Cachaças brasileiras buscam certificação orgânica
Em tempos de preocupação com a sustentabilidade, que envolve desde meios produtivos e relações comerciais viáveis e socialmente justas a preocupações com o meio ambiente, a produção brasileira de cachaça exibe esforços na direção da produção e comercialização da cachaça orgânica.
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Não é um simples modismo uma das principais tendências de consumo estar ligada a produtos social e ecologicamente corretos. E também não é de hoje; a moda, sempre um passo adiante na discussão de tendências, bem como o design, já discutem e aplicam conceitos ligados à sustentabilidade e preservação ambiental há algum tempo.
No segmento das bebidas, o tema também não é de todo estranho. Nos catálogos das principais importadoras do país já estão presentes vinhos produzidos a partir de vinhas orgânicas, bem como exemplares de alguns produtores ainda mais radicais, que adotam a perspectiva biodinâmica no manejo dos seus vinhedos e na elaboração de seus vinho.
Além dos vinhos, outro produto, genuinamente brasileiro, também volta os olhos para as certificações orgânicas: a cachaça, cujos produtores enxergam na produção orgânica um nicho de mercado a ser explorado e desenvolvido.
As preocupações com o meio ambiente tomam cada vez mais conta da agenda de empresários, que passam a criar linhas de produtos que expressem e reproduzam essas preocupações. Eles encontram amparo, por exemplo, no Paraná, dentro do IPD (Instituto de Promoção do Desenvolvimento). Em 2006, o IPD criou o programa Organics Brasil, um projeto que objetiva a promoção da exportação de produtos orgânicos brasileiros. "Inicialmente, era um programa piloto, com 12 empresas do Paraná. Hoje em dia, o Organics Brasil atua em nível nacional", esclarece Ming Liu, Diretor Executivo do projeto.
Contando com parcerias como Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e com a colaboração das Federações das Indústrias dos Estados onde atua, o projeto conta hoje com 49 empresas participantes, que fecharam 58 milhões de dólares em negócios no exterior no ano de 2009. Para obter a certificação de produto orgânico, os produtores precisam buscar uma empresa certificadora reconhecida pelo Ministério da Agricultura e seguir uma série de normas e procedimentos.
No caso específico da cachaça, a Organics Brasil, tem quatro empresas participantes que atuam neste segmento. São elas: Canaspirit e Cana Brazilis, de São Paulo, e Porto Morretes e Copercana, do Paraná. Liu lembra que, para o consumidor estrangeiro, a certificação de orgânica acrescenta alguns valores à cachaça que estão além do que pode ser percebido pelo paladar. Ele aponta que principalmente países europeus, como a Alemanha, têm interesse em produtos cuja imagem reflete "uma preocupação ambiental e social". Neste ponto, ele pondera que a certificação orgânica reforça essa imagem do produto.
Evandro Weber, da cachaçaria gaúcha Weber Haus, que também elabora cachaça orgânica, diz que "é importante que todos os envolvidos no processo, desde o trabalhador do campo até o consumidor final, saibam que estão se relacionando com um produto de maior segurança alimentar, uma vez que é um produto sem agrotóxicos". Isto, garante Weber, também interfere na qualidade final do produto. E ele pode falar isto com conhecimento de causa, as cachaças Weber Haus receberam medalhas por dois anos seguidos - em 2008 e 2009 - no San Francisco World Spirits Competition.
Mas Evandro Weber pondera sobre a certificação orgânica como principal atributo para ganhar espaço no mercado internacional, ao menos no atual estágio do mercado. Do total exportado pela Weber Haus, apenas 3% corresponde aos produtos orgânicos.
Fernando Andrade, da Aprodecana (Associação dos Produtores de Cana-de-Açúcar e seus Derivados no Estado do Rio Grande do Sul), que abriga o projeto Alambiques Gaúchos, também endossa essa posição. "O mercado externo exige uma certificação", diz ele, "seja ela orgânica ou não, desde que ela garanta ao consumidor estrangeiro a qualidade e rastreabilidade do produto". Para garantir esses dados, o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) lançou um selo que certifica a cachaça nacional a partir de uma série de quesitos. "No total, são 96 itens avaliados, entre eles a rastreabilidade de toda a matéria prima e do processo de produção da bebida, até uma série de relações e compromissos sociais que envolvem toda a cadeia produtiva da cachaça", explica Andrade.
Porém, para o consumidor, o selo do Inmetro ainda está fortemente ligado à medições volumétricas de produtos e normas de segurança. Já a certificação orgânica teria outro apelo junto ao público, "é uma marca mais forte", complementa Andrade. Atualmente, o projeto Alambiques Gaúchos possui junto aos seus associados dois produtores com certificação orgânica, a Cachaçaria Weber Haus e Velho Alambique, mas, segundo Andrade, outros cinco alambiques do projeto estão em processo de certificação.
Além dos produtores de cachaça de pequeno porte, também existem movimentos em direção à cachaça orgânica entre os grandes do setor. É o caso da Ypióca, que, segundo a empresa, é a única entre os produtores de cachaça em escala industrial a colocar no mercado um produto com certificação orgânica.