Aprendendo e compartilhando
Ao completar seis anos escrevendo para a Bons Fluidos, uma reflexão sobre conhecimento, troca e como aquilo que compartilhamos pode transformar outras vidas
Há seis anos, em agosto de 2020, eu escrevia pela primeira vez para a Bons Fluidos. Lembro da felicidade de receber o convite para fazer parte da revista e também da responsabilidade que senti naquele momento. Afinal, quando escrevemos sobre saúde e bem estar, não estamos simplesmente preenchendo páginas. Estamos entrando, de alguma maneira, na vida de alguém.
Naquela época, eu não fazia ideia de onde aquelas palavras chegariam e hoje, seis anos depois, talvez essa seja uma das coisas que mais me emocionam nesta trajetória.
Ao longo desse tempo, recebi e continuo recebendo mensagens de leitores dos mais diferentes lugares. Pessoas que me escrevem para contar que determinado texto as ajudou a compreender algo que estavam vivendo, que decidiram procurar um profissional depois de ler uma coluna, que passaram a olhar com mais atenção para algum aspecto da própria saúde ou simplesmente que encontraram ali uma informação que precisavam naquele momento.
Também recebo muitas perguntas. Algumas viram ideias para novos textos. Outras me fazem estudar mais, pesquisar, rever conceitos. E talvez esteja aí uma das coisas mais bonitas dessa troca: enquanto tento levar conhecimento a quem me lê, vocês também me fazem aprender.
Por isso, antes de qualquer reflexão nesta coluna de aniversário, eu gostaria simplesmente de agradecer.
Obrigado a cada pessoa que, em algum momento desses seis anos, dedicou alguns minutos do seu dia para ler aquilo que escrevi. Em um mundo no qual disputamos atenção com milhares de informações todos os dias, alguém escolher parar para ler um texto seu é algo que jamais deveria ser tratado como banal.
Mas existe outro motivo pelo qual esta data me faz refletir. Vivemos um tempo curioso. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos vivido de maneira tão individualizada. Sabemos o que alguém do outro lado do planeta está fazendo, acompanhamos a rotina de desconhecidos, opinamos sobre a vida de pessoas que nunca encontramos, mas muitas vezes desconhecemos o que está acontecendo com quem está ao nosso lado.
A tecnologia aproximou distâncias, mas nem sempre aproximou pessoas. Existe uma valorização cada vez maior do "eu". Meu sucesso, meu corpo, minha carreira, minha imagem, minhas conquistas, meus problemas. É claro que olhar para si é necessário. Cuidar da própria vida, estabelecer limites e buscar nossos objetivos faz parte de uma existência saudável. O problema começa quando o nosso mundo termina exatamente onde termina o nosso próprio umbigo.
Porque ninguém cresce verdadeiramente sozinho. Sempre acreditei que uma das formas mais profundas de crescimento, inclusive espiritual, acontece quando aquilo que recebemos da vida deixa de servir exclusivamente a nós mesmos.
Conhecimento é um bom exemplo disso. Passei grande parte da minha vida estudando. Minha profissão me ensinou muito, os livros me ensinaram muito, meus professores me ensinaram muito, meus pacientes me ensinaram muito e a própria vida continua me ensinando diariamente. Mas de que serviria acumular conhecimento se ele terminasse em mim?
Conhecimento guardado pode até nos tornar mais informados. Conhecimento compartilhado pode transformar a vida de alguém.
Talvez esta coluna tenha se tornado, para mim, justamente uma maneira de fazer isso. Eu não consigo estar pessoalmente com cada leitor. Não conheço a história de quem está lendo estas palavras agora. Não sei em que cidade você está, como foi seu dia, quais são seus medos ou que problema de saúde pode ter feito você chegar até algum dos meus textos e ainda assim, podemos nos encontrar aqui.
Talvez você tenha chegado até mim procurando informações sobre um chá, um suplemento, um medicamento, alimentação, sono, envelhecimento ou alguma novidade da ciência. Talvez tenha encontrado uma resposta. Talvez tenha encontrado apenas uma nova pergunta. E tudo bem. A boa informação também serve para nos fazer questionar.
Desde o início, sempre procurei escrever sobre saúde de uma maneira que aproximasse o conhecimento científico da vida real. Ciência precisa de rigor, evidentemente, mas acredito que ela também precisa ser compreendida. Uma informação que permanece restrita a uma linguagem inacessível dificilmente cumprirá todo o seu potencial.
E essa responsabilidade se torna ainda maior em uma época em que estamos cercados de informações, mas nem sempre de boas informações. Todos os dias surgem substâncias milagrosas, dietas definitivas, tratamentos revolucionários e soluções rápidas para problemas que a ciência estuda há décadas. Por isso, ao longo desses seis anos, procurei manter algo que considero fundamental: a disposição para estudar, questionar e também mudar de opinião quando novas evidências aparecem. Isso não é fraqueza. É respeito pelo conhecimento.
Talvez por isso eu goste tanto dessa troca com quem me lê. Não quero ocupar este espaço como alguém que possui todas as respostas. Quero ocupá-lo como alguém que continua fazendo perguntas, estudando e tentando traduzir aquilo que aprende para que esse conhecimento possa ser útil a mais pessoas.
No final das contas, talvez ajudar seja exatamente isso. Nem sempre ajudar exige grandes gestos. Às vezes ajudamos oferecendo nosso tempo, nossa experiência, uma conversa, uma orientação, um abraço ou uma escuta verdadeira. E, algumas vezes, pode ser simplesmente compartilhando aquilo que sabemos.
Essa foi a maneira que encontrei e talvez eu só tenha compreendido completamente o significado disso depois que comecei a receber as mensagens de vocês. Quando alguém que eu nunca conheci me escreve dizendo que uma informação publicada aqui fez alguma diferença em sua vida, aquela coluna deixa de ser apenas um texto. Ela cumpriu seu propósito.
E acredito profundamente que existe algo transformador nisso também para quem ajuda. Quando saímos um pouco de nós mesmos e percebemos que podemos contribuir, mesmo que minimamente, para a vida de outra pessoa, alguma coisa também muda dentro de nós. Ajudar o outro não diminui aquilo que temos. Ao contrário. Há coisas que parecem crescer justamente quando são divididas: conhecimento, afeto, gentileza, esperança.
Talvez este seja um bom momento para todos nós nos perguntarmos: o que eu tenho que poderia compartilhar? Não estou falando necessariamente de dinheiro ou de grandes projetos. Talvez você saiba fazer alguma coisa que possa ensinar. Talvez tenha uma experiência capaz de confortar alguém. Talvez conheça uma pessoa que esteja precisando ser ouvida. Talvez possa simplesmente ser mais gentil com alguém que cruzar seu caminho hoje.
Não precisamos transformar o mundo inteiro. Às vezes, transformar alguns minutos do mundo de alguém já é suficiente. Depois de seis anos escrevendo nesta revista, continuo acreditando que saúde é muito mais do que ausência de doença. Saúde também está na maneira como nos relacionamos, no sentido que encontramos para nossa existência e naquilo que somos capazes de construir uns para os outros.
Por isso, esta coluna de aniversário não é exatamente sobre mim. É sobre nós, sobre quem escreve e quem lê. Sobre conhecimento que circula. Sobre perguntas que chegam. Sobre respostas que às vezes ajudam e outras vezes provocam novas reflexões. Sobre uma troca que começou em agosto de 2020 e que, seis anos depois, continua fazendo sentido para mim.
Enquanto houver alguém do outro lado disposto a ler, perguntar, aprender e também me ensinar, continuarei acreditando que vale a pena sentar diante de uma página em branco e tentar transformar conhecimento em palavras. A todos que estiveram comigo em algum momento desse caminho, meu muito obrigado.
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