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Ansiedade infantil: histórias "fofas" podem esconder sinais

Com o Brasil no topo do ranking de ansiedade em crianças, a especialista defende que o medo controlado nos livros é essencial para o amadurecimento

15 abr 2026 - 12h03
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Especialista explica como narrativas sem conflito podem mascarar emoções e impactar o desenvolvimento infantil

Vivemos uma epidemia de ansiedade infantil. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o Brasil tem uma das maiores taxas de transtornos de ansiedade em crianças e adolescentes no mundo. Diante desse cenário, Maria Bruna Mota, psicanalista especialista em clínica com crianças e adolescentes pela PUC Minas, propõe uma intervenção simbólica: o resgate da crueza dos contos de fadas tradicionais como ferramenta de elaboração psíquica.

Foto: Revista Malu

O medo como 'vacina emocional'

Enquanto o mercado editorial moderno tende a "adocicar" histórias, retirando lobos e bruxas, pesquisas em psicologia do desenvolvimento sugerem o contrário. Segundo o clássico estudo de Bruno Bettelheim em A Psicanálise dos Contos de Fadas, a negação do conflito gera uma ansiedade ainda maior, pois a criança sente o perigo interno, mas não encontra representação externa para ele.

"A felicidade infantil não é a ausência de conflito, mas a capacidade de simbolizá-lo", explica Maria Bruna. "Quando retiramos o monstro da história, deixamos a criança sozinha com seus próprios monstros internos, sem vocabulário para combatê-los."

Dados e impacto social da ansiedade infantil

  • Epidemia de ansiedade: Segundo a Academia Americana de Pediatria (AAP), a resiliência emocional é construída através da exposição a pequenos estresses controlados (como uma história de suspense), o que prepara o cérebro para desafios reais.
  • O papel da literatura: Um estudo conduzido, em 2009, pelo Dr. David Lewis, da Mindlab International na Universidade de Sussex, demonstrou que apenas 6 minutos de leitura podem reduzir os níveis de estresse em até 68%, funcionando como um "porto seguro" para a exploração de emoções complexas.
  • A "ditadura da felicidade": Maria Bruna alerta que a pressão por um bem-estar constante — muitas vezes refletida no uso excessivo de telas e conteúdos infantis hiper-coloridos e sem conflitos — impede a repercussão do afeto, gerando crianças apáticas ou irritadiças.

Felicidade não é sorriso, é simbolização

Maria Bruna, criadora do Horizontes da Psicanálise, um curso voltado para fortalecer a base teórica da psicanálise, defende que o contador de histórias atua como uma referência. Ao dar voz ao medo da Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, o adulto empresta palavras para a angústia que a criança ainda não sabe nomear. "A história dá nome ao que dói. E o que ganha nome, torna-se manejável", pontua a especialista.

A literatura precisa ser 'fofa' para atrair um público infantil?

Vivemos na era da "literatura fofa". Livros coloridos, sem vilões e com finais invariavelmente felizes lotam as livrarias. Mas será que essa proteção excessiva está ajudando as crianças a desenvolverem ansiedade infantil? A psicanalista Maria Bruna Mota alerta: histórias que "adocicam" demais a vida podem estar mascarando angústias em vez de resolvê-las.

Segundo Maria Bruna, o papel do livro não é apenas entreter, mas servir de espelho para o mundo interno da criança. "Se o livro apresenta um mundo onde o medo não existe, a criança se sente inadequada quando sente medo na vida real", explica. "Os pais precisam aprender a identificar quando uma história é um suporte emocional ou apenas uma distração vazia."

Como identificar?

Maria Bruna sugere três perguntas fundamentais ao escolher uma obra:

1 - Existe conflito real? Se a história se resolve sem esforço ou sem que o personagem enfrente um dilema, ela não ensina resiliência. A criança precisa ver o personagem "passar pelo aperto" para entender que ela também pode sobreviver aos seus.

2 - O "monstro" é domesticado rápido demais? Vilões que ficam "bonzinhos" na segunda página impedem a criança de projetar sua própria raiva de forma segura. O vilão precisa ser vencido, não apenas ignorado.

3 - A história dá nome ao que dói? Livros que ajudam são aqueles que usam metáforas para perdas, frustrações e ciúmes, permitindo que a criança diga: "Eu me sinto como esse personagem".

Felicidade é simbolização

A psicanálise defende que a criança feliz não é a que sorri o tempo todo, mas a que consegue simbolizar o que sente. Através de seu programa Horizontes da Psicanálise, Maria Bruna orienta aos psicanalistas, que atendem crianças, ao incentivo à leitura. O curso é composto por 17 aulas gravadas, divididas em 2 módulos (Revisitando Freud e Revisitando Lacan) que percorrem conceitos chave da psicanálise freudiana e lacaniana. Cada aula trata com profundidade de um conceito específico, de modo que o aluno possa aprender ou relembrar tais conceitos e poder aplicar em sua clínica.

"Quando os pais leem uma história 'crua' com o filho, eles estão segurando a mão da criança enquanto ela visita seus próprios porões. É um ato de amor e coragem, não de susto", afirma Maria Bruna.

Dica de leitura

Um bom exemplo de literatura para orientar os pais é o livro "Fadas no Divã", de Diana L. Corso e Mário Corso, de acordo com a psicanalista Maria Bruna. "A obra faz uma revisão dos contos de fadas clássicos e contemporâneos a partir do olhar da psicanálise. Com linguagem didática, é compreensível para o público geral e orientativa para profissionais da educação ou saúde mental. Além de fazer reflexões críticas, o livro apresenta a história dos contos selecionados sem excluir seus conflitos centrais, que podem ser lidos pelos pais ou professores para as crianças"

Revista Malu Revista Malu
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