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O que a saúde de Jonathan, jabuti de 194 anos, pode revelar sobre a longevidade?

Análise genética identificou mecanismos ligados à manutenção celular, à proteção do DNA e ao controle de alterações associadas ao envelhecimento

11 out 2026 - 09h36
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Resumo
Aos 194 anos, o jabuti Jonathan, animal terrestre mais velho do mundo, virou foco de um estudo sobre longevidade saudável publicado na Science Advances. Cientistas identificaram que sua vitalidade resulta de uma combinação genética que repara danos no DNA, elimina células defeituosas e preserva a função mitocondrial. Além disso, seus telômeros e padrões de metilação assemelham-se aos de espécimes jovens, revelando mecanismos biológicos valiosos para entender o envelhecimento também em humanos.

Aos 194 anos, o jabuti Jonathan não chama atenção apenas por ser considerado o animal terrestre mais velho do mundo. Sua saúde também oferece aos cientistas uma oportunidade rara de observar como um organismo consegue preservar funções importantes mesmo após quase dois séculos de vida.

Jabuti mantém características celulares incomuns para a idade e ajuda a investigar como o organismo preserva funções por quase dois séculos
Jabuti mantém características celulares incomuns para a idade e ajuda a investigar como o organismo preserva funções por quase dois séculos
Foto: Reprodução/St. Helena Tourism / Bons Fluidos

Pesquisadores analisaram seu material genético para entender por que Jonathan envelheceu de maneira tão incomum. Os resultados apontam para uma combinação de características relacionadas ao reparo do DNA, ao controle de células defeituosas e à manutenção de processos celulares que normalmente se deterioram com o passar dos anos.

Publicado na revista científica Science Advances, o estudo ajuda a ampliar a compreensão sobre mecanismos envolvidos na longevidade saudável. Alguns desses processos também existem nos seres humanos, embora isso não signifique que possam ser simplesmente reproduzidos.

O que o jabuti Jonathan tem de diferente?

Os cientistas não encontraram uma única característica capaz de explicar seus 194 anos. O que chama atenção é a ação conjunta de diversas alterações genéticas favoráveis. Entre elas aparecem mecanismos que ajudam a corrigir danos acumulados no DNA. Esse processo importa porque, ao longo da vida, as células sofrem alterações provocadas tanto pelo funcionamento normal do organismo quanto por fatores externos.

"Não se trata de uma característica, mas de uma combinação de centenas delas. É realmente extraordinário", afirmou a geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao 'O Globo'. 

Jonathan também apresenta particularidades associadas à defesa contra células envelhecidas ou potencialmente cancerígenas. Além disso, suas mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia das células, mostram características que podem contribuir para a eficiência do organismo em idade tão avançada.

Sinais do envelhecimento aparecem de forma diferente

Outro ponto que chamou atenção dos pesquisadores envolve os telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos. Eles costumam ficar menores com o avanço da idade e funcionam como um dos indicadores do desgaste celular.

No caso de Jonathan, essas estruturas apresentam características mais próximas das observadas em indivíduos jovens do que seria esperado para um animal com quase dois séculos. Ademais, os pesquisadores estudaram o metiloma, conjunto de marcas químicas que ajuda a controlar quando e como os genes entram em atividade.

Com o envelhecimento, esse sistema tende a perder organização. Em Jonathan, porém, determinadas regiões mantiveram padrões semelhantes aos encontrados em jabutis muito mais jovens. "O padrão de metilação é muito importante para o estudo da longevidade. Aqui no Brasil vamos estudar esse padrão em nossos centenários", afirmou Zatz.

O que Jonathan pode ensinar sobre longevidade?

O interesse científico não está em transformar o jabuti em uma "receita" para prolongar a vida humana. Isso porque, na verdade, o valor do estudo está em identificar quais mecanismos ajudam um organismo a conservar suas células por mais tempo.

A capacidade de reparar danos, eliminar células problemáticas e manter uma regulação genética mais estável aparece como um dos caminhos para compreender por que algumas espécies e indivíduos envelhecem melhor que outros.

Essas descobertas também se aproximam de questões investigadas em seres humanos muito longevos, como a preservação da função celular e a organização das marcas químicas do DNA.

Jonathan nasceu por volta de 1832, nas Seychelles, e atualmente vive na ilha de Santa Helena, território britânico no Atlântico. Sua idade exata permanece incerta, mas registros históricos e características da carapaça sustentam a estimativa atual.

Até quando ele viverá permanece impossível prever. Entretanto, sua saúde já permite observar algo raro: como determinados mecanismos biológicos conseguem permanecer eficientes por quase dois séculos.

Bons Fluidos
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