'Colegas e o Herdeiro': sequência chega 14 anos depois celebrando a neurodivergência
Sequência do premiado 'Colegas' reúne atores com síndrome de Down, autismo e outras deficiências intelectuais em uma aventura sobre amizade, amor e autonomia
Quatorze anos depois de 'Colegas' conquistar o público e abrir espaço para atores com síndrome de Down no cinema nacional, os personagens estão de volta às telonas. Nesta quinta-feira (13), estreia 'Colegas e o Herdeiro', continuação dirigida por Marcelo Galvão que recupera parte do elenco original e apresenta uma nova geração de intérpretes.
Desta vez, a inclusão ganha uma dimensão ainda maior. Além de atores com síndrome de Down, o elenco reúne pessoas autistas e com outras deficiências intelectuais. Ao todo, mais de 70 jovens com deficiência participaram da produção.
Mas a proposta não é construir uma história centrada nas limitações ou transformar seus personagens em exemplos de superação. Pelo contrário: eles se apaixonam, fazem planos, enfrentam confusões, tomam decisões e embarcam em uma aventura tão absurda quanto divertida.
"Depois de 14 anos, a gente conseguiu trazer algo além dos Colegas, trouxemos autistas, [atores com] síndrome de Williams. São mais de 70 jovens com deficiência intelectual, e é mais inclusivo ainda do que o Colegas foi. O grande lance não é falar sobre deficiência. A gente assiste ao filme e, em cinco minutos, esquece que eles têm deficiência e embarca com eles. Isso os dois têm em comum", explica Marcelo Galvão à Folha.
Uma nova aventura, agora no Uruguai
Se o primeiro filme acompanhava três amigos que fugiam de uma instituição em busca de seus sonhos, a sequência retoma esse espírito aventureiro, mas coloca novos personagens e desafios no caminho.
Na história, Fernanda, Letícia, Duda e Igor decidem fugir do instituto onde vivem para encontrar Stallone, personagem interpretado por Ariel Goldenberg e conhecido do público desde o primeiro longa.
O grupo acredita que o amigo esteja no Uruguai administrando um hotel que teria recebido como herança. Para chegar até ele, os jovens embarcam clandestinamente em um avião de carga rumo a Punta del Este.
A viagem, naturalmente, não acontece como planejado. Entre aviões, perseguições, Polícia Federal, joias e confusões amorosas, os personagens acabam cruzando o caminho de uma família de criminosos envolvida com o contrabando de pedras preciosas. Fafy Siqueira entra na história como uma das vilãs e, ao lado dos filhos de sua personagem, tenta envolver os amigos no esquema.
Representatividade que vai além da síndrome de Down
Quando Colegas chegou aos cinemas, em 2012, chamou atenção por algo ainda pouco comum no audiovisual brasileiro: atores com síndrome de Down ocupavam o centro de uma história de ficção, sem que a deficiência fosse necessariamente o assunto principal.
O longa, protagonizado por Ariel Goldenberg, Rita Pokk e Breno Viola, conquistou 13 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Kikito de Ouro de Melhor Filme no Festival de Gramado.
Agora, o novo capítulo amplia essa proposta ao reunir intérpretes com diferentes condições e experiências. Um dos novos nomes é Henrique Fernandes, que interpreta Magrelo. Autista, o ator constrói boa parte de seu personagem por meio das expressões corporais e dos gestos, mesmo tendo poucas falas.
A diversidade também aparece na maneira como o roteiro aborda assuntos que ainda costumam ser tratados como tabu quando envolvem pessoas com deficiência, entre eles namoro, sexualidade, gênero, autonomia e independência.
Em vez de evitar essas questões, a comédia utiliza situações cotidianas e o próprio humor para mostrar seus personagens vivendo experiências que fazem parte da vida adulta.
Humor para falar também sobre capacitismo
Apesar do tom leve, Colegas e o Herdeiro não deixa de colocar o preconceito em cena. Algumas situações evidenciam comportamentos capacitistas, termo utilizado para descrever a discriminação e os estereótipos direcionados às pessoas com deficiência.
A diferença é que essas questões aparecem inseridas na própria aventura, sem transformar a produção em um drama sobre exclusão. "Amadureci bastante, aprendi bastante ao longo dessas produções. Existe muita gente bacana e capacitada, com deficiência intelectual, para estar no cinema. Basta querer saber mais, entender mais. Conheci muito sobre autismo, conheci novos talentos. O resultado é essa obra divertida, que é bem mais que uma aventura. As pessoas têm ficado felizes e eu estou feliz com o resultado", afirma Marcelo Galvão.
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