Aos 57 anos, Tisha Campbell é diagnosticada com autismo; entenda
Tisha Campbell recebeu o diagnóstico de autismo e TDAH aos 57 anos; caso ajuda a entender por que o TEA pode passar despercebido por décadas, especialmente entre mulheres
Aos 57 anos, a atriz Tisha Campbell, famosa pela série Eu, a Patroa e as Crianças, revelou ter sido diagnosticada com autismo e TDAH após avaliação com especialistas. Mãe de um jovem autista, ela passou a compreender sua sensibilidade a sons e o esforço de camuflagem social que usou por décadas para se adaptar. O caso evidencia o subdiagnóstico em mulheres adultas, que muitas vezes mascaram sintomas, reforçando que o diagnóstico tardio ajuda a ressignificar vivências e obter suportes adequados.
Durante décadas, Tisha Campbell falou sobre o autismo a partir de um lugar muito próximo: o de mãe. Seu filho Xen foi diagnosticado ainda pequeno, aos 18 meses, e a experiência da família inspirou o livro The A Word: A Mother's Journey Through Autism and Love. O que a atriz não imaginava era que, anos depois, algumas das questões abordadas na obra também ajudariam a lançar um novo olhar sobre a própria trajetória.
Aos 57 anos, a artista, conhecida no Brasil especialmente por interpretar Jay Kyle na série Eu, a Patroa e as Crianças, revelou ter recebido diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e TDAH. A descoberta ocorreu somente depois de o livro já estar concluído.
A investigação começou a partir de uma sugestão de sua terapeuta, enquanto Tisha trabalhava questões relacionadas a traumas e buscava compreender melhor seu funcionamento. Segundo a atriz, ela procurou dois especialistas e passou por diferentes avaliações até chegar ao diagnóstico. Mais do que acrescentar um nome às experiências vividas, a descoberta fez com que situações presentes há décadas começassem a ser compreendidas sob outra perspectiva.
Sensibilidade aos sons ganhou uma nova explicação
Entre as características que passaram a fazer mais sentido para Tisha está sua relação com os estímulos sonoros. A atriz explicou que utiliza fones de ouvido para bloquear determinados ruídos porque percebe os sons como se chegassem "todos de uma vez".
Experiências como essa ajudam a entender por que um diagnóstico na vida adulta não significa que o autismo tenha surgido recentemente. O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento e, portanto, suas características estão relacionadas ao desenvolvimento da pessoa, ainda que possam não ter sido identificadas na infância.
Em alguns casos, determinadas características podem ser interpretadas de outras maneiras durante anos ou a pessoa pode desenvolver estratégias para lidar com situações sociais e sensoriais sem saber exatamente por que elas lhe exigem tanto esforço.
O que é a camuflagem social?
Ao falar sobre sua história, Tisha também contou que aprendeu a esconder algumas de suas características para se adaptar socialmente. Ela relatou que, durante muito tempo, utilizou uma espécie de "máscara" em público. Essa experiência se aproxima do que especialistas chamam de camuflagem ou masking. O termo é usado para descrever estratégias utilizadas por algumas pessoas autistas para esconder ou compensar determinadas características, especialmente em situações sociais.
Isso pode envolver, por exemplo, observar e imitar comportamentos de outras pessoas, preparar previamente o que dizer em uma conversa, controlar movimentos utilizados para autorregulação ou esconder desconfortos. A pessoa pode, assim, parecer adaptada externamente enquanto realiza um esforço significativo para atender às expectativas daquele ambiente.
A camuflagem não ocorre da mesma maneira em todas as pessoas autistas e ainda existem questões sendo investigadas pela ciência. Entretanto, estudos apontam que ela pode dificultar o reconhecimento do autismo e também estar associada a impactos negativos no bem-estar de quem passa longos períodos suprimindo suas necessidades.
Por que algumas mulheres descobrem o autismo mais tarde?
O relato de Tisha também chama atenção para uma questão importante: meninas e mulheres podem enfrentar barreiras adicionais até chegar ao diagnóstico de autismo. Durante muito tempo, a compreensão sobre como o TEA se manifesta foi fortemente influenciada por características observadas em meninos e homens. Hoje, pesquisadores investigam diferentes fatores que podem contribuir para que meninas e mulheres sejam subdiagnosticadas ou recebam o diagnóstico mais tarde.
Entre as hipóteses estão justamente uma maior utilização de estratégias de camuflagem, diferenças na maneira como algumas características se apresentam e estereótipos sobre como uma pessoa autista "deveria" se comportar. Ainda não existe, porém, uma única explicação capaz de justificar essa diferença.
Por isso, estudar, trabalhar, manter relacionamentos, constituir família ou ter uma vida social não são fatores que, sozinhos, descartam a possibilidade de autismo. Da mesma maneira, não existe uma aparência ou um comportamento único capaz de definir quem está no espectro.
Diagnóstico de autismo em adultos exige avaliação especializada
Embora relatos de outras pessoas possam despertar identificação, reconhecer uma característica isolada não é suficiente para determinar que alguém é autista. O diagnóstico considera um conjunto de aspectos do desenvolvimento e do funcionamento da pessoa e deve ser realizado por profissionais capacitados.
No caso de adultos, a investigação pode ser especialmente cuidadosa justamente porque é preciso reconstruir uma história que começou muito antes da avaliação atual. Experiências da infância, relações sociais, padrões de comportamento, questões sensoriais e estratégias desenvolvidas ao longo dos anos podem fazer parte desse processo.
A própria experiência de Tisha ilustra essa complexidade: apesar de conviver de perto com o autismo por causa do filho e de ter construído uma carreira de décadas, ela só passou a compreender algumas características pessoais sob essa perspectiva aos 57 anos.
Receber um diagnóstico tardio, portanto, não muda quem a pessoa sempre foi. Em alguns casos, porém, pode oferecer uma nova explicação para experiências que durante anos pareciam desconectadas - além de ajudar a identificar necessidades de suporte e estratégias capazes de tornar o cotidiano mais confortável. Para Tisha, a descoberta trouxe justamente essa possibilidade de olhar para a própria história de outra maneira. Como contou após receber o diagnóstico: "Sinto que me conheço muito melhor".
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