecem atenção?

Sentir alguma diferença no corpo ou no humor ao longo do ciclo é comum. O sinal de alerta aparece quando essas alterações se tornam intensas a ponto de interferir no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou na qualidade de vida.

Mudanças emocionais muito acentuadas antes da menstruação também podem exigir investigação para condições como o transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM), quadro mais intenso e diferente da TPM habitual.

Nessas situações, registrar os sintomas e o momento em que aparecem ao longo de alguns ciclos pode fornecer informações importantes para uma avaliação médica.

No fim, a popularização dos "luteal uglies" nas redes sociais pode ter pelo menos um efeito positivo: incentivar mais mulheres a prestar atenção ao próprio ciclo. O problema começa quando uma experiência individual vira regra - ou quando mudanças perfeitamente naturais do corpo passam a ser tratadas como defeitos estéticos. A fase lútea passa. E talvez saber disso seja justamente uma das melhores ferramentas para não acreditar em tudo o que o espelho (e a autocrítica) parecem dizer nesses dias.

Bons Fluidos
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