Por que o mau funcionamento intestinal pode ser o culpado de suas varizes?
Problemas intestinais podem influenciar diretamente a saúde das veias - e a alimentação tem papel central nesse processo
Muito além de uma questão estética, as varizes costumam ser um sinal de que algo não vai bem no funcionamento da circulação. Embora fatores como genética, sedentarismo e hábitos de vida sejam amplamente conhecidos, existe um aspecto menos comentado - e que pode fazer diferença: o funcionamento do intestino. Sim, a saúde intestinal pode influenciar diretamente a saúde das veias.
O que as varizes indicam sobre o corpo
As varizes surgem quando as veias, principalmente das pernas, passam a ter dificuldade de conduzir o sangue de volta ao coração. Esse processo envolve válvulas que ajudam a direcionar o fluxo sanguíneo - e, quando elas falham, o sangue se acumula, causando dilatações visíveis.
Entre os fatores mais comuns associados ao problema estão longos períodos em pé ou sentado, predisposição genética, tabagismo e consumo frequente de álcool. No entanto, o intestino também entra nessa equação.
O impacto da prisão de ventre na circulação
De acordo com a cirurgiã vascular Dra. Aline Lamaita, a constipação intestinal pode contribuir diretamente para o desenvolvimento das varizes. "A prisão de ventre é um dos vilões para o aparecimento das varizes. A razão é que o esforço para evacuar que eleva a pressão intra-abdominal é transmitido para baixo, para as veias das extremidades inferiores. Esse tipo de pressão pode danificar as válvulas em nossas veias, o que normalmente ajudaria a desviar o sangue para cima, para o coração. À medida que todo o sistema fica bloqueado, a pressão e a inflamação aumentam, e as veias superficiais começam a dilatar-se e a formar nós. O resultado são veias varicosas".
Além disso, a especialista ressalta que essa relação não é isolada. "Não é incomum que pacientes com varizes também sofram de problemas como hemorroidas".
A alimentação entra como peça-chave
A médica explica que tanto as varizes quanto as hemorroidas são mais frequentes em populações com dieta pobre em fibras - algo comum em padrões alimentares mais industrializados.
Segundo ela, investir nesse nutriente pode trazer benefícios importantes. "Essenciais para o bom funcionamento do organismo, as fibras fornecem nutrientes e são aliadas na manutenção de uma dieta saudável. Além disso, elas estão relacionadas à boa circulação de sangue de uma maneira geral".
Estudos recentes reforçam essa conexão. Uma pesquisa de 2021 publicada pela J. Egypt Public Health Association apontou que pessoas que raramente consomem alimentos ricos em fibras apresentam um risco significativamente maior de desenvolver varizes. "Esse mesmo estudo mostrou que o aumento de risco é similar ao de que quem vai pouco ao banheiro. Essas pessoas tiveram três vezes mais chance de ter veias varicosas".
Quando o problema vai além das varizes
A constipação não afeta apenas a estética das veias. Segundo a especialista, ela também pode agravar sintomas como inchaço, dor nas pernas e inflamação.
Outro ponto de atenção é o lipedema, condição caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura, especialmente nos membros inferiores, acompanhado de dor e retenção de líquidos.
"A obstipação, por dificultar o retorno venoso, também piora inchaço, dor nas pernas, a inflamação e doenças como o lipedema", explica. "Por conta da prisão de ventre e inchaço, a circulação nas veias das pernas pode ficar comprometida. Há realmente muitos fatores envolvidos na fisiopatologia do lipedema, desde disfunções nas organelas produtoras de energia dentro da célula (as mitocôndrias) até a disbiose intestinal e o sedentarismo. Por isso que o consumo das fibras é importante no tratamento da doença".
Como melhorar o funcionamento intestinal
Pequenas mudanças no dia a dia podem ajudar tanto o intestino quanto a circulação. A recomendação inclui aumentar o consumo de alimentos ricos em fibras, como frutas, verduras, legumes, grãos integrais e sementes. Mas não basta apenas incluir esses itens - a hidratação também precisa acompanhar. "Quanto menor a ingestão de água, maior a viscosidade do sangue. O consumo adequado de água garante que o organismo seja irrigado e bem nutrido de sangue".
Bebidas como água, chás e sucos naturais podem contribuir nesse processo. Em alguns casos, indica-se o uso de pré e probióticos. "Se não funcionar, os pré e probióticos podem ajudar, desde que bem orientados por médicos ou nutricionistas".
Meias de compressão ajudam?
Após o diagnóstico, as meias de compressão costumam ser uma das primeiras recomendações médicas para controlar os sintomas e evitar a progressão do quadro.
"Quando usadas corretamente, as meias de compressão ajudam com sintomas como dor e inchaço, na medida em que melhoram o retorno venoso. Existem muitas marcas de meias de compressão (algumas cabem melhor do que outras, dependendo dos materiais e tamanhos) e um auxílio do cirurgião vascular é fundamental".
No entanto, elas não eliminam as varizes já existentes. "Mas as meias de compressão não mudarão as varizes que já apareceram; só são eficazes enquanto as meias são usadas, e ensaios clínicos randomizados descobriram que terapias mais invasivas podem ser melhores para alívio a longo prazo e qualidade de vida".
Tratamentos atuais: menos invasivos e mais rápidos
Hoje, o tratamento das varizes vai muito além das cirurgias tradicionais. Com o avanço da tecnologia, técnicas menos invasivas têm ganhado espaço. "Todas as varizes precisam ser tratadas, a intervenção cirúrgica ainda é utilizada, mas hoje existem técnicas menos invasivas com associação de laser, escleroterapia e espuma densa que vieram a substituir a grande maioria dos quadros de microcirurgia".
Entre as opções estão métodos como laser, espuma densa e tecnologias como ATTA e ClaCs, que permitem tratar diferentes tipos de vasos com menor tempo de recuperação. "Essas técnicas minimamente invasivas usam lasers ou produtos químicos para fechar veias superficiais incômodas, fazendo com que elas murchem e desapareçam enquanto o fluxo sanguíneo é redirecionado de volta para o sistema mais profundo".
A escolha do tratamento ideal depende de uma avaliação individual. "O procedimento certo para você provavelmente dependerá do seu histórico médico e de uma conversa com um cirurgião vascular".
Um olhar mais amplo para a saúde
A relação entre intestino e circulação mostra como o corpo funciona de forma integrada. Pequenos hábitos, como alimentação e hidratação, podem impactar áreas que, à primeira vista, parecem não ter conexão. Cuidar do intestino, nesse contexto, não é apenas uma questão digestiva - mas também uma forma de contribuir para a saúde vascular e o bem-estar geral.
Sobre a especialista
Dra. Aline Lamaita (RQE 26557) é cirurgiã vascular e membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV). Formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (2000) e hoje dedica a maior parte do seu tempo à Flebologia (estudo das veias). Curso de Lifestyle Medicine pela Universidade de Harvard (2018) e pós-graduação em Medicina Integrativa e Longevidade saudável.
*Fonte: Holding Comunicação
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