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Jogos de cartas podem reduzir riscos de demência senil

24 mai 2009 - 10h12
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As mulheres que estão na sala de cartas jogam bridge e, na idade delas, o jogo já não é só um hobby. Trata-se de uma forma de vida, de um conforto e desafio diário, a última das fogueiras coletivas em torno das quais se reunirão antes da escuridão. "Jogamos por sangue", disse Ruth Cummins, 92 anos, antes de um trago em seu copo de Red Bull, em partida recente. "É o que nos mantém ativas", acrescenta Georgia Scott, 99. "E onde encontramos nossas amigas mais próximas."

Jogos de cartas, lucidez, memória, idosos (interna)
Jogos de cartas, lucidez, memória, idosos (interna)
Foto: The New York Times


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Nos últimos anos, os cientistas começaram a se interessar muito pelo que se poderia definir como um "clube da supermemória", ou seja, os menos de 0,5% dos seres humanos que, como Scott e Cummins, passaram dos 90 anos sem apresentar qualquer traço de demência senil. É um grupo que, pela primeira vez, existe em números suficientes para oferecer um vislumbre sobre o cérebro lúcido na mais distante extensão da vida humana, e ajudar os pesquisadores a definir o que, exatamente, é necessário para preservar a acuidade mental até o fim.

"São as pessoas que envelheceram com mais sucesso no planeta, e estão apenas começando a nos mostrar o que é importante, em seus genes, em seus hábitos e em suas vidas", disse a médica Claudia Kawas, neurologista da Universidade da Califórnia em Irvine. "Acreditamos, por exemplo, que seja muito importante usar o cérebro, continuar desafiando a mente, mas nem todas as atividades mentais talvez tenham o mesmo efeito. Estamos obtendo certos indícios de que um componente social pode ter posição crucial."

Laguna Woods, uma ampla comunidade de aposentados com cerca de 20 mil moradores, ao sul de Los Angeles, é o centro do maior e mais longo estudo mundial sobre a saúde e acuidade mental dos idosos, iniciado décadas atrás. Pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia deram início ao trabalho em 1981, e o batizaram de 90-plus Study. Até agora, mais de 14 mil pessoas com 65 ou mais anos de idade foram estudadas, e mais de mil pessoas que ultrapassaram os 90 anos.

Estudos como esses podem demorar anos a dar frutos, e os resultados do trabalho em questão começam a alterar a maneira pela qual os cientistas compreendem o cérebro envelhecido. As provas sugerem que as pessoas que dedicam boa porção de seus dias, três ou mais horas, a atividades mentais como jogos de cartas podem sofrer risco reduzido de demência. Os pesquisadores estão tentando descobrir como distinguir entre causa e efeito. As pessoas são ativas porque estão lúcidas ou são lúcidas porque estão ativas?

Os pesquisadores também demonstraram que a porcentagem de pessoas com demência depois dos 90 anos não se estabiliza ou reduz, como alguns especialistas imaginavam. Ela continua a crescer, de modo que para o 0,16% de pessoas que atingem os 95 anos de idade, a incidência de demência é de 40% entre os homens e de 60% entre as mulheres.

Ao mesmo tempo, constatações desse e de outros estudos ainda ativos sobre os muito idosos oferecem indícios de que alguns genes podem ajudar as pessoas a se manterem lúcidas mesmo que seus cérebros apresentem todos os estragos biológicos do Mal de Alzheimer e da idade. No estudo 90-plus, agora um projeto conjunto da Universidade do Sul da Califórnia e da Universidade da Califórnia em Irvine, os pesquisadores executam testes genéticos regularmente, e em alguns casos análises post-mortem dos cérebros de participantes. Os pesquisadores em Irvine têm um banco de cérebros com mais de 100 espécimes.

Para que sejam aceitas em Laguna Woods, um condomínio de bem conservados bangalôs e apartamentos na parte sul do condado de Orange, as pessoas precisam atender a diversos requisitos, um dos quais é que não necessitem de assistência de enfermagem em período integral. Aqueles que chegam são lúcidos, quer tenham 65, quer 95 anos. Eles começam vida nova aqui, fazem novos amigos, e talvez se envolvam em novos romances. Experimentam atividades novas e hobbies que desconhecem, e costumam estar tão ocupados quanto os calouros de uma universidade, mas há uma grande diferença: tanto o futuro quanto o passado os interessam menos. "Vivemos o presente", diz o médico Leon Manheimer, que tem mais de 90 anos e mora em Laguna Woods há muito tempo. Mas é precisamente a capacidade de formar novas memórias sobre o presente, sobre o agora, que desaparece primeiro nos casos de demência, de acordo com os estudos em Laguna Woods e em outros locais.

Os muito idosos que vivem em comunidades sabem bem disso, e desenvolveram conhecimentos próprios, experiências próprias. Diagnosticam uns aos outros com base em observação cuidadosa, e aprenderam a distinguir entre os diferentes tipos de perda de memória, para diferenciar os administráveis dos ameaçadores.

E o bridge ajuda quanto a isso porque requer uma memória forte. Quando um parceiro começa a esquecer as cartas jogadas, isso pode custar caro à dupla e prejudicar a conexão social entre as pessoas. "Se um parceiro começa a vacilar, você perde a confiança nele", disse Julie Davis, 89, que sempre joga bridge em Laguna Woods. "A verdade é essa. Admitir o fato é terrível, e contemplar quando acontece ainda pior. Mas os outros jogadores se irritam muito. Ninguém consegue se controlar."


Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
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