Cientistas pedem que crise climática seja declarada emergência de saúde global
Cientistas de mais de 30 países pedem que a crise climática seja declarada emergência de saúde pública global. Segundo o relatório Lancet Countdown, o calor extremo causou milhões de mortes, prejuízos econômicos trilionários e agravou secas e a insegurança alimentar no mundo. Diante do avanço lento das ações ecológicas e do contínuo subsídio aos combustíveis fósseis, especialistas cobram um mecanismo da OMS para coordenar recursos e respostas duradouras com foco direto na saúde humana.
Mortes por calor, secas e insegurança alimentar avançam mais rápido do que há uma década, mostra novo estudo. Pesquisadores de 30 países cobram ação coordenada.À medida que as mortes por calor, seca e insegurança alimentar se aceleram em todo o mundo, quase 150 pesquisadores de mais de 30 países estão pedindo que as mudanças climáticas sejam declaradas uma "emergência de saúde pública global".
O impacto sanitário e econômico do aquecimento do planeta cresceu de forma acentuada nos dez anos que se seguiram à assinatura do Acordo de Paris sobre o clima, em 2015. Com o objetivo de conter as mudanças climáticas, o pacto histórico foi saudado à época como "o mais importante acordo de saúde pública do século".
Ainda assim, as mudanças climáticas foram responsáveis por mais de meio milhão de mortes relacionadas ao calor apenas em 2023 e por quase 3 milhões desde 2016. A área afetada por secas extremas, que ameaçam o abastecimento de água e alimentos e aumentam o risco de doenças, cresceu mais de 700% mais rápido do que na década anterior. E o calor causou uma perda estimada de 1,07 trilhão de dólares (cerca de R$ 5,7 trilhões) em renda potencial no mundo no ano passado, segundo o relatório anual Lancet Countdown sobre Saúde e Mudanças Climáticas.
"Isso não pode continuar", disse Alan Dangour, diretor de clima e saúde da Wellcome Trust, uma das maiores instituições de caridade do mundo, que financiou o relatório da Lancet. "Precisamos mudar de rumo e colocar a saúde e o bem-estar das pessoas no centro de nossa resposta às mudanças climáticas, medindo o sucesso não por metas de emissões ou graus Celsius, mas por vidas salvas e melhores resultados de saúde."
Danos à saúde ligados ao clima aceleram
As conclusões mais recentes do estudo da Lancet mostram quão rapidamente os riscos à saúde estão aumentando ao comparar esta década com a anterior à assinatura do Acordo de Paris.
O calor é o exemplo mais evidente. As mudanças climáticas foram responsáveis por 68% das mortes relacionadas ao calor entre 2016 e 2023, acima dos 55% observados na década anterior. O aumento anual das mortes provocadas pelo calor associado ao clima mais do que dobrou no mesmo período.
Mas as mortes são apenas "a ponta do iceberg", disse Ollie Jay, do Centro de Pesquisa em Calor e Saúde da Universidade de Sydney. "Exceto que esse iceberg não está derretendo, ele está crescendo a cada ano."
Em uma analogia, abaixo da superfície estão também casos de insolação, perda de sono e agravamento de condições crônicas de saúde.
Os prejuízos econômicos também estão aumentando. Trabalhar sob calor extremo expõe as pessoas ao risco de exaustão térmica, doenças ou lesões e, por fim, à perda de renda e meios de subsistência.
O calor eliminou 573 bilhões de horas potenciais de trabalho em 2025, com os trabalhadores rurais sendo os mais afetados. Economias vulneráveis da África e do Sudeste Asiático sofreram os maiores impactos, com perdas chegando a 5% do Produto Interno Bruto (PIB), em comparação com 0,5% nas economias mais desenvolvidas.
"O custo econômico está atingindo com mais força os setores e comunidades mais vulneráveis", disse Marina Romanello, diretora executiva do Lancet Countdown, vinculada à University College London, durante uma coletiva de imprensa.
Os extremos relacionados à água também estão se intensificando. Dados de satélite mostram que, desde 2003, 43% das terras do mundo vêm se tornando progressivamente mais secas, enquanto 37% estão ficando mais úmidas. Juntas, essas mudanças significam que 80% das áreas terrestres estão migrando para condições extremas que ameaçam colheitas, abastecimento de alimentos e sistemas de saneamento.
A seca pode deixar populações sem acesso à água potável segura e aumentar o risco de doenças infecciosas, enquanto as enchentes provocam afogamentos, ferimentos e contaminação da água.
Ondas de calor e secas empurraram quase 128 milhões de pessoas adicionais para a insegurança alimentar em 2024, em comparação com a média de 1981 a 2010.
"Isso não é uma piora gradual; é uma mudança de patamar", afirmou Romanello.
O que mudaria
Para salvar vidas e proteger a saúde humana, especialistas defendem a criação de um novo instrumento da OMS que ajude os países a compartilhar informações, coordenar respostas, monitorar ameaças e distribuir recursos financeiros. O mecanismo seria criado pelas Nações Unidas e seus Estados-membros.
A versão mais próxima existente é o mecanismo de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (PHEIC, na sigla em inglês), utilizado durante a pandemia de covid-19 e os surtos de mpox. No entanto, concebido para emergências de curto prazo, ele não é suficiente para lidar com uma ameaça complexa que exige ação global sustentada em múltiplos setores, como as mudanças climáticas.
O mundo precisa de uma abordagem mais ampla, "para que não estejamos respondendo a emergência após emergência", disse Romanello. "Precisamos de uma resposta coesa de longo prazo que fortaleça a resiliência, amplie capacidades e aumente as condições para que os países evitem novas emergências."
Há avanços, mas eles estão longe de ser suficientes
Romanello afirmou aos jornalistas que "temos provas mais do que suficientes" de que esse tipo de ação melhora os resultados em saúde.
"Sistemas de alerta precoce baseados em informações climáticas já demonstraram redução dos impactos negativos desses eventos climáticos extremos", disse ela.
A expansão das energias renováveis também ajudou parcialmente a reduzir as mortes causadas pela poluição do ar gerada por combustíveis fósseis em metade dos 140 países avaliados desde 2016, evitando cerca de 323 mil mortes por ano.
Além disso, 56 países já têm planos nacionais para adaptar seus sistemas de saúde aos impactos climáticos, como ondas de calor e surtos de doenças, ante apenas 14 em 2015.
Ainda assim, segundo o relatório, o progresso continua lento demais.
Os combustíveis fósseis, cuja queima libera emissões que aquecem o planeta e outros poluentes, ainda fornecem mais de 80% da energia mundial.
As emissões relacionadas à energia atingiram um recorde em 2024. As 100 maiores empresas de petróleo e gás do mundo estão a caminho de produzir, até 2040, 150% mais petróleo e gás do que seria compatível com a limitação do aquecimento global a 1,5 °C em relação aos níves pré-industriais, como prevê o Acordo de Paris . Há um ano, esse número era de 138%.
"Uma tecnologia ultrapassada"
Os governos continuam financiando combustíveis fósseis, com os subsídios líquidos tendo dobrado desde 2016, alcançando 6,2 trilhões de dólares (cerca de R$33,2 trilhões).
Em 2024, dez países gastaram mais com esses subsídios do que com todos os seus sistemas de saúde.
No entanto, à medida que os preços dos combustíveis fósseis aumentam e as energias renováveis se tornam mais baratas, essas tecnologias poluentes estão ficando economicamente menos competitivas, afirmou Romanello.
Ela comparou novos investimentos em combustíveis fósseis a "investir na Blockbuster quando você já tem a Netflix", ou seja, uma aposta em uma tecnologia ultrapassada. A referência é à antiga gigante das locadoras de vídeo, que não conseguiu se adaptar à era do streaming.
Enquanto isso, os recursos para ajudar os sistemas de saúde a se adaptarem às mudanças climáticas são escassos. Países em desenvolvimento estimam precisar de cerca de 3,3 bilhões de dólares (R$ 17,6 bilhões) por ano para essas adaptações, valor que os autores do relatório consideram provavelmente subestimado. Apenas cerca de um terço desse montante foi efetivamente investido em 2024.
As reduções na ajuda internacional, lideradas pelos Estados Unidos e seguidas pela Alemanha, que realizou o segundo maior corte, estão ampliando essa lacuna.
"Este relatório é um alerta contundente de que a mudança climática é uma emergência de saúde", afirmou Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia e presidente do conselho do Lancet Countdown. "O que está faltando não são evidências, mas vontade política para agir."
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