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DIU hormonal e risco de câncer de mama: o que se sabe sobre esse elo

Pesquisas sugerem aumento relativo do risco, mas especialistas afirmam que efeito é pequeno e precisa ser analisado junto a outros fatores

7 abr 2026 - 11h48
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Estudos epidemiológicos investigam há alguns anos a possível relação entre o uso de dispositivo intrauterino (DIU) hormonal e o risco de câncer de mama — tema que frequentemente gera dúvidas entre pacientes em consultórios e nas redes sociais. Embora análises de grandes bases populacionais apontem uma associação estatística entre o DIU liberador de levonorgestrel e um aumento no risco da doença, especialistas pedem cautela na interpretação desses resultados.

Pesquisas sugerem aumento relativo do risco, mas especialistas afirmam que efeito do DIU é pequeno e precisa ser analisado com outros fatores
Pesquisas sugerem aumento relativo do risco, mas especialistas afirmam que efeito do DIU é pequeno e precisa ser analisado com outros fatores
Foto: Getty Images Signature/Lalocracio / Bons Fluidos

Um dos estudos mais citados, publicado em 2024 no JAMA, foi conduzido na Dinamarca e analisou dados de mais de 150 mil mulheres, metade das quais eram usuárias do DIU hormonal. Após ajustes estatísticos, então, os pesquisadores observaram aumento relativo de 40% no risco de câncer de mama associado ao uso do método.

Um trabalho mais recente, realizado na Coreia do Sul e publicado em 2025 na revista Obstetrics & Gynecology, acompanhou mulheres com idades entre 30 e 49 anos e diagnóstico de patologias que poderiam ser beneficiadas pelo uso de levonorgestrel. Dessa forma, a pesquisa identificou um risco 38% maior de desenvolver câncer de mama entre as usuárias de DIU hormonal.

Contudo, é preciso interpretar esses achados com cautela. "Apesar do aumento relativo demonstrado em alguns estudos, o aumento absoluto é baixo, e esses valores são similares aos observados com uso de anticoncepcionais orais ou por obesidade e consumo de bebidas alcóolicas", analisa o oncologista Diogo Sales, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.

Alta eficácia e longa duração

O DIU é um método contraceptivo de longa duração inserido no útero e disponível em duas principais versões: de cobre e hormonal. No primeiro caso, o dispositivo libera íons de cobre que provocam uma reação inflamatória local tóxica aos espermatozoides, reduzindo sua mobilidade e viabilidade. Já o DIU hormonal libera levonorgestrel, um progestagênio — hormônio sintético com ação semelhante à da progesterona — que espessa o muco cervical e altera o endométrio, dificultando a fecundação e a implantação do embrião.

Ambos têm alta eficácia contraceptiva, com taxa de falha inferior a 1%, e podem permanecer no organismo por vários anos: de três a cinco anos no caso do DIU hormonal e até 10 anos no DIU de cobre. No entanto, o uso desses dispositivos ainda é relativamente baixo no Brasil. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 indicam que o método era utilizado por cerca de 3,8% das brasileiras. Enquanto isso, a pílula contraceptiva aparecia como o método mais comum, usada por 34,1%.

O acesso também é limitado no sistema público: levantamento recente do Censo das Unidades Básicas de Saúde mostrou que apenas 19,7% das UBS realizam a inserção do dispositivo, o que contribui para a baixa utilização do método no país. Além da contracepção, o DIU hormonal também é comum no tratamento de condições ginecológicas, especialmente o sangramento uterino aumentado. Ele reduz o espessamento do endométrio e pode evitar intervenções como cirurgias para retirada do útero.

Fatores de risco

A possível ligação entre contraceptivos hormonais e câncer de mama está relacionada ao papel dos hormônios sexuais no crescimento das células mamárias. Isso porque o tecido da mama é sensível a estrogênio e progesterona, que regulam a proliferação celular.

"A exposição prolongada a essas substâncias ao longo da vida pode aumentar a probabilidade de duplicação no DNA e, portanto, o surgimento de células cancerígenas", explica Sales. Entre os fatores que aumentam o tempo de exposição hormonal estão menarca precoce, menopausa tardia ou não ter filhos.

Mas ele também é suscetível ao consumo de álcool e à obesidade, por exemplo, além da genética. "O risco do anticoncepcional é de magnitude similar a outros fatores conhecidos", aponta o oncologista. "Pelo histórico familiar, independentemente do componente genético, se você tem um parente de primeiro grau que teve câncer de mama, o risco aumenta em duas vezes. Se tiver dois parentes de primeiro grau que tiveram a doença, o risco é três vezes maior que o da população geral."

Muitos estudos observacionais não conseguem controlar completamente outros fatores que influenciam o risco de desenvolver a doença. Portanto, é necessário interpretar esses percentuais no contexto do risco absoluto da doença. E, mesmo nos estudos que olharam para esse contexto, o impacto absoluto foi pequeno. No caso da Dinamarca, entre um e 14 casos adicionais de câncer de mama a cada 10 mil mulheres que utilizam o DIU.

"Pode ser difícil refinar os estudos a ponto de chegar à conclusão de que os casos poderiam ter outra associação. Então, vale reforçar a mudança de estilo de vida para reduzir risco de câncer de mama. Isso é o mais importante", orienta Ilza Maria Urbano Monteiro, presidente da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).

DIU: benefícios e contraindicações

A dimensão de tratamento também precisa entrar na avaliação de risco e benefício do método contraceptivo. O DIU hormonal está associado à proteção contra o câncer de endométrio, por exemplo. "Há mais casos de câncer de mama, mas proporcionalmente as mulheres recebem o pior atendimento no que se relaciona ao câncer de endométrio", relata Monteiro.

Na prática, a escolha deve alinhar os objetivos da paciente com possíveis riscos e contraindicações, como histórico oncológico. No caso do DIU hormonal, ele é contraindicado a quem já teve câncer de mama, pois o hormônio também pode ter efeitos sistêmicos no organismo. "Toda medicação, até coisas simples como vitaminas, tem efeitos benéficos e colaterais", pondera Diogo Sales. "O importante é que as pessoas recebam orientação antes utilizar, questionem possíveis efeitos adversos e entendam potenciais riscos associados."

*Texto escrito por Marília Marasciulo, da Agência Einstein 

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