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Apagões em Cuba viram problema de saúde pública

29 jul 2026 - 07h11
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Apagões prolongados em Cuba têm provocado impactos profundos sobre a vida social e a saúde mental dos habitantes da ilha. Segundo psicólogo, impossibilidade de manter rotina estável tem esgotado cubanos.Para muitos latino-americanos, cortes de energia são um fenômeno corriqueiro, que geralmente obriga a interromper a vida cotidiana por um curto período, sem alterá-la significativamente.

O famoso Malecón de Havana sem luz elétrica: os apagões também afetaram seriamente o turismo cubano
O famoso Malecón de Havana sem luz elétrica: os apagões também afetaram seriamente o turismo cubano
Foto: DW / Deutsche Welle

No entanto, em Cuba, a exceção se transformou em regra, com apagões prolongados que vêm desorganizando o ritmo do dia a dia e obrigando os habitantes a se adaptar permanentemente a uma situação fora do comum.

Enfrentando uma profunda crise energética desde 2024, que se agravou com o cerco dos EUA a importações de energia, os cubanos têm contado com apenas algumas horas de eletricidade por dia. Nesse cenário, os cubanos costumam passar mais de 20 horas consecutivas sem energia em Havana e mais de 48 horas seguidas no restante do país.

A exceção vira "normalidade"

"Os apagões prolongados não afetam apenas a iluminação das residências: eles interferem no preparo e na conservação dos alimentos, no descanso, no trabalho, nos estudos, nas comunicações, no cuidado de crianças, idosos ou pessoas doentes e, de forma geral, na possibilidade de manter uma rotina relativamente estável", afirma o cubano Yunier Broche-Pérez, diretor-geral do centro terapêutico Prisma Behavioral Center, na Flórida.

Juntamente com Zoylen Fernández-Fleites, Broche-Pérez realizou, em 2025, um estudo sobre os efeitos dos apagões prolongados na saúde mental dos cubanos.

O psicólogo documentou como a sociedade foi obrigada a se reorganizar constantemente em função da disponibilidade de eletricidade.

"As pessoas adiam atividades, cozinham quando podem, carregam os telefones durante breves períodos de fornecimento de energia e modificam seus horários de sono, trabalho e estudo. Essa adaptação permanente consome tempo, recursos físicos e energia psicológica. Não se trata simplesmente de 'se acostumar': viver sob uma interrupção recorrente e imprevisível pode gerar um esgotamento cumulativo e uma sensação crescente de perda de controle", explica Broche-Pérez, em entrevista à DW.

Depressão, ansiedade, estresse

Da mesma forma, a interrupção da vida cotidiana está estreitamente relacionada ao sofrimento psicológico, ressalta.

Ansiedade ou nervosismo, dificuldades para dormir, irritabilidade ou mudanças de humor e desesperança ou falta de motivação são alguns dos sintomas mencionados pelos 415 adultos residentes em Cuba que participaram do estudo.

"Encontramos percentuais muito elevados de sintomas classificados na faixa extremamente severa: 55,4% para depressão, 66% para ansiedade e 65,8% para estresse", detalha Broche-Pérez.

No entanto, ele também destaca que o estudo não permite afirmar que os apagões sejam a única causa desses sintomas nem que os percentuais representem exatamente toda a população cubana.

Um problema de saúde pública

"Do ponto de vista psicológico, a imprevisibilidade também é muito relevante", explica o psicólogo. "Quando uma pessoa não sabe quando a eletricidade vai acabar, quanto tempo o corte vai durar nem quando poderá concluir uma atividade essencial, ela permanece em um estado de vigilância e antecipação."

Por isso, o especialista insiste que "a instabilidade energética deve ser entendida como um problema de saúde pública, e não apenas como um inconveniente técnico ou econômico".

Apagões em outros países latino-americanos

Cuba é um exemplo extremo do impacto dos apagões prolongados, mas não é o único país da América Latina que enfrenta esse fenômeno. Redes elétricas frágeis, falta de manutenção e danos causados por desastres naturais provocaram ou continuam provocando cortes de energia prolongados e recorrentes em países como Venezuela, Porto Rico e República Dominicana.

O Equador também mergulhou em uma crise energética em 2024. Entre setembro e dezembro daquele ano ocorreram os episódios mais graves. Os cortes eram diários, aconteceram em diferentes regiões do país e chegaram a durar até 14 horas consecutivas, afirma à DW Vanessa Triviño Burbano, neuropsicóloga e professora da Universidade Politécnica Salesiana, em Guayaquil.

Nesse caso, a seca e o baixo nível dos reservatórios evidenciaram "a forte dependência da geração hidrelétrica e as limitações estruturais do sistema elétrico", explica a acadêmica, que analisou o impacto dos apagões na saúde mental no Equador.

Triviño e seus colegas observaram sintomas psicológicos semelhantes aos descritos por Broche-Pérez em Cuba.

No plano socioeconômico, muitos negócios equatorianos afetados registraram perda de receita e aumento de despesas, já que tiveram de adquirir geradores como fonte alternativa de energia, comenta a psicóloga.

Na sua avaliação, os apagões evidenciaram "as desigualdades sociais, porque nem todas as famílias ou empresas podiam adquirir esses geradores, baterias ou fontes alternativas de energia".

Noites sem luz e problemas de transporte

Triviño menciona ainda que a insegurança aumentou durante a noite. O cubano Broche-Pérez também acredita que algumas consequências dos apagões se intensificam nesse período.

"A falta de ventilação em um clima quente, o barulho das pessoas que permanecem acordadas, os mosquitos, a escuridão e a incerteza sobre quando o serviço retornará dificultam o sono. Também aumentam a sensação de insegurança", enfatiza.

Independentemente do horário em que ocorram, os cortes de energia também afetam o deslocamento das pessoas, que muitas vezes precisam pagar um custo muito elevado em relação à sua renda para se locomover.

"São utilizados carros particulares ou serviços de transporte informal quando disponíveis, mas também triciclos elétricos, bicicletas para distâncias mais curtas e, com muita frequência, as pessoas simplesmente caminham", enumera o psicólogo cubano.

Rotinas e redes comunitárias

Para reduzir o impacto psicológico dos apagões, Broche-Pérez recomenda tentar manter, na medida do possível, rotinas básicas de sono, alimentação, hidratação e descanso. "Pode ser útil estabelecer uma rotina alternativa para os dias de apagão", acrescenta.

Da mesma forma, ele destaca a importância das redes comunitárias para "compartilhar informações e recursos, oferecer espaços com energia de reserva para conservar medicamentos ou carregar dispositivos, apoio específico para lares vulneráveis e uma comunicação pública transparente".

No entanto, ao final, Broche-Pérez insiste que as recomendações individuais não podem substituir a responsabilidade institucional de garantir um serviço elétrico estável: "Não devemos transferir para as famílias a responsabilidade de se adaptarem indefinidamente a uma crise estrutural que elas não têm capacidade de resolver", adverte.

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