O luto silencioso entre os pets: como os animais da casa reagem à perda de um companheiro
A dor de perder um animal de estimação rasga o peito, mas a ciência e o coração mostram que os amigos de quatro patas também sentem, à sua maneira, o vazio do adeus
LPerder um animal de estimação é uma dor profunda. É um silêncio que ecoa pela casa e aperta o coração. Mas, em meio ao nosso próprio sofrimento, fica uma pergunta delicada: e os outros pets que dividiam a rotina e o afeto com o amigo que partiu, como eles ficam?
A cientista Jacqueline Boyd viveu essa experiência na pele ao se despedir de sua doce cocker spaniel, Bobbi, diagnosticada com um câncer agressivo. Ao site The Conversation, ela relata que, enquanto lidava com a tristeza, ela se pegou observando os outros cães da casa. A verdade é que, embora a nossa cultura muitas vezes coloque os humanos no centro de todas as emoções, o reino animal transborda de pequenas e comoventes demonstrações de que a consciência da partida não nos pertence com exclusividade.
O luto dos outros pets
No texto, ela menciona que muitas espécies demonstram reações que tocam profundamente quem as observa. Gatos domésticos, por exemplo, mudam visivelmente seus hábitos após a perda de um companheiro, comendo menos, dormindo mais ou perdendo o interesse pelas brincadeiras. No oceano, golfinhos e orcas já foram vistos carregando seus filhotes sem vida por dias a fio, em uma demonstração tocante de apego e dificuldade de romper o vínculo. Até mesmo abelhas e formigas demonstram comportamentos específicos diante da morte — no caso dos insetos, reações mais instintivas e biológicas para proteção da colônia, mas que ainda assim provam uma percepção do ambiente.
Quando olhamos para mamíferos e primatas, a resposta ganha camadas de ternura e complexidade que se assemelham ao que chamamos de saudade. Negar essa sensibilidade seria ignorar a riqueza emocional que os animais possuem.
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O adeus de Bobbi
Para Jacqueline, a maior prova dessa conexão veio no momento mais difícil. Após a eutanásia, ela trouxe o corpinho de Bobbi de volta para casa e o colocou delicadamente sob o sol do jardim, permitindo que os outros cães se aproximassem para entender o que havia acontecido. O que se seguiu foi um momento de pura poesia e melancolia.
Enquanto a maioria cheirou brevemente e seguiu seu caminho, o sobrinho de Bobbi, Bertie, escolheu ficar. Ele sentou-se ao lado da companheira de uma vida inteira. "Ele cheirou. ambeu. Examinou. Por quase meia hora, ficamos sentados juntos em silêncio enquanto os outros corriam pelo jardim. Bertie era amigo de Bobbi e, apesar de toda a minha formação científica, eu sabia que ele sabia que ela tinha partido. Fico feliz por ter dado a ele o tempo para processar, da maneira que fosse, a mudança que ele sentiu nela", relembra Jacqueline de forma comovente.
A ausência de um amigo transforma a energia de qualquer lar. Os cães podem não entender a morte com as nossas definições filosóficas ou com o medo do amanhã que nos assombra, mas eles sentem a ausência física, o silêncio do latido que não se ouve mais e a calmaria do espaço vazio. No final, cada membro da família — de duas ou quatro patas — encontra sua própria maneira de curar a saudade.
*Jacqueline Boyd é Professora Sênior de Ciência Animal, Universidade de Nottingham Trent.
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