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Os gatos estão ficando mais mansos? Ou são as pessoas que estão mudando?

Não é só você: nas últimas décadas muitas pessoas têm se dedicado cada vez mais aos seus gatos de estimação

13 ago 2026 - 10h01
(atualizado às 13h57)
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Em comparação com os cães, os gatos são tradicionalmente vistos como “menos” domesticados: estudos sugerem que os gatos têm a capacidade de formar relacionamentos próximos com pessoas há muito tempo, então provavelmente o que mais mudou foi nossa relação com eles. DimaBerlin/Shutterstock
Em comparação com os cães, os gatos são tradicionalmente vistos como “menos” domesticados: estudos sugerem que os gatos têm a capacidade de formar relacionamentos próximos com pessoas há muito tempo, então provavelmente o que mais mudou foi nossa relação com eles. DimaBerlin/Shutterstock
Foto: The Conversation

Há cerca de 15 anos, criei uma página no Facebook para minha gata, Sandi. Meus amigos acharam isso estranho. Hoje, contas de redes sociais dedicadas a gatos atraem milhões de seguidores, gatos viajam em mochilas e carrinhos de bebê, e pesquisas mostram consistentemente que a esmagadora maioria dos donos considera seus animais de estimação como parte da família.

Já escrevi anteriormente sobre como os gatos foram domesticados. Mas a domesticação não é necessariamente um processo com um ponto final. Será que ela ainda estaria ocorrendo hoje?

Exemplos da vida selvagem sugerem que a adaptação à convivência com as pessoas pode continuar muito tempo depois do primeiro contato dos animais com os humanos.

Uma pesquisa liderada pelo biólogo Kevin Parsons, da Universidade de Glasgow, fornece um dos exemplos mais claros desse processo. Em 2020, Parsons e sua equipe compararam os crânios de raposas-vermelhas urbanas de Londres e da zona rural ao redor, e encontraram diferenças consistentes entre as duas populações.

As raposas urbanas apresentavam focinhos mais curtos e largos e caixas cranianas - a parte arredondada do crânio que abriga o cérebro - menores. Essas são mudanças que frequentemente acompanham a domesticação. Os pesquisadores sugerem que a vida na cidade pode favorecer raposas que têm menos medo das pessoas e são mais hábeis em aproveitar os alimentos e abrigos fornecidos pelos humanos.

Uma história semelhante está surgindo no Phoenix Park, em Dublin. Em 2022, as ecologistas Laura Griffin, Simone Ciuti e colegas da University College Dublin descobriram que enquanto alguns veados que viviam nos arredores da cidade raramente se aproximavam dos humanos, outros se aproximavam constantemente das pessoas em busca de comida. Cerca de um quarto da população de veados era composta por "mendigas assíduas", e essas fêmeas mais ousadas davam à luz filhotes mais pesados - o que sugere que os animais dispostos a se aproximar das pessoas podem ter uma vantagem.

Esses estudos mostram que viver ao lado dos seres humanos pode impulsionar mudanças evolutivas em espécies selvagens e semidomesticadas.

Mas será que o mesmo se aplica aos gatos, uma espécie domesticada há milhares de anos? Há duas respostas possíveis. Os gatos podem ainda estar mudando — ou talvez não tenham mudado muito, e seja nossa relação com eles que mudou.

Vamos começar pelos gatos.

Em comparação com os cães, os gatos têm sido tradicionalmente vistos como "menos" domesticados. Os cães foram criados para trabalhar ao nosso lado - pastoreando gado, protegendo casas e ajudando na caça -, enquanto os gatos, em grande parte, se domesticaram sozinhos.

Atraídos pelos roedores que se aproximavam dos primeiros assentamentos agrícolas, os gatos optaram por viver perto das pessoas porque isso lhes convinha, e não porque os criamos seletivamente para tarefas específicas.

Uma das razões pelas quais os gatos tiveram tanto sucesso é sua flexibilidade. Ao contrário de muitas espécies, eles conseguem ajustar seu comportamento para se adaptar ao ambiente em que vivem.

Onde a comida é escassa, os gatos tendem a viver sozinhos e a defender seu próprio território. Mas onde a comida é abundante, como nas proximidades das pessoas, eles conseguem tolerar uns aos outros e formar grupos sociais estáveis. Na verdade, alguns pesquisadores sugerem que os gatos primeiro evoluíram para tolerar outros gatos que viviam nas proximidades antes de estender essa tolerância aos seres humanos.

Embora a genética tenha um papel importante, gatinhos que têm interações positivas frequentes com humanos durante um período crítico (entre cerca de duas e sete semanas de idade) têm muito mais chances de se tornarem adultos confiantes e amigáveis.

Isso sugere que os gatos há muito tempo têm a capacidade de formar relacionamentos próximos com pessoas quando as condições são favoráveis. Em vez de se tornarem animais fundamentalmente diferentes, eles podem simplesmente estar expressando uma capacidade que possuem há muito tempo. Se for esse o caso, a maior mudança pode não ter ocorrido nos gatos, mas em nós.

As necessidades das pessoas em transformação

Ao longo do último século, o modo de vida de muitas pessoas mudou significativamente. Em grande parte do mundo, as taxas de fertilidade caíram drasticamente, de quase cinco filhos por mulher em 1950 para pouco mais de dois atualmente. As pessoas estão tendo menos filhos, adiando a maternidade e a paternidade, vivendo sozinhas por mais tempo e contando cada vez mais com animais de companhia para suprir necessidades emocionais que antes eram atendidas por relações familiares próximas.

Essas mudanças demográficas alteraram não apenas a forma como as famílias se estruturam, mas também quem, ou o que, ocupa o centro da vida familiar.

Na Finlândia, um país que passou por muitas dessas mudanças demográficas, uma pesquisa de 2023 com 857 donos de animais de estimação revelou que, ao conversar com familiares e amigos, pessoas sem filhos eram mais propensas do que os pais a se referirem a si mesmas como "mãe" ou "pai" em relação aos seus animais de estimação. Elas também eram mais propensas a descrever seus animais de companhia como "filhos", "crianças" ou "membros da família" e relataram um apego emocional mais forte a eles.

À medida que mais pessoas adiam a maternidade ou optam por não ter filhos, essa forma de se relacionar com animais de companhia pode se tornar cada vez mais comum. Essa mudança também pode se refletir na crescente popularidade de raças de gatos como o ragdoll, valorizadas por sua natureza afetuosa e dócil.

Os gatos ragdoll são conhecidos por sua natureza afetuosa. xixicatphotos/Shutterstock
Os gatos ragdoll são conhecidos por sua natureza afetuosa. xixicatphotos/Shutterstock
Foto: The Conversation

A mudança de atitudes transformou a vida que os gatos levam atualmente. Uma espécie que antes era valorizada principalmente pelo controle de roedores e outras pragas agora tem chances de ter plano de saúde, consultar um especialista em comportamento e seguir uma dieta especializada como um humano.

Nada disso significa que os gatos tenham parado de evoluir. A convivência com os humanos ainda pode moldar seu comportamento ao longo de muitas gerações. Mas as evidências sugerem que a transformação mais dramática ocorreu em seus donos.

Mudamos o significado dos gatos para nós e, ao fazer isso, mudamos a vida que eles levam hoje. Na época em que criei uma página no Facebook para a Sandi, as pessoas achavam isso excêntrico. Hoje, parece que muito mais gente passou a compartilhar da minha maneira de pensar.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Grace Carroll não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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