Esqueceu o que foi buscar em outro cômodo? Entenda o curioso 'efeito da porta'
Fenômeno conhecido como "efeito da porta" ajuda a explicar por que uma simples mudança de ambiente pode fazer uma intenção escapar da memória
Você estava sentado no sofá quando lembrou que precisava pegar alguma coisa no quarto. Levantou, caminhou até lá e, assim que entrou pela porta, veio o branco: "O que eu vim buscar mesmo?". Depois de alguns segundos tentando lembrar, talvez seja necessário até voltar para o lugar de onde saiu.
A situação é tão comum que geralmente colocamos a culpa na distração, no cansaço ou até na idade. Mas existe uma explicação curiosa para esse esquecimento - e ela tem relação com a maneira como o cérebro organiza nossas experiências.
Pesquisadores chamam o fenômeno de "doorway effect", ou "efeito da porta". A ideia é que atravessar de um ambiente para outro pode fazer com que uma informação que estava ativa na mente fique temporariamente mais difícil de acessar. Ou seja: você não necessariamente esqueceu o que precisava fazer. Seu cérebro apenas mudou de contexto.
Por que atravessar uma porta pode nos fazer esquecer?
Embora tenhamos a sensação de viver os acontecimentos como uma sequência contínua, o cérebro tende a organizá-los em diferentes episódios. Uma conversa pode representar um evento. Sair de casa e entrar no carro, outro. Chegar ao trabalho, começar uma reunião ou mudar de sala também criam pequenas divisões entre aquilo que aconteceu antes e o que está acontecendo agora.
Essas mudanças funcionam como uma espécie de fronteira mental, ajudando o cérebro a organizar experiências e informações de acordo com cada contexto. É aí que entram as portas.
Quando saímos da sala e entramos no quarto, por exemplo, uma série de elementos se modifica. Mudam os objetos ao redor, a iluminação, os sons e as informações visuais que precisam ser processadas. Dependendo da situação, até aquilo que esperamos fazer naquele ambiente é diferente.
Diante do novo cenário, o cérebro atualiza as informações consideradas mais importantes naquele momento. Com isso, a intenção formada no cômodo anterior pode perder temporariamente sua prioridade. É quase como fechar uma aba para abrir outra. A primeira continua existindo, mas não está mais imediatamente diante dos olhos.
O cérebro usa o ambiente para acessar lembranças
Experimentos sobre o efeito da porta indicam que a mudança de ambiente pode dificultar a recuperação de determinadas informações, mesmo quando a pessoa percorre distâncias semelhantes.
E não é necessariamente preciso existir uma porta física. Estudos sobre o fenômeno sugerem que imaginar ou antecipar uma mudança de ambiente também pode interferir no acesso a determinadas informações.
Isso acontece porque a memória não funciona como um grande arquivo em que cada lembrança fica guardada de maneira completamente independente. O contexto ajuda o cérebro a encontrar aquilo que procura.
Lugares, sons, pessoas, cheiros, atividades e até nosso estado emocional podem funcionar como pistas associadas a uma lembrança. Quando parte desse cenário muda, algumas pistas deixam de estar disponíveis.
Isso também explica uma experiência bastante conhecida: você esquece o que foi fazer no quarto, retorna para a sala e, de repente, lembra. Não é necessariamente coincidência. Voltar ao ambiente anterior pode recuperar pistas relacionadas ao momento em que aquela intenção surgiu.
Existe ainda a memória do que pretendemos fazer
Outro mecanismo envolvido nessas situações é a chamada memória prospectiva, responsável por nos ajudar a lembrar de algo que pretendemos realizar mais adiante. É ela que entra em ação quando pensamos "preciso tomar meu remédio quando chegar em casa", "vou responder essa mensagem depois da reunião" ou "tenho que pegar aquele documento antes de sair".
Algumas dessas intenções precisam permanecer por um período curto na memória de trabalho até que consigamos colocá-las em prática. E é justamente nesse intervalo que novas informações podem disputar nossa atenção.
Pense em uma situação bastante atual: você se levanta para buscar algo, pega o celular no caminho, vê uma notificação, responde rapidamente, entra em outro cômodo e começa a prestar atenção em alguma coisa que encontrou por lá. Em poucos segundos, o cérebro precisou administrar diversas mudanças de foco. Nesse caso, talvez a porta seja apenas uma das muitas interrupções envolvidas no esquecimento.
Nem todo esquecimento significa que há algo errado com a memória
Esquecer ocasionalmente o motivo pelo qual entramos em determinado cômodo pode causar preocupação, principalmente conforme envelhecemos. No entanto, esse tipo de lapso isolado não significa, por si só, a presença de uma doença neurológica.
O efeito da porta já foi observado em diferentes faixas etárias e pode ficar mais perceptível em momentos de distração, cansaço ou quando estamos lidando com muitas informações ao mesmo tempo.
O cenário merece outro tipo de atenção quando os esquecimentos se tornam progressivos e começam a prejudicar as atividades cotidianas. Repetir constantemente as mesmas perguntas, apresentar dificuldade crescente para realizar tarefas que antes eram simples, ficar desorientado em lugares conhecidos ou perder autonomia são situações diferentes de simplesmente esquecer por alguns instantes o motivo de ter entrado no quarto.
Por isso, da próxima vez que atravessar uma porta e perceber que a intenção desapareceu, uma estratégia bastante simples pode ajudar: volte ao lugar onde teve aquela ideia. Ao reencontrar o contexto original, as pistas que ajudaram a formar aquela intenção podem reaparecer.
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