Por que a separação dos mocinhos deixou de funcionar nas novelas atuais?
A psicóloga e telespectadora Ellen Wandame analisa como a escolha de Adriana para afastar Pedro por medo fere a construção do casal de Quem Ama Cuida e reflete um vício das novelas que costuma afastar os fãs
A novela 'Quem Ama Cuida' tem acertado em diversos aspectos. Contudo, algumas escolhas narrativas vêm provocando uma nítida sensação de incoerência em quem acompanha a trama. A reflexão partiu da psicóloga e telespectadora, Ellen Wandame, que analisa a produção não como uma simples crítica, mas sob a perspectiva de quem lida diariamente com a complexidade das relações humanas.
Como profissional da saúde mental, Ellen acompanha histórias marcadas pelo medo, dor, vulnerabilidade e, sobretudo, força dos vínculos. Nesse sentido, é fácil acreditar no poder transformador de uma narrativa que mostra o amor traduzido em parceria, confiança e enfrentamento conjunto. O desejo de grande parte do público não é por uma história sem conflitos, mas sim pela preservação da bela construção que fez Pedro e Adriana conquistarem o país.
A reviravolta que frustrou os telespectadores
Recentemente, a novela exibiu uma das sequências mais decepcionantes de sua exibição, a despeito das atuações impecáveis de Letícia Colin e Chay Suede. Após receber uma ameaça do capanga de Pilar — afirmando que Pedro será morto caso ela continue ao seu lado — e ainda abalada pelo tiroteio que quase tirou a vida de seu avô, Adriana toma uma decisão guiada pelo medo.
Ela mente sobre os próprios sentimentos e afasta o amado, acreditando que, dessa forma, conseguirá protegê-lo. Por outro lado, embora o público entenda que conflitos são necessários para movimentar o folhetim, tais obstáculos funcionam muito melhor quando respeitam a essência dos personagens.
Durante semanas, o público acompanhou Pedro e Adriana sendo apresentados como duas pessoas que encontravam força mútua. Pedro era o porto seguro capaz de devolver os sorrisos de Adriana em meio às lágrimas, oferecendo apoio e esperança. A mensagem principal parecia clara: unidos, eles podiam superar qualquer adversidade.
Números de audiência confirmam o apelo do casal
A prova do sucesso dessa parceria está nos dados de audiência. Mesmo em meio aos horários flutuantes por conta da Copa do Mundo, 'Quem Ama Cuida' alcançou um de seus maiores índices justamente no capítulo em que Adriana é condenada.
Em vez de recuar diante da tragédia, Pedro correu para abraçá-la, declarou seu amor e os dois selaram a cena com o primeiro beijo ao som de Rosalía. O momento emocionou porque sintetizou a verdadeira potência da narrativa: a escolha de permanecerem juntos mesmo diante das piores circunstâncias. Por essa razão, a atitude de Adriana de mentir e afastar o parceiro causa tamanho estranhamento.
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A visão da Psicologia sobre o ato de "proteger"
Do ponto de vista psicológico, é compreensível que alguém tomado pelo medo ou pela culpa tente tomar as rédeas para poupar quem ama. No entanto, decidir pelo outro sem dar a ele o direito de escolha também significa retirar sua autonomia de permanecer ao lado de quem ama.
Torna-se quase irônico que, em uma novela intitulada 'Quem Ama Cuida', a protagonista acredite que cuidar seja sinônimo de afastar. Na prática e na psicologia clínica, o cuidado autêntico envolve:
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Confiança mútua: permitir que o parceiro conheça a verdade;
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Honestidade: compartilhar os riscos sem meias-palavras;
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Enfrentamento conjunto: dar ao outro o direito de escolher ficar, mesmo quando a realidade é dolorosa.
Em suma, às vezes o maior ato de amor não é afastar alguém para protegê-lo, mas sim permitir que ele permaneça.
O novo perfil do público de novelas
A frustração dos fãs sinaliza uma mudança comportamental importante na audiência contemporânea. Cada vez mais, os telespectadores buscam se identificar com casais que enfrentam os problemas como parceiros de vida, sem que o próprio relacionamento precise ser o obstáculo central da história. Há espaço para o sofrimento e para as reviravoltas, mas existe um desejo crescente de ver vínculos saudáveis sendo valorizados na TV.
Pelos resumos divulgados, essa dinâmica distante deve se prolongar nas próximas semanas, alimentando uma angústia entre os fãs. Muitos seguem assistindo mais pela expectativa do que pelo entusiasmo, na esperança de que, após a saída de Adriana da prisão na segunda fase, a história resgate sua essência: um amor construído como um lugar seguro para enfrentar os desafios, e não como mais uma vítima deles.
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