Lixo de 29 países é encontrado em praias de SP; resíduos de origem chinesa lideram registros, diz ONG
Em cerca de um ano, levantamento identificou 438 itens estrangeiros nas praias paulistas, com predominância de embalagens asiáticas
Resíduos sólidos provenientes de 29 países, distribuídos por quatro continentes, foram encontrados em praias e unidades de conservação do litoral de São Paulo durante monitoramentos ambientais realizados pela ONG Ecomov. Entre março de 2025 e maio de 2026, a organização catalogou 1.827 materiais em uma área de aproximadamente 3,5 milhões de metros quadrados. Desse total, 438 itens (24%) tinham origem internacional.
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O levantamento aponta que a maior parte dos resíduos estrangeiros veio da Ásia, responsável por 86,5% dos registros. A China lidera a lista, com 236 itens identificados, o equivalente a 53,9% dos materiais internacionais e 12,9% de todo o lixo catalogado no período.
A Malásia aparece na segunda posição, com 73 resíduos (16,7%). Na sequência estão Japão, com 20; Arábia Saudita, com 13; Itália, com 12; e Estados Unidos, com 11.
Ásia concentra a maior parte dos resíduos encontrados
A distribuição por continente mostra a predominância de materiais asiáticos nas praias monitoradas. Além da Ásia, com 379 itens, foram identificados resíduos da Europa (35), das Américas (15) e da África (9).
Juntos, China e Malásia respondem por 70,6% de todos os materiais internacionais encontrados pela ONG. Também foram identificados produtos e embalagens provenientes de Alemanha, Rússia, Holanda, Turquia, África do Sul, Indonésia, Emirados Árabes Unidos, Filipinas, Singapura, Polônia, Noruega, Egito, Vietnã, Líbano, França, Panamá, Colômbia, Peru, Espanha, Síria e Argentina.
Considerando toda a área percorrida, a densidade média foi de 522 resíduos por quilômetro quadrado, sendo 125 de origem internacional. Isso representa, em média, um item estrangeiro a cada 7.991 metros quadrados monitorados.
Itaguaré teve maior registro de lixo internacional em um único dia
Um dos episódios que chamou a atenção da organização ocorreu em 23 de outubro, na Praia de Itaguaré, em Bertioga, no litoral paulista. Em apenas um dia, a equipe recolheu 137 resíduos de origem internacional, que juntos pesavam mais de 28 quilos. Segundo a Ecomov, foi a maior quantidade de materiais desse tipo já registrada na região.
A coleta abrangeu um trecho de 6,16 quilômetros da praia, com uma faixa monitorada de aproximadamente 45 metros de largura. Do total recolhido, 94,16% eram embalagens de alimentos e bebidas, como garrafas de água, caixas de suco e leite, sachês de condimentos e recipientes de óleo de cozinha. Também foram encontrados recipientes de desodorantes, inseticidas e selantes químicos utilizados em reparos de embarcações.
O presidente da Ecomov, Rodrigo Azambuja, afirma que os materiais aparecem inclusive em áreas de preservação ambiental com acesso restrito, onde, segundo ele, há praias em que a quantidade de resíduos internacionais supera a de lixo associado ao consumo doméstico e local. Para o representante da organização, o cenário demonstra a dimensão da poluição que chega ao litoral paulista e a necessidade de ampliar o monitoramento dessas regiões.
ONG aponta possível descarte irregular por embarcações
A Ecomov considera que parte dos resíduos pode ter sido descartada por navios durante o deslocamento ou antes da entrada em portos brasileiros. Azambuja afirma que as embarcações podem deixar de cumprir as exigências de destinação adequada para evitar os custos relacionados ao descarte.
Segundo o presidente da entidade, a prática representaria uma violação de normas ambientais que regulamentam o gerenciamento de resíduos provenientes de embarcações, como a convenção internacional MARPOL 73/78, e a NORMAM-20.
O representante ressalta, entretanto, que os materiais também podem ser descartados quando os navios já estão atracados nos portos. A identificação de embalagens estrangeiras, por si só, não permite determinar o local exato em que o descarte ocorreu.
A convenção MARPOL estabelece regras internacionais para prevenir a poluição causada por embarcações, incluindo o descarte de resíduos no ambiente marinho. A Ecomov afirma que os registros feitos nas praias podem contribuir para identificar possíveis irregularidades e subsidiar ações de fiscalização.
Embalagens de alimentos e produtos náuticos também são investigadas
Entre os materiais encontrados em 2025, a organização identificou embalagens de rações humanas de diferentes países, incluindo Itália, Japão, Estados Unidos e China. Esses produtos são compostos por alimentos e água compactados para utilização em situações emergenciais.
Um dos itens que despertou a atenção dos pesquisadores foi uma embalagem industrializada na região de Nápoles, na Itália, relacionada a um processo de dessalinização, que transforma água do mar em água potável.
A ONG também identificou produtos cuja procedência não pôde ser confirmada. Um dos casos foi o de um amaciante identificado como Smooth Sea, com rótulo em chinês. Segundo Azambuja, a embalagem apresentava sinais de possível falsificação, como rótulo desbotado, letras separadas, ausência de endereço do fabricante e falta de informações que permitissem verificar a origem do produto. O presidente da organização afirma que alguns materiais não apresentam dados suficientes sobre fabricação, industrialização e distribuição.
Monitoramento também registra animais mortos
Além dos resíduos sólidos, a ONG relata ter encontrado animais marinhos mortos durante as ações de campo. Segundo Azambuja, foram identificados quatro pinguins mortos e cinco tartarugas, das quais apenas uma estava viva.
Entre os animais estavam a tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) e tartaruga-verde (Chelonia mydas), espécies ameaçadas de extinção.
Projeto acompanha resíduos internacionais desde 2017
A Ecomov realiza desde 2017 o Projeto Overboard, iniciativa voltada ao monitoramento de resíduos de origem internacional nas praias do litoral paulista. A organização também acompanha um inquérito civil junto ao Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema), do Ministério Público de São Paulo (MP-SP).
De acordo com Azambuja, em 2025 e 2026 a ONG ampliou as áreas de coleta para comparar os resultados com os registros obtidos desde 2019, quando foi aberto o procedimento junto ao Ministério Público.
O presidente afirma que o volume de materiais identificados aumentou mais de 1.000% em comparação com o início do levantamento. Para ele, a continuidade do trabalho é importante para mapear a origem dos resíduos, identificar possíveis irregularidades e contribuir para medidas de conservação ambiental.
A entidade defende que os dados sejam utilizados para orientar políticas de gestão costeira, educação ambiental e fiscalização das atividades marítimas, além de aprofundar os estudos sobre a circulação de resíduos entre diferentes países.
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