Minimalismo digital: Como criar um refúgio no seu quarto com hábitos analógicos e higiene do sono
Especialistas explicam o poder dos hobbies fora das telas e as melhores formas de melhorar a qualidade do descanso
O feed infinito acabou por mudar completamente a forma como usuários usam as redes sociais. Com vídeos mais curtos, rolagem infinita e estímulos a todo instante, as pessoas passaram a desenvolver uma dificuldade maior de desconectar, o que é transposto para a perda na qualidade do sono. As fronteiras entre trabalho e descanso têm se tornado mais curtas, e a tecnologia impacta diretamente a perda do quarto como um santuário ligado à renovação de energias.
Em teoria, os quartos são desenhados exatamente para isso: serem um refúgio do mundo, um sinônimo de descanso, desaceleração. No entanto, isso tem se perdido cada vez mais com o avanço da tecnologia e sua entrada frequente nas casas das pessoas.
Gabriela Brasil estuda o minimalismo digital e seus impactos na sociedade atual. Segundo a pesquisadora, essa técnica trata do "uso intencional da tecnologia: você escolhe onde ela entra, com qual função, e onde ela não entra. Isso é importante para reduzir o ruído, o estímulo e a reatividade". A partir dessa ideia, o quarto ??atuaria como uma forma de "zona protegida", feito para "recuperação": "Essa fronteira não é "antitecnologia, ela é pró-energia, pró-clareza e pró-presença. Eu acho que esse ponto de vista é o que muda tudo porque, para que possamos descansar, precisamos de suporte. Além do suporte de rede, o suporte do ambiente e dos hábitos é fundamental para o descanso", afirma.
A higiene do sono e o quarto como refúgio
Em tempos mais recentes, o conceito de "higiene do sono" passou a ganhar mais força nas redes sociais. Trata-se de técnicas que, quando realizadas juntas, melhoram a qualidade e duração do sono. Uma das principais recomendações de Monica Andersen, diretora de ensino e pesquisa do Instituto do Sono, é manter uma regularidade em termos de horário para dormir e acordar.
A importância do silêncio também é apontada como uma medida importante para manter uma boa qualidade do sono, bem como a escuridão no ambiente. Segundo ela, luzes como as de televisão e de carregadores prejudicam a qualidade do sono.
Além de vivermos em uma era de hiperconexão, há detalhes sutis que também têm impactado a forma como o sono se torna mais ou menos reparador. Em meio a dicas e sugestões, confira abaixo como transformar o seu quarto em um verdadeiro santuário do descanso.
Os hobbies analógicos
Está na moda entre os jovens a ideia de tentar levar uma vida mais saudável e desacelerada e o conceito "wellness" (bem-estar) está mais presente.
É então que os hobbies analógicos surgem como uma opção para pessoas que buscam reduzir seu tempo de tela e desconectar. Leitura, crochê, cerâmica, journaling (hábito de escrever regularmente sobre pensamentos, sentimentos e vivências) são apenas algumas das atividades que não envolvem a internet e que podem melhorar a qualidade de vida das pessoas. Essas práticas têm se provado bastante eficientes em termos de "antídoto" contra a fadiga gerada pelo excesso de informação.
Esses hobbies promovem uma troca de "um ambiente de excesso de opções e estímulos - feeds, links, recomendações, multitarefa - por um ambiente de poucas escolhas e alta profundidade. O minimalismo digital busca exatamente isso: diminuir o ruído de baixo valor e abrir espaço para foco e bem-estar", explica Gabriela.
Andersen ainda reflete sobre a importância de um local específico para cultivar esses hábitos. A criação de um espaço voltado para hobbies auxilia pessoas que sofrem de insônia, já que a dificuldade de pegar no sono pode levar o cérebro a associar a cama como algo ligado a problemas, uma vez que pensamentos ruins podem estar relacionados à falta de sono.
Do hobby às redes
Taiane Luchese é uma influenciadora digital que trabalha com uma vida cercada de hobbies analógicos e compartilha um pouco de suas atividades nas redes sociais. Ela conta que só passou a ter contato com internet quando ganhou seu primeiro celular, por volta dos 13, 14 anos, e a criação de conteúdo entrou em sua vida apenas na pandemia.
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Por mais paradoxal que isso possa parecer, ela vê seu espaço de gravação como um refúgio: "Sempre evito ficar muito no celular deitada na cama. Meu quarto é o lugar em que gosto de ler um bom livro, desenhar, pintar, escutar música e ter meu descanso de telas."
"Quando meu tempo de tela é muito alto, consequentemente a minha ansiedade aumenta e isso piora a qualidade do meu sono. Quando tenho contato com meus hobbies, evitando redes sociais e consumir conteúdos rápidos, isso ajuda demais na minha produtividade e, consequentemente, diminui a ansiedade, justamente por sentir que estou sendo mais produtiva e que meu dia está sendo bem aproveitado e não que perdi horas vendo centenas de vídeos curtos", comenta.
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O minimalismo digital prega exatamente isso: uma busca por fazer uso da internet de forma estratégica, e não sem limites. Em alguns casos, o silêncio passa a ter um papel importante na recuperação após um dia difícil. "Em vez de entrar no quarto já 'preenchendo', a pessoa cria um ritual curto e repetível: luz mais baixa, um livro, algumas linhas de journaling, musiquinha baixa, respiração simples. A ideia não é performar uma rotina perfeita, mas sim reduzir estímulo e deixar a mente voltar ao próprio ritmo, como um 'espaço de reconexão' consigo mesmo."
Mas ler no Kindle é considerado tempo de tela?
Mesmo que você esteja consumindo literatura, a leitura realizada no Kindle ou em qualquer e-reader também é considerada como tempo de tela. Andersen explica que, por se tratar de um dispositivo que emana luz, há um bloqueio na liberação de melatonina, o que impacta diretamente a qualidade do sono.
Ideias práticas para transformar um quarto num verdadeiro refúgio
"Eu falo muito que hoje o quarto deixou de ser apenas um lugar para dormir. Ele precisa ser um refúgio, um espaço que protege o corpo, desacelera a mente e reconecta a pessoa com ela mesma", diz a arquiteta Flávia Burin.
Ao tratar dos principais erros cometidos ao projetar o ambiente, ela cita a presença dos campos eletromagnéticos, descritos como "uma doença silenciosa". Há ainda uma outra questão referente à proximidade desses aparelhos. O recomendado é mantê-los mais afastados de nós cerca de 50 centímetros.
Ainda nessa questão, torna-se cada vez mais difícil manter o trabalho fora do ambiente do quarto, já que muitas vezes, é necessário colocar computadores dentro do local como forma de otimizar o espaço. Mesmo assim, Burin faz um alerta para evitar o uso desses aparelhos, videogames e até mesmo televisão no local que seria destinado para o descanso.
A fim de criar um reduto em que se desenvolvam os hábitos, a arquiteta traz algumas dicas. Para adolescentes, a preferência é por algo mais despojado: "Eu gosto de jogar um pufe no chão, para que ele se jogue, para que ele se conecte". Aos adultos, uma das opções é um chaise, ou "uma poltrona que abrace, que seja confortável".
Já para a iluminação do quarto, o mais recomendado é seguir numa linha de luzes amarelas: "Ela acalma e é acolhedora". Ao mesmo tempo, há a questão de que certos aparelhos possuem uma iluminação que pode prejudicar o sono, como o ar condicionado, com um ponto azul. "Se não tiver como desconectar o aparelho, a gente tem que colocar uma fita isolante. É preciso dar um jeito de esconder."
A ideia principal para a criação de um quarto que privilegia o sono é apostar no minimalismo, e isso é refletido também na escolha de tons e texturas: o ideal é usar cores claras.
Em termos dos aparelhos em si, Gabriela dá outras dicas de como passar a depender menos deles. Há uma certa necessidade na utilização de celulares por conta dos alarmes, mas é possível escolher um despertador físico ou, até mesmo, programar uma Alexa para te acordar.
A ideia é sempre reduzir a dependência dos celulares. Você pode manter seu aparelho mais distante da cama ou, melhor ainda, fora do seu quarto. "Esses caminhos funcionam porque minimalismo digital sugere reduzir notificações, criar zonas livres de tela e proteger a primeira/última hora do dia, justamente os momentos mais sensíveis para a mente.?? Você mantém a utilidade - acordar no horário - , mas remove o 'portal infinito' que puxa para notificações e rolagem."
Como reduzir o uso de celulares?
Há um fenômeno muito intrínseco à sociedade moderna chamado FOMO (Fear Of Missing Out, em tradução livre, medo de ficar de fora). O minimalismo digital trabalha com uma mudança de perspectiva. O medo vira felicidade no JOMO (Joy of Missing Out, em tradução livre, alegria de ficar de fora) e, assim, passa a haver um descanso. "O pulo do gato é entender que desligar não é ausência: é escolha ativa de prioridade. Você não está 'perdendo o mundo'; você está garantindo que o amanhã tenha energia, clareza e humor e isso muda a relação com a própria disponibilidade", explica Gabriela.
O início da transição para um quarto e vida mais analógicos pode gerar tédio ou abstinência, mas é possível. A pesquisadora relata que esse deve ser um processo gradual e realizado aos poucos, de forma a ser menos impactante. A ideia é trabalhar com os opostos: dificultar o acesso ao ruim e facilitar ao bom. "O tédio muitas vezes é só o sistema nervoso reaprendendo a ficar sem estímulo alto. Com repetição, ele vira descanso", finaliza.
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