O medo de esquecer quem amamos após o luto: Giulia Costa fala sobre memórias do pai, Marcos Paulo
Em conversa com a mãe, Flávia Alessandra, Giulia Costa refletiu sobre o receio de perder as lembranças do pai, Marcos Paulo, e trouxe à tona uma questão comum a muitas pessoas que vivem o luto
Existe uma dor pouco falada dentro do processo de luto. Não é apenas a ausência física de quem partiu, mas o receio de que, com o passar dos anos, detalhes importantes comecem a desaparecer da memória. O som da voz, o jeito de sorrir, as expressões mais marcantes e até algumas lembranças compartilhadas podem, aos poucos, perder nitidez. Recentemente, a atriz Giulia Costa emocionou o público ao falar justamente sobre esse sentimento.
Durante um episódio do podcast que apresenta ao lado da mãe, Flávia Alessandra, a atriz Giulia Costa compartilhou suas angústias ao tentar preservar as recordações do pai, o ator e diretor Marcos Paulo, que morreu em 2012.
Quando o tempo cura, mas também transforma
Ao refletir sobre sua experiência, Giulia trouxe uma percepção que costuma surgir em muitos processos de luto: a relação ambígua com a passagem do tempo. "Você tem alguma lembrança que você tem medo de esquecer?", questionou Flávia Alessandra.
"Meu pai. Tenho muito medo de esquecer. Eu estava vendo uma atriz falando da morte precoce, de você perder alguém muito cedo, que o tempo é aliado e inimigo. Ao mesmo tempo em que ele ajuda a cicatrizar a ferida, a gente vai aprendendo a lidar com essa dor, (as lembranças) vão se tornando uma névoa distante, uma névoa."
A fala toca em um aspecto profundo da experiência humana. Com o passar dos anos, a intensidade do sofrimento costuma diminuir, permitindo que a vida siga seu curso. Ao mesmo tempo, algumas memórias deixam de estar tão acessíveis quanto antes, o que pode despertar uma sensação de perda renovada.
Por que algumas lembranças parecem desaparecer?
A psicologia explica que a memória não funciona como um arquivo permanente e imutável. Cada vez que recordamos uma experiência, nosso cérebro reconstrói aquela lembrança. Com o tempo, alguns detalhes podem se modificar, enfraquecer ou simplesmente deixar de ser acessados com frequência. Isso não significa que o vínculo afetivo desapareça. Pelo contrário. Muitas vezes, o amor permanece intacto mesmo quando a mente já não consegue recuperar todos os detalhes da convivência.
Durante a conversa, Giulia revelou que o tema costuma surgir com frequência em seu processo terapêutico. "Volta e meia eu tenho crises na terapia e falo: 'Não lembro direito do meu pai'. Eu tento ficar lembrando, trazendo o rosto dele, tem uma névoa. Eu não consigo lembrar, preciso lembrar. Fico vendo fotos e vídeos, a risada..."
O valor emocional dos registros
Em uma época em que fotografias, vídeos e mensagens podem ser armazenados quase infinitamente, muitas pessoas encontram nesses registros uma forma de manter viva a conexão com quem já partiu.
Giulia contou que costuma recorrer a imagens e gravações para revisitar a presença do pai, embora a experiência também desperte emoções intensas. "Vídeo é uma coisa que chega a me dar nervoso de ver porque é muito louco a pessoa não estar mais aqui, acho muito estranho. Meu pai é uma memória que eu tento muito não esquecer. É uma memória que não vai dar para revisitar."
A fala revela um paradoxo comum no luto: os registros podem trazer conforto, mas também evidenciam a ausência de forma muito concreta.
A voz de quem já partiu
Durante a conversa, a atriz Flávia Alessandra também compartilhou sua própria experiência com a perda de familiares. "Perdi meu outros avós muito cedo (...) e eu não sei como era a voz dos meus avós. Deve ser ruim não ter nada porque deve ser muito gostoso você ter um registro e lembrar..."
A observação traz uma reflexão importante sobre a forma como as gerações se relacionam com a memória. Se no passado muitas famílias possuíam apenas fotografias impressas - quando possuíam - hoje é possível guardar vídeos, áudios e mensagens que preservam não apenas a imagem, mas também gestos, expressões e a voz de quem amamos.
Amar também é lembrar
Talvez uma das maiores preocupações de quem perde alguém seja imaginar que, um dia, a memória daquela pessoa possa desaparecer. No entanto, especialistas em luto costumam lembrar que o vínculo não vive apenas nas recordações conscientes. Ele também permanece nas histórias compartilhadas, nos valores transmitidos, nos hábitos herdados e até nas pequenas escolhas do cotidiano.
Por isso, embora algumas lembranças possam se tornar menos nítidas com o tempo, o amor raramente segue o mesmo caminho. Ele encontra novas formas de existir - menos como uma imagem perfeitamente definida e mais como uma presença silenciosa que continua acompanhando a nossa trajetória.
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