Em busca da cultura cervejeira em Porto Alegre
Durante vinte quatro horas, nosso enviado especial percorre redutos cervejeiros para entender um pouco essa cultura
Com fortes influências das imigrações italianas e alemãs, o sul do país contribui de forma expressiva para o campo gastronômico e de bebidas. Se por um lado os italianos implementaram a indústria vinícola, por outro os alemães trouxeram a tradição das Pilsen, cervejarias artesanais e micro cervejarias, que ressurgem com força no Rio Grande do Sul e arredores da capital Porto Alegrense.
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Herbert Schumacher, proprietário da micro cervejaria Abadessa, é um dos defensores dessa cultura no sul. Ele lembra que "até os anos setenta, havia inúmeras cervejarias artesanais e micro cervejarias no estado. Aos poucos, elas foram incorporadas pelos grandes grupos cervejeiros e muitas se extinguiram". A baixa deste número, no entanto, não fez com que essas cervejarias se dispersassem. Os homebrew, ou cervejeiros caseiros, prosseguiram, informalmente, à pesquisa de sabores embalados pelo malte e pelo lúpulo.
Mas afinal, o que é a cultura cervejeira? Para nos auxiliar na resposta, temos como guia o próprio Schumacher. A escolha não é por acaso, sua empresa produz uma Slava Pils, considerada por alguns especialistas como uma das melhores Pilsen do País. Frescas e com forte presença de lúpulo, o que confere aroma e sabor amargo bem peculiares, as Pilsen são as cervejas mais consumidas no país e também das mais técnicas. Seu aspecto brilhante e sabores delicados fazem com que esse tipo de cerveja denuncie os erros na sua elaboração com muita franqueza, logo, não é qualquer um que se arrisca na sua produção. Com um guia qualificado, mãos à obra. Ou melhor, ao copo.
Iniciando a rota
Sexta-feira à noite, Bar do Goethe, no térreo do Instituto Goethe de Porto Alegre. O chileno Fernando Yepes, responsável pelo bar, nos serve o primeiro copo das próximas 24 horas, uma Export, produzida pela Abadessa de Schumacher. Os dois trocam informações e discutem a respeito da qualidade da cerveja e estabilidade da espuma. Segundo Yepes, os freqüentadores do bar são exigentes quanto ao produto e sua atenção ao frescor da cerveja deve ser constante.
De lá fomos ao Bier Markt. O proprietário, Pedro Braga, passou de consumidor de cervejas especiais para fornecedor há cerca de três meses. Editor do Trinkt Mehr, blog especializado no assunto, Braga e seus sócios têm como lema trabalhar com cervejas que eles próprios beberiam. Por conta disso, além da enorme variedade de cervejas nacionais em garrafas - que talvez você nunca tenha ouvido falar -, a casa serve importadas e cervejas em barril, retiradas na pressão. Entre esses barris, há sempre espaço para uma "cerveja convidada", normalmente uma produção artesanal que Braga escolhe para ser a novidade da semana. Naquela sexta-feira, o destaque era a Anner Special Bitter, produzida em Porto Alegre pelos irmãos Glauco e Guilherme Caon. Schumacher, que ainda não conhecia a cerveja, provou-a e ligou de imediato para os produtores, cumprimentou-os pelo resultado e já marcando um encontro na manhã do dia seguinte. Ao desligar, completou: "é preciso muita coragem para colocar esse tanto de lúpulo em uma cerveja. Está muito boa". Antes de continuarmos a saga, provamos a Rasen Dunkel, da Rasen Bier, de Gramado, uma cerveja com aromas tostados bem marcados e espuma consistente.
Próxima parada: Bierkeller, de Vitório Levandowski, templo cervejeiro fechado ao público. Os afortunados que pertencem ao clube possuem chave do local, que é forrado de referências ao universo cervejeiro - copos, bandejas, garrafas, cartazes antigos, geladeiras de décadas passadas. No meio de todos esses elementos, um baú gelado e uma enorme geladeira, repletas de cervejas das mais variadas origens sem muita ordem, para que seja sempre possível fuçar e achar algo inusitado. De cara, experimentamos a Schmitt Sparkling Ale, produzida pela Schmitt, em Porto Alegre. Refermentada na garrafa, a cerveja possui cremosidade e densidade na espuma bem peculiares.
Schumacher retira do fundo da geladeira a sua famosa Slava Pils. "O Vitório guarda algumas no fundo e ninguém vê. Com isso elas conseguem uma boa maturação na garrafa. Aqui é um dos poucos lugares que consigo beber minha cerveja nessas condições de maturação", comenta. E, com a presença do proprietário, mais uma conversa em torno das cervejas se inicia.
Segundo dia
Na manhã seguinte, Guilherme Caon, produtor da Anner Special Bitter provada no dia anterior, nos acompanha à prova de cervejas diretamente dos tanques da Abadessa. Mas nossa próxima visita mesmo é no Nossa Senhora do Ó, do paulistano Vagner Piccolo e sua esposa, a gaúcha Mariana Castilhos. Vagner explica que foi também fundador do Frangó de São Paulo, com o qual Nossa Senhora do Ó tem parentesco de primeiro grau. Mantendo atividade paralela na indústria cinematográfica, Vagner logo saiu da casa paulistana. Seu irmão, Cássio, assumiu o posto imprimindo uma marca cervejeira ao negócio. Anos depois, quando Vagner e Mariana resolvem montar o Nossa Senhora do Ó em Porto Alegre, o DNA cervejeiro já estava presente desde a concepção do local, e foi lá bebemos a Coruja Extra Viva, mais um exemplar produzido nas cercanias de Porto Alegre.
Na sequência, fomos ao Homebrew BSG. Bogger, Sassen e Glitzer, - médico, produtor de TV e advogado e contador, respectivamente - se reuniram para produção caseira de cervejas. Dessa reunião saiu a célula para Acerva Gaúcha (Associação dos Cervejeiros Artesanais do Rio Grande do Sul), fundada em 2007. Na BSG as degustações não param. Bogger serve um copo de uma de suas delícias enquanto Glitzer explica a preferência do grupo pelas ales inglesas. Segundo Caon, que volta a nos encontrar, o lema ali é: "a vida é amarga e nossas cervejas mais ainda!"
Para fechar as vinte e quatro horas da saga, voltamos à Bier Markt. Na lista das inusitadas, alguma delas bem difíceis de se encontrar fora do Sul, provo a Duvessa Blonde Ale, Whitehead Irish Ale, Barley Pilsen, Whitehead Porter e, no último copo, a Whitehead Super 8.
Resultado da maratona: Depois de muita conversa e várias cervejas, surge uma das chaves que desvenda a cultura cervejeira. O importante é a busca da diversidade e troca de experiências, tanto nos erros como nos acertos, para se beber a melhor cerveja. Prosit!