Paradoxo visual: ver comida na internet pode ajudar quem está de dieta?
Ao contrário do que se pensava, observar conteúdos de alimentos hipercalóricos nas redes pode ser uma ferramenta de autorregulação que evita excessos alimentares
Pode parecer contra-intuitivo imaginar que observar imagens de uma pizza apetitosa nas redes sociais ajudaria a manter o foco em uma dieta, não é? No entanto, uma investigação realizada pela Universidade de Bristol, no Reino Unido, sugere exatamente isso.
O estudo revelou um comportamento curioso: indivíduos em processo de emagrecimento dedicam mais tempo a visualizar conteúdos de alimentos calóricos na internet do que aqueles que não possuem restrições alimentares. Longe de ser apenas um passatempo, essa prática parece atuar como uma estratégia de controle emocional.
Comida gordurosa x dieta
A psicologia explica esse fenômeno através do efeito rebote. Quando alguém decide iniciar uma dieta, é comum tentar suprimir pensamentos relacionados à comida. No entanto, quanto mais tentamos bloquear esses desejos, mais persistentes e intensos eles se tornam.
Ao consumir conteúdos visuais de comida, a pessoa consegue satisfazer, de certa forma, o desejo mental por aquele alimento sem precisar ingerir as calorias, evitando que o "proibido" se torne uma obsessão incontrolável. Como destaca Esther Kang, professora de marketing e líder do estudo: "Pode parecer contraditório, mas nossas descobertas mostram que as pessoas, especialmente aquelas que tentam controlar sua dieta, podem usar o conteúdo visual de comida como uma ferramenta de autorregulação."
E ela complementa: "No ambiente digital atual, onde esse tipo de conteúdo é muito acessível, essa interação visual poderia oferecer uma maneira simples e não invasiva de apoiar metas alimentares."
O que o experimento revelou
Para chegar a essas conclusões, a equipe de pesquisa analisou 840 voluntários, entre 19 e 77 anos, combinando observações online com testes práticos em laboratório.
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O teste do chocolate: Ao observar vídeos de doces, os participantes que estavam de dieta fixaram a atenção nas opções mais calóricas durante 30% mais tempo. Contudo, quando tiveram a chance de comer chocolate real, demonstraram um consumo muito menor do que o grupo que não estava de dieta.
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O "autocontrole" digital: Esther Kang observou que esses indivíduos usaram as redes sociais para saciar o desejo visual. Segundo a pesquisadora:"Quem estava de dieta claramente adotou essa forma de 'exploração digital'. E, ao contrário do que seria esperado, quando tiveram a oportunidade de comer chocolate de verdade, exerceram muito mais autocontrole do que quem não estava de dieta."
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Pizza e batata frita: Em outro teste, que comparou imagens de ultraprocessados (como pizza e frituras) com opções saudáveis (frutas e saladas), os participantes em dieta focaram nos alimentos menos saudáveis por um tempo aproximadamente 50% superior ao dos demais voluntários.
Uma estratégia acessível
Por fim, o estudo sugere que o uso dessas imagens pode ser uma ferramenta útil para quem busca gerenciar o peso, transformando o "food porn" das redes sociais em um aliado, e não em um vilão. Como conclui Kang: "A perda de peso é um negócio enorme. Nossos resultados sugerem que pode haver uma grande quantidade de material gratuito online capaz de ajudar quem tenta resistir aos seus desejos. As imagens talvez não substituam completamente a vontade de comer chocolate, mas podem ajudar a reduzir ou evitar os excessos."
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