Mudança no Fashion Rio traz novos rumos à moda
O mundo da moda brasileira está se perguntando neste momento qual o futuro do Fashion Rio, após o anúncio nesta última sexta-feira, dia 17, de que Paulo Borges, diretor e idealizador do São Paulo Fashion Week, assumirá também os desfiles na capital carioca, após a realizadora Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) ter licenciado ao grupo In Brands a operação do evento e a marca por 10 anos.
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A InBrands detém em seu portfólio as marcas Ellus, 2nd Floor, Isabela Capeto, Alexandre Herchcovitch, SPFW e Revista Mag! - incluindo todos os outros negócios do Grupo Luminosidade, cujo fundador é Paulo Borges.
E não há resposta para a dúvida. O evento carioca, produzido pela Dupla Assessoria, comandada por Eloysa Simões, começou tímido para o verão 2002/2003, ganhou força por um período, mas experimentava um declínio há algumas temporadas, com marcas com DNA carioca tendo migrado para o São Paulo Fashion Week, como Osklen, Maria Bonita e até o retorno na última edição de verão, em junho passado, da Blue Man, que não participará do evento por conta da morte de seu fundador David Azulay.
Mas uma coisa é certa: em meio à crise mundial, há uma necessidade urgente de fortalecer a cadeia têxtil brasileira, que experimentou uma forte retração comparando-se 2007 com 2008. Há dois anos, existiam 44.555 empregos formais, contra um saldo de 22.009 no balanço final do ano passado. A comparação pode ficar ainda pior quando analisado os números de 2004, que tinha 65.624 empregados com carteira assinada, segundo dados da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil).
Algo precisava ser feito. Se por um lado, o setor em geral foi pego de surpresa nesta sexta, afinal o segredo foi guardado a sete-chaves, a voz corrente depois da notícia era de que o evento a partir da entrada da In Brands pode ganhar um salto de criatividade, de organização e de fôlego financeiro, além de mais consistência. Claro que há aqueles que ficaram atordoados com a notícia, afinal há desafetos de um lado e do outro.
De qualquer forma a demanda de convergência realmente era cogitada há certo tempo. Tomara que a unificação do Calendário Oficial de Moda Brasileira na mão da mesma empresa se traduza numa injeção saudável à toda cadeia têxtil. Se haverá perdas por um lado ¿ saída de algumas marcas, mudanças no pessoal envolvido na organização, por exemplo ¿ benefícios virão tendo a moda brasileira um foco único, desde que egos e bairrismos sejam deixados de lado.
Nada vai ser mudado no próximo Fashion Rio, cuja data (de 7 a 12 de junho) será mantida. Mas com um contrato de 10 anos, com certeza coisas novas virão. E apesar da especulação em se fazer os desfiles de verão no Rio e de inverno em São Paulo, em princípio não é essa a ideia de Paulo Borges. Segundo ele, a moda deve ser pensada de "forma global" e não segmentada. Afinal não se faz mais uma coleção estática para quatro meses, como antes, mas há um dinamismo que exige da cadeia de moda novidades a cada "20 dias".
Não se pode esquecer também que em novembro de 2008 houve a primeira edição do Claro Rio Summer, capitaneada por Nizan Guanaes, cujo objetivo foi firmar o Rio como capital de moda praia, afinal desde a Garota de Ipanema nos anos 1960 e as tangas dos anos 1970, é essa sua vocação natural. E ninguém tira isso do Rio. Mas todos sabemos que o Brasil é mais que isso, seja São Paulo, Rio, Fortaleza, Minas, Bahia ou Curitiba.
Temos estilistas que sabem usar as riquezas brasileiras e o alto senso de criatividade em prol de uma moda própria e nacional. Vou citar apenas três, mas há outros: Lino Villaventura, Ronaldo Fraga e Alexandre Herchcovitch.
Quem sabe daqui para frente os contornos da moda brasileira realmente ganhem mais foco e convirjam para um denominador comum: mostrar ao mundo que o Brasil sabe fazer biquínis e maiôs, sim, mas que há por aqui muito mais que o trinômio praia-carnaval-futebol. É um longo caminho, mas talvez a partir do anúncio desta sexta-feira, ele esteja um pouco mais pavimentado. É esperar para ver. E torcer para que dê certo. O Brasil só teria a agradecer.