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A grande reflexão de Descartes, pai da filosofia moderna: "Aquele que emprega muito tempo viajando acaba se tornando estrangeiro em seu próprio país."

René Descartes valoriza conhecer outros povos, mas alerta que viajar por tempo demais pode afastar alguém dos costumes e mudanças do próprio lugar.

25 set 2026 - 09h44
(atualizado às 09h46)
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Resumo
No "Discurso do Método", René Descartes defende que viajar combate preconceitos e amplia a visão de mundo, mas adverte que o excesso afasta o indivíduo de sua própria realidade, tornando-o estrangeiro na terra natal. Comparando viagens ao estudo do passado, o filósofo enfatiza o equilíbrio entre descoberta e pertencimento. Hoje, essa reflexão alerta sobre o risco do consumo excessivo de conteúdos globais e virtuais, que pode gerar alienação quanto aos problemas e ao cotidiano locais mais próximos.

René Descartes escreveu no Discurso do Método uma reflexão que continua surpreendentemente atual: conhecer outros povos ajuda a enxergar melhor os próprios costumes, mas dedicar tempo demais ao exterior pode fazer alguém perder familiaridade com aquilo que acontece em sua própria terra. A frase não é uma crítica simples às viagens. Ela é um alerta sobre equilíbrio, pertencimento e sobre o risco de observar tanto o mundo distante que o presente mais próximo passa despercebido.

Descartes escreve que, quando alguém emprega tempo demais viajando, pode acabar se tornando estrangeiro em seu próprio país.
Descartes escreve que, quando alguém emprega tempo demais viajando, pode acabar se tornando estrangeiro em seu próprio país.
Foto: Imagem gerada por inteligência artificial / Catraca Livre

O que Descartes queria dizer com "tornar-se estrangeiro no próprio país"?

Descartes não estava falando apenas de nacionalidade ou de alguém esquecer literalmente sua língua e seus costumes. A ideia é que uma pessoa pode se afastar tanto da realidade cotidiana de seu lugar de origem que começa a desconhecer seus problemas, hábitos e transformações.

Viajar amplia referências, mas também muda o ponto de comparação. Depois de muito tempo olhando para outras sociedades, aquilo que antes era familiar pode parecer distante, estranho ou até difícil de compreender.

Descartes considerava viajar algo ruim?

Não. No mesmo trecho, ele afirma que conhecer os costumes de diferentes povos é útil justamente porque impede que alguém considere absurdo tudo aquilo que é diferente de sua própria maneira de viver. Para Descartes, viajar podia corrigir preconceitos e tornar o julgamento mais amplo.

A experiência de outros lugares pode ajudar a perceber que muitas coisas consideradas "naturais" são, na verdade, hábitos culturais. Entre os efeitos dessa abertura estão:

  • comparar costumes diferentes com mais cuidado;
  • perceber que a própria cultura não é a única possível;
  • questionar hábitos que antes pareciam óbvios;
  • abandonar julgamentos rápidos sobre outros povos;
  • observar a própria sociedade com maior distância crítica.

Então onde aparece o problema?

O problema surge no excesso. Descartes escreve que, quando alguém emprega tempo demais viajando, pode acabar se tornando estrangeiro em seu próprio país. A frase aparece no mesmo contexto em que ele critica também o excesso de atenção dedicado ao passado, porque isso poderia deixar uma pessoa ignorante sobre aquilo que acontece no presente.

Nos dois casos, existe a mesma estrutura: conhecer aquilo que está distante pode enriquecer, mas não deveria custar o contato com aquilo que está diante de nós.

Por que essa reflexão também fala sobre pertencimento?

Pertencer a um lugar não depende apenas de morar nele. Também envolve conhecer suas mudanças, acompanhar as pessoas, compreender os costumes e participar da vida cotidiana. Quando alguém se afasta durante muito tempo, parte dessas referências continua mudando sem sua presença.

Ao retornar, pode existir uma sensação estranha: o lugar continua sendo familiar, mas já não é exatamente o mesmo. Amigos mudaram, bairros cresceram, hábitos desapareceram e novas referências ocuparam seu espaço.

É possível viajar muito sem perder o vínculo com o próprio lugar?

Sim. A reflexão de Descartes não estabelece um número de viagens ou um tempo máximo fora de casa. O ponto é manter algum equilíbrio entre descoberta e pertencimento.

Isso pode significar:

  • acompanhar o que acontece no lugar de origem;
  • manter vínculos com pessoas e comunidades próximas;
  • não transformar culturas estrangeiras em padrão absoluto de comparação;
  • continuar observando mudanças locais;
  • trazer aprendizados de fora sem desprezar automaticamente aquilo que ficou.
  • Descartes escreve que, quando alguém emprega tempo demais viajando, pode acabar se tornando estrangeiro em seu próprio país.
    Descartes escreve que, quando alguém emprega tempo demais viajando, pode acabar se tornando estrangeiro em seu próprio país.
    Foto: Imagem gerada por inteligência artificial / Catraca Livre

Por que Descartes comparou viajar com ler sobre outras épocas?

No Discurso do Método, Descartes aproxima essas duas experiências. Para ele, conversar com autores de outros séculos se parece com viajar porque ambas permitem conhecer maneiras diferentes de pensar e viver. Mas o excesso também poderia afastar alguém de sua própria época.

Essa comparação mostra que sua preocupação era maior do que o deslocamento físico. O tema era onde colocamos nossa atenção. É possível estar em casa e, ainda assim, viver mentalmente tão voltado para outros tempos ou lugares que o presente se torna quase invisível.

A frase continua atual em uma época em que é possível conhecer o mundo sem sair de casa

Hoje, o alerta de Descartes pode ser ampliado para muito além das viagens. Redes sociais, vídeos, notícias e conteúdos estrangeiros permitem acompanhar diariamente culturas e acontecimentos de países distantes. Essa abertura pode enriquecer muito a visão de mundo, mas também pode fazer alguém conhecer mais sobre uma cidade do outro lado do planeta do que sobre o próprio bairro.

A reflexão não pede isolamento. Ela propõe equilíbrio. Conhecer outros povos ajuda a questionar preconceitos e ampliar horizontes, mas estar sempre voltado para aquilo que está longe pode produzir outra forma de ignorância. Para Descartes, viajar era valioso justamente porque ajudava a enxergar melhor o próprio mundo. Quando esse vínculo desaparece, a viagem deixa de ampliar o olhar e começa a afastar a pessoa da realidade que um dia chamou de casa.

Catraca Livre
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