Marcos Oliveira relata vida no Retiro dos Artistas e gera polêmica: 'Tem que se adaptar'
Desabafo do ator sobre convivência no Retiro dos Artistas gera críticas e reacende debate sobre envelhecimento com dignidade
A forma como envelhecemos - e, principalmente, como somos acolhidos nessa fase - ainda é um tema cercado de tabus, expectativas e, muitas vezes, silêncios. O assunto voltou à tona após declarações do ator Marcos Oliveira, de 69 anos, conhecido por interpretar o Beiçola em A Grande Família, sobre sua experiência no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro.
O espaço, que há décadas acolhe profissionais da arte em situação de vulnerabilidade, passou a ser a casa do ator após dificuldades financeiras. A residência onde ele vive, inclusive, foi construída com apoio da atriz Marieta Severo.
Adaptação, convivência e incômodos do dia a dia
Ao comentar sua rotina em entrevista à Veja, Marcos destacou que, apesar de reconhecer pontos positivos, a convivência coletiva exige adaptação constante. Segundo ele, o ambiente nem sempre segue um padrão de convivência harmonioso, o que pode gerar desconfortos.
"Viver aqui é ótimo, só que tem que se adaptar, porque aqui não tem uma conduta geral para conviver, entendeu? Aí você vai e aguenta. Na hora do almoço, é uma refeição que eles [outros moradores] falam para caral*o, gritam... A relação deles é gritar. Eu falo assim: você pode sair da favela, mas a favela nunca sai de você. O comportamento é muito mal educado. Fico quieto, vou lá, aguento numa boa", contou.
O ator também comentou que sente falta de trocas mais profundas entre os moradores e de uma convivência que vá além das lembranças do passado. "Aqui, depois dos 70, 80 anos, não tem mais respeito, então deixo o pessoal falar. Fod*-se. E eles não têm o hábito de um ir na casa do outro, então eles preferem na hora da refeição e só falam sobre o passado e, bicho, eu não estou no passado", afirmou.
Sexualidade na velhice: um tabu que persiste
Outro ponto levantado por Marcos - e que abre uma discussão importante - é a invisibilização da sexualidade na terceira idade. Para ele, o tema ainda é tratado com preconceito, como se o desejo deixasse de existir com o passar dos anos.
"A gente, mesmo velho, a sexualidade existe no inconsciente. Há o desejo sexual noturno e isso não se toca no assunto. Velho não é para sentir prazer, não é para ter relação. Não quero fazer um sexo Cirque Du Soleil, que sobe e desce, mas é uma troca de carinho e, aqui, não pode ter isso".
Repercussão nas redes: entre críticas e julgamentos
As declarações rapidamente ganharam força nas redes sociais e dividiram opiniões. Enquanto alguns internautas demonstraram empatia, muitos criticaram o tom das falas, apontando ingratidão diante da estrutura oferecida pelo Retiro.
Comentários como "Quanta gente morando lá é grata..." e "Se ele tá reclamando, deve ter opção né?" refletem uma visão comum: a de que quem recebe ajuda não deveria expressar insatisfação. Essa reação, no entanto, também revela como ainda é difícil lidar com a complexidade das experiências humanas.
O posicionamento do Retiro dos Artistas
Diante da repercussão, o Retiro dos Artistas se manifestou oficialmente, reforçando sua missão centenária de acolher artistas com dignidade. Segundo a instituição, que atualmente abriga mais de 50 residentes, o convívio coletivo exige diálogo constante, já que cada pessoa carrega uma história e uma forma de ser.
Em nota, o Retiro destacou que "acolhe profissionais da arte, tem como missão oferecer dignidade, respeito e qualidade de vida aos seus residentes" e afirmou que as declarações do ator não representam a realidade da maioria.
O comunicado também trouxe um olhar importante sobre o tema da vulnerabilidade: "é importante reconhecer que nem toda pessoa que precisa de ajuda se sente confortável em estar em uma posição de vulnerabilidade. Precisar, aceitar e querer estar nessa condição são coisas diferentes".
Envelhecer com dignidade também envolve escuta
O episódio vai além de uma polêmica pontual. Ele escancara questões profundas: como lidamos com o envelhecimento? Estamos preparados para oferecer não só abrigo, mas também escuta, individualidade e respeito às subjetividades?
Envelhecer com dignidade não significa apenas ter um lugar para morar, mas também se sentir pertencente, respeitado e livre para expressar incômodos. Afinal, acolhimento verdadeiro também passa por abrir espaço para o diálogo, mesmo quando ele é desconfortável.