Páscoa: chocolate branco é o melhor para quem tem enxaqueca, dizem especialistas
Apesar de ser considerado mais saudável, chocolate amargo funciona como cronificador da enxaqueca, já que conta com alta quantidade de cafeína
Na Páscoa - e em outras épocas do ano - muita gente escolhe o chocolate pensando no teor de cacau. Em geral, as versões amargas e meio amargas costumam ser associadas a uma imagem mais saudável, principalmente por terem menos açúcar e mais compostos do fruto. Mas, para quem convive com enxaqueca, essa lógica nem sempre funciona da mesma forma.
Isso porque o chocolate com maior concentração de cacau pode agir como um fator de piora da doença, especialmente quando o consumo é frequente. Segundo o neurologista Dr. Tiago de Paula, especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC), o problema está nas substâncias estimulantes presentes justamente nas versões mais ricas em massa de cacau.
"O chocolate com maior teor de cacau funciona como cronificador da doença, potencializando as crises quando consumido com frequência. A enxaqueca é uma doença neurológica crônica, marcada por um cérebro mais sensível a estímulos internos e externos. Entre esses estímulos estão alguns componentes presentes no chocolate tradicional, especialmente naqueles com maior concentração de massa de cacau", explica.
Por que o chocolate amargo pode ser um problema?
O ponto principal está na composição. Chocolates amargos e meio amargos possuem mais massa de cacau, que contém substâncias como cafeína e teobromina. Essas moléculas têm efeito estimulante e podem aumentar a excitabilidade cerebral.
Em pessoas com enxaqueca, esse tipo de estímulo pode facilitar o aparecimento das crises. Ou seja: o chocolate não necessariamente causa a doença, mas pode funcionar como um gatilho ou até contribuir para que o quadro se mantenha mais frequente.
"Em pessoas com enxaqueca, esse estímulo pode favorecer o desencadeamento de crises. Quando o consumo é frequente, principalmente em pacientes que já têm crises recorrentes, o chocolate rico em cacau pode atuar como um fator de manutenção da doença, colaborando para um padrão mais frequente de dor. Isso não significa que o chocolate seja a causa da enxaqueca, mas sim que, em cérebros mais sensíveis, determinados componentes podem facilitar a crise", comenta o médico.
E o chocolate branco?
Nesse cenário, o chocolate branco costuma ser melhor tolerado. Isso acontece porque ele não leva massa de cacau, e sim manteiga de cacau - a gordura extraída do fruto. Na prática, isso significa que ele não contém os mesmos estimulantes presentes nas versões escuras. "O chocolate branco é mais seguro, mas em virtude da sua qualidade nutricional, deve ser consumido com moderação", acrescenta o médico.
Por não ter cafeína na mesma composição do chocolate tradicional, ele tende a ser uma alternativa mais tranquila para quem tem enxaqueca, principalmente em datas em que o consumo costuma aumentar, como Páscoa, Natal e aniversários.
"A manteiga de cacau é basicamente a gordura extraída do fruto e não contém cafeína. Por não possuir os estimulantes presentes na massa de cacau, o chocolate branco tende a ser melhor tolerado por pacientes com enxaqueca. Ou seja, para quem convive com a doença, pode ser uma alternativa mais segura quando o desejo por doce aparece ou em situações de maior consumo dessa guloseima, como em datas comemorativas, como na páscoa ou no natal", diz o médico.
Todo paciente com enxaqueca precisa evitar chocolate?
Não necessariamente. Esse é um ponto importante. Nem toda pessoa com enxaqueca vai perceber uma crise logo após comer chocolate. A resposta pode variar bastante de um organismo para outro. "Pode não ser um gatilho, mas sempre piora a doença enxaqueca", diz o médico.
Ou seja, mais do que observar apenas uma reação imediata, é importante considerar o impacto do consumo frequente ao longo do tempo. Em alguns casos, esse hábito pode ajudar a deixar o cérebro ainda mais sensível, favorecendo a cronificação das dores.
O cuidado vai além da alimentação
Embora ajustar a dieta possa ajudar, o tratamento da enxaqueca não se resume a cortar um alimento específico. A condição exige uma abordagem mais ampla, que leve em conta a frequência das crises, o estilo de vida da pessoa e o acompanhamento adequado.
"O tratamento deve ser individualizado e pode envolver medicamentos, ajustes no estilo de vida e acompanhamento especializado. O controle adequado da doença reduz a frequência das crises e evita que fatores como o consumo frequente de estimulantes contribuam para a sua cronificação", finaliza. Na prática, isso significa que sono, estresse, rotina alimentar, hidratação e acompanhamento médico também fazem parte do controle da doença.
O mais importante é conhecer o próprio corpo
Para quem vive com enxaqueca, a relação com o chocolate pode exigir mais atenção do que culpa. Nem sempre o alimento precisa ser totalmente excluído, mas vale observar padrões, frequência e possíveis associações com as crises.
No fim, aquilo que parece mais saudável de forma geral nem sempre será a melhor escolha em todos os casos. Quando o assunto é enxaqueca, entender como o corpo responde a certos estímulos pode ser um passo importante para conviver melhor com a condição - inclusive em datas em que o doce ganha protagonismo.
Sobre o especialista
Dr. Tiago de Paula (CRMSP 168999 | RQE 18111) é médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Tem especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP, onde também realizou a graduação em Medicina e a residência médica em Neurologia.
*Fonte: Holding Comunicação