Cefaleia ou tumor cerebral: como diferenciar o tipo de dor na cabeça?
No mês de conscientização sobre cefaleia e câncer cerebral, especialistas explicam como diferenciar tipos de dor e identificar sinais de alerta
Sentir dor de cabeça é algo comum na rotina de muitas pessoas. Ainda assim, no mês de conscientização sobre cefaleia e câncer cerebral, um alerta ganha força: entender o tipo de dor pode ser essencial para um diagnóstico precoce e um tratamento adequado.
Embora a dor de cabeça esteja entre as queixas mais frequentes nos consultórios, ela pode ter origens muito diferentes. Desde condições crônicas, como a enxaqueca, até quadros mais complexos, como tumores cerebrais.
"A primeira diferenciação é com relação à origem. A dor de cabeça da enxaqueca é de origem primária, genética. Já a dor de cabeça de um câncer cerebral, é de origem secundária, quando ocorre um insulto agudo aos neurônios pela presença de um tumor, que tem múltiplas causas. A enxaqueca é uma condição neurológica crônica, que vai além da dor de cabeça: ela tem sintomas bem característicos, como dor pulsátil de um lado da cabeça, náuseas, sensibilidade à luz e ao som. E pode durar de 4 até 72 horas. Na enxaqueca também há uma piora no sono, na atenção e na memória e o atendimento neurológico é fundamental para diminuir a intensidade e frequência das dores e oferecer melhor qualidade de vida ao paciente", explica o Dr. Tiago de Paula.
Enxaqueca: comum, mas ainda subestimada
Apesar de frequente, a enxaqueca ainda é pouco compreendida e, muitas vezes, negligenciada. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela está entre as doenças mais incapacitantes do mundo.
Mais do que uma simples dor, trata-se de uma condição neurológica que pode afetar diferentes áreas da vida. Crises podem ser desencadeadas por fatores como jejum prolongado, cheiros fortes, alterações hormonais ou estímulos sensoriais intensos.
Além da dor, a enxaqueca pode impactar o sono, a memória, a concentração e até provocar desconfortos físicos, como tensão no pescoço e nos ombros. Em muitos casos, tarefas simples do dia a dia se tornam mais difíceis.
Outro ponto importante é que, embora o estresse seja frequentemente apontado como causa, ele funciona, na verdade, como um gatilho. Especialmente em pessoas que já têm predisposição genética.
Quando a dor acende um sinal de alerta
Se por um lado a enxaqueca segue um padrão conhecido, por outro, mudanças no comportamento da dor devem ser observadas com atenção.
"Quando há uma mudança significativa no padrão da dor, é importante buscar ajuda médica. Se a pessoa começa a sentir uma dor de cabeça nova, que nunca teve antes, ou se a dor que já tinha muda de características, aumenta de intensidade, fica mais frequente, mais difícil de controlar ou localizada sempre no mesmo ponto da cabeça, é preciso procurar avaliação médica. São situações que levantam a suspeita de algo mais sério, como um tumor cerebral, acontecendo no sistema nervoso", afirma o Dr. Ramon Andrade de Mello.
No caso dos tumores cerebrais, a dor costuma apresentar características específicas. Um dos sinais mais comuns é a chamada hipertensão intracraniana, que pode causar dor mais intensa ao acordar ou ao se deitar.
"Apesar de serem menos frequentes, esses tumores podem causar dor de cabeça como um dos primeiros sintomas, principalmente se estiverem crescendo em áreas específicas do cérebro ou provocando aumento da pressão intracraniana", destaca o oncologista.
Outros sintomas que merecem atenção
Além da dor, alguns sinais associados podem indicar a necessidade de investigação médica mais detalhada. A mudança do tipo de dor de cabeça pode ser um indicativo de tumor cerebral, mas o neurologista explica que a dor provocada pelo câncer tem diferentes características. "O principal indicativo de um tumor cerebral ou de uma dor de cabeça de um tumor cerebral é uma dor de hipertensão intracraniana, que costuma ser pior quando o paciente acorda pela manhã no decúbito ou quando ele deita. E ao longo do dia essas dores tendem a melhorar", explica o Dr. Tiago.
"Apesar de serem menos frequentes, esses tumores podem causar dor de cabeça como um dos primeiros sintomas, principalmente se estiverem crescendo em áreas específicas do cérebro ou provocando aumento da pressão intracraniana", destaca o Dr. Ramon Andrade de Mello. "A enxaqueca é uma doença em que a dor de cabeça é um sintoma recorrente, com padrões já conhecidos e entendidos. A dor de tumor costuma acontecer de forma mais aguda. Ela vai progredindo e o paciente pode ter outros sintomas neurológicos, focais, como uma alteração de força em um membro, uma alteração de face ou até mesmo uma crise convulsiva que são sinais neurológicos de um tumor cerebral", comenta o Dr. Tiago.
"Quando o paciente também apresenta fraqueza em um lado do corpo, crises epilépticas, alterações da fala, perda de visão, formigamentos, boca torta ou confusão mental, o neurologista precisa investigar a possibilidade de um tumor, principalmente se esses sintomas forem novos", diz o oncologista. "No caso dos tumores, essa dor tende a piorar ao longo das semanas, aparece com mais frequência pela manhã e pode vir acompanhada de vômitos ou visão turva", completa o especialista Dr. Tiago.
Diagnóstico: o papel da atenção aos sinais
Diferente de outros tipos de câncer, como o de mama ou intestino, os tumores cerebrais ainda não contam com exames de rastreamento eficazes para a população geral. Por isso, a observação dos sintomas é fundamental.
"Diferente do câncer de mama ou de intestino, que possuem exames preventivos com boa sensibilidade, os tumores cerebrais ainda não têm uma forma viável de rastreamento. Por isso, é essencial que o paciente fique atento aos sinais de alarme e busque o neurologista se notar algo diferente", orienta o Dr. Ramon.
Exames clínicos também podem ajudar na investigação inicial. Avaliações oftalmológicas, por exemplo, conseguem identificar sinais indiretos de aumento da pressão intracraniana, o que pode indicar a necessidade de exames mais aprofundados.
Tratamento e qualidade de vida
Mesmo sendo comum, não devemos banalizar a dor de cabeça - especialmente quando interfere na rotina. No caso da enxaqueca, existem tratamentos que podem reduzir a frequência e a intensidade das crises, além de melhorar significativamente a qualidade de vida.
Entre as opções mais recentes, estão medicamentos específicos que atuam nos mecanismos da dor, além de terapias combinadas em casos crônicos. "A avaliação individual é essencial para recomendação do plano de tratamento mais adequado para cada caso. O médico também poderá auxiliar na identificação de gatilhos e fatores cronificadores da doença, o que é fundamental para o controle das crises", finaliza o Dr. Tiago de Paula.
Escutar o corpo também é cuidado
A dor de cabeça pode ser comum, mas nunca devemos ignorar. Entender seus padrões, observar mudanças e buscar orientação médica quando necessário são passos importantes para cuidar da saúde de forma mais consciente. Mais do que aliviar o sintoma, o objetivo é compreender o que o corpo está tentando comunicar.
Sobre os especialistas
Dr. Tiago de Paula (CRMSP 168999 | RQE 18111) é médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP). Membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Especialização em Neurocefaleia pela EPM/UNIFESP. Atualmente, integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo (SP).
Dr. Ramon Andrade de Mello é médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo), vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Pós-Doutor clínico no Royal Marsden NHS Foundation Trust (Inglaterra). Doutor (PhD) em Oncologia Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal). Possui MBA em gestão de clínicas, hospitais e indústrias da saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), São Paulo.
*Fonte: Holding Comunicação
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