Cannes exibe vestido bordado por artesãs do projeto de Paraty da marca Thayná Caiçara: "Essas mulheres são as protagonistas", diz estilista
"Eu não quero ser a protagonista desse momento." A frase dita por Thayná Soares ajuda a traduzir o significado do vestido que subiu o tapete vermelho do Festival de Cannes neste sábado (23), último dia do evento na Riviera Francesa. Em vez de transformar a produção apenas em símbolo de glamour, a empresária e modelo internacional escolheu levar para a 79ª edição do evento o trabalho manual de 17 mulheres caiçaras de Paraty, no Rio de Janeiro, responsáveis pelos bordados que transformam pássaros da Mata Atlântica em arte sobre linho belga.
Em entrevista exclusiva ao "Elas no Tapete Vermelho", Thayná explicou por que decidiu dividir o protagonismo de um dos momentos mais importantes de sua trajetória com as artesãs do projeto social ligado à marca Thayná Caiçara. "Essas mulheres são as protagonistas. O que está sendo costurado ali vai muito além do tecido. É reconstrução pessoal através da arte", afirmou.
A peça reúne delicados bordados feitos na técnica de pintura de agulha, conhecida pelos pontos minuciosos que criam desenhos quase como pinceladas sobre o tecido. Na barra do vestido aparecem aves brasileiras exuberantes, cada uma escolhida e bordada por uma artesã diferente, criando um mosaico afetivo que leva ao red carpet não apenas referências da fauna nacional, mas também histórias de vida, pertencimento e transformação.
A escolha do linho e a modelagem também não foram por acaso, como explicou Thayná: "Esse é um tecido pouco usado no tapete vermelho pelas mulheres, mas é o que escolhemos usar na marca desde sempre. Nesse look apostamos numa saia muito rodada para que todas as artesãs pudessem trabalhar juntas, refinando a técnica e trocando experiências. Quero que elas se fortaleçam como mulheres que carregam uma cultura muito forte, sendo capazes de empreender", comenta.
Entre as mulheres que participam do projeto está Seidimar Ramos, de 57 anos, autora do bordado do pássaro Tiê Sangue. Bordadeira desde a infância, ela aprendeu em casa o amor pelo feito à mão e hoje vê o próprio trabalho ultrapassar fronteiras de uma maneira que nunca imaginou. "Tivemos muito cuidado e carinho com o vestido. Acredito que se não estivéssemos aqui, com esse trabalho, estaríamos mais invisíveis. Quando consegui a vaga para participar, meu coração não cabia no peito. Estou muito feliz, enaltecida de estar junto nesse sonho", contou.
Foram 21 dias de trabalho intenso até a finalização do vestido, além de encontros, planejamento coletivo e trocas constantes entre as participantes do projeto criado em parceria com a Casa da Cultura de Paraty. Algumas mulheres pegam barco ou ônibus para chegar às aulas; outras vão a pé, conciliando o bordado com atividades pesadas do cotidiano, como limpar camarão à beira-mar. Com idades entre 20 e 70 anos, elas carregam referências culturais e afetivas que acabam refletidas nos desenhos, nas cores e nos pontos aplicados manualmente sobre a peça.
Na equipe que trabalhou no vestido estão Mayara, Raquel, Esmeralda, Seidimar, Catiucia, Roberta, Léa, Sylvia, Maria Helena, Ana Rocha, Fátima e Leila, além da mestra Fernanda Queiroz, professora responsável pelo curso e também participante ativa da criação. Coube a Fernanda coordenar parte do trabalho artístico e acompanhar de perto a exuberância dos bordados inspirados na natureza brasileira. Já Catiucia foi responsável pelo delicado pássaro Maria-Leque, um dos destaques da composição.
O vestido apresentado em Cannes representa também um momento simbólico para a trajetória da marca Thayná Caiçara, que já teve criações apresentadas em Nova York e na alta-costura de Paris, sempre valorizando o trabalho artesanal brasileiro e a produção em ritmo desacelerado, conceito ligado ao slow fashion.
Mais do que criar roupas, Thayná vem construindo uma rede de valorização cultural e econômica para mulheres artesãs da região onde nasceu. Formada em Serviço Social e vivendo atualmente na Bélgica, ela conta que o projeto começou de maneira afetiva durante a pandemia, quando passou a procurar bordadeiras tradicionais de Paraty para produzir peças inspiradas no cotidiano local. Sem intenção inicial de criar uma marca, enviava camisetas e fazia apenas um pedido: "bordem o que faz parte da vida de vocês".
Foi nesse processo que surgiram cenas da cidade histórica, elementos da natureza, flores, aves e memórias afetivas bordadas à mão. Thayná também retomou a própria relação com o artesanal, já que havia aprendido a bordar anos antes, enquanto preparava manualmente o enxoval da filha durante a gravidez. Hoje, o projeto já formou 40 bordadeiras e oferece cursos gratuitos que ensinam não apenas técnica, mas também precificação, negociação e empreendedorismo, permitindo que essas mulheres possam construir autonomia financeira e ampliar suas próprias redes de clientes.
Thayná também falou sobre a relação afetiva construída com as participantes do projeto. "O bordado é minha terapia e as bordadeiras são minhas amigas, professoras, pessoas da minha família. Sou parte do grupo e do movimento, não sou apenas uma contratante de serviço", destacou.
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Ela também refletiu sobre a valorização do trabalho manual brasileiro, explicando ao "Elas no Tapete Vermelho" que, enquanto no exterior o bordado artesanal é tratado como artigo de luxo e expressão artística sofisticada, no Brasil ainda existe o hábito de diminuir esse tipo de produção, frequentemente associada ao "bordadinho" ou à "feirinha", sem reconhecer o tempo, a técnica e a dedicação envolvidos em cada peça.
"O diferencial da minha marca é que ela não precisa lucrar. Ela precisa manter os pagamentos em dia porque as pessoas são a parte mais importante do processo", afirmou. A fala da bordadeira Esmeralda Leonardi ajuda a resumir a dimensão emocional do projeto. "Bordar é maravilhoso, meu pensamento voa enquanto estou bordando. E fico aqui com os meus projetos, porque sonho muito. É uma emoção ver aquele trabalho pronto, lindo, maravilhoso."
Ao subir as escadarias do Festival de Cannes, o vestido usado por Thayná Soares leva muito mais do que bordados inspirados na Mata Atlântica. Leva o trabalho silencioso de mulheres que transformaram agulha e linha em ferramenta de autonomia, arte e reconhecimento, mostrando que o verdadeiro luxo talvez esteja justamente naquilo que carrega tempo, identidade e história nas próprias mãos.
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