Por que os cachorros precisam morder coisas? A ciência por trás do "simples" ato de roer
Quando um cachorro rói algo, não se trata de um simples ato de destruição sem sentido, mas uma das formas mais antigas e profundas que eles têm de se relacionar com o mundo, se acalmar e explorar
A mastigação é uma necessidade biológica vital para os cães, herdada de seus ancestrais. Pesquisas apontam que o hábito melhora a digestão, a higiene bucal, a cognição e reduz o estresse ao diminuir o cortisol. Para supri-la com segurança, tutores devem oferecer itens adequados ao porte e idade, como cenouras congeladas ou mordedores seguros sob supervisão, evitando gravetos e ossos cozidos, que oferecem riscos de lesões. Roer não é capricho, mas essencial ao bem-estar canino.
Meu cachorro e eu compartilhamos muitos momentos juntos. Um dos nossos favoritos é quando nos sentamos para ter nosso "momento de leitura": eu me sento na minha mesa, ele se senta ao meu lado e eu lhe dou seu "petisco" favorito. Ele cheira, lambe e roe o petisco com uma concentração semelhante à minha enquanto estou absorta no meu livro.
Por muito tempo, interpretamos esse comportamento como um capricho ou mais um comportamento típico dos cães, sem dar muita importância a isso. Mas a ciência vem nos dizendo há anos que mastigar é uma necessidade biológica fundamental para esses animais, assim como dormir, comer ou praticar atividade física. Entender o porquê pode melhorar a qualidade de vida do nosso companheiro canino.
Muito mais do que um passatempo
Quando alimentamos um cão, seu estômago fica cheio e ele se sente satisfeito. Mas falta algo a ser suprido: a motivação para roer, intacta em sua biologia após milhares de anos de evolução.
Do ponto de vista evolutivo, isso faz todo o sentido. Seus ancestrais precisavam se alimentar por conta própria, caçando presas. Mais tarde, a domesticação reduziu o tamanho da mandíbula dos canídeos e adaptou sua digestão ao amido, mas não alterou esses comportamentos tão arraigados: morder, mastigar e rasgar. O comportamento persiste porque está inscrito em sua natureza.
Em 2025, uma equipe da Faculdade de Veterinária da Universidade de Sydney realizou uma revisão sistemática sobre os benefícios da mastigação para um cão. Os pesquisadores identificaram dez benefícios funcionais distintos, entre eles, a higiene bucal e a saúde digestiva. Mas há outro que, talvez, nos surpreenda: seu efeito calmante. Ou seja, o ato de roer pode ajudar os animais a lidar com situações de ansiedade e estresse.
Do ponto de vista bioquímico, a mastigação demonstrou reduzir as concentrações de cortisol (o hormônio do estresse) durante períodos de estresse crônico. Além disso, observou-se que ela tem um efeito positivo no desempenho cognitivo e melhora a memória de trabalho em cães ansiosos. Portanto, oferecer a eles oportunidades de mastigar e roer algo adequado não é um luxo nem um capricho: é atender a uma necessidade biológica.
Cenouras, sim; gravetos, não
E o que devemos dar ao nosso cão para roer? Existem diversas alternativas, dependendo do tamanho corporal, idade, formato e força da mandíbula e do focinho, saúde bucal e preferências individuais.
Por exemplo, uma das opções vegetais mais utilizadas é a cenoura congelada. Principalmente para um filhote em fase de dentição: o frio reduz a inflamação das gengivas e a textura será gratificante para ele. Quando adultos, a cenoura continua sendo uma boa opção, seja em temperatura ambiente ou congelada. O recomendado é retirá-la quando amolecer ou quando restar um pedaço que o cão possa engolir de uma só vez — uma precaução que devemos observar com tudo o que oferecemos para ele roer.
Quanto aos brinquedos mastigáveis comerciais, há uma grande variedade e as recomendações estão indicadas na embalagem de cada produto. A regra geral, no entanto, é que sejam grandes o suficiente para que o cão não consiga engoli-los inteiros.
Em relação aos gravetos do parque, e apesar de nos parecer a coisa mais natural do mundo, a literatura veterinária alerta que eles podem causar lesões orofaríngeas complexas, devido ao possível desprendimento de lascas. Pela mesma razão, ossos cozidos - de frango ou outros animais - são desaconselhados.
Na hora de escolher
Estes são alguns dos aspectos que devem ser levados em consideração:
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Idade: filhotes em fase de dentição precisam de texturas macias que lhes tragam alívio, sem danificar os dentes que estão nascendo: cenouras ou guloseimas especialmente desenvolvidas para filhotes. Cães mais velhos precisam de opções mais macias e sessões mais curtas.
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Tamanho e peso: recomenda-se que o objeto seja maior do que a abertura da boca do cão, para evitar que ele o engula inteiro.
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Estilo de mastigação: os cães com maior necessidade de roer e que destroem qualquer coisa em minutos precisam de materiais mais densos, que não se fragmentem em pedaços grandes. Mas recomenda-se evitar objetos muito duros, como chifres de veado ou galhadas. Por outro lado, os cães com um estilo de mastigação suave toleram melhor texturas mais macias. Observar os primeiros dez minutos em que nosso animal de estimação fica roendo um objeto novo nos dará as melhores informações.
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Raças braquicefálicas. Bulldogs, pugs, boxers e similares precisam de formatos mais curtos e grossos, que possam ser segurados com sua morfologia mandibular específica. Os alongados e finos são mais difíceis de manusear para eles.
Além dessas considerações, é importante buscar a orientação do veterinário de confiança e usar o bom senso na hora de escolher o melhor brinquedo. Além disso, o cão deve estar sempre sob supervisão enquanto estiver roendo, seja um produto comercial ou não.
Agora já sabemos que esse comportamento canino não é um simples ato de destruição sem sentido, mas uma das formas mais antigas e profundas que um cão tem de se relacionar com o mundo, de se acalmar, de explorar e, em definitiva, de ser um cão. Quando lhe damos espaço para fazer isso com o brinquedo adequado, não apenas atendemos a uma necessidade, como também estamos demonstrando que o conhecemos e que nos importamos com o que ele precisa.
Gabriela Barrera trabalha como professora do Mestrado em Etologia Aplicada e Intervenção Assistida com Animais da UAM e é fundadora e CEO da CATADOGERS
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