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Após 10 anos de planejamento, megaprojeto de pesquisa começa na Amazônia

Cientistas do mundo se unem em programa inovador para estudar a origem e a evolução da floresta

22 jun 2023 - 11h39
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Um dos objetivos do projeto inédito é responder questões urgentes para a humanidade sobre as mudanças climáticas
Um dos objetivos do projeto inédito é responder questões urgentes para a humanidade sobre as mudanças climáticas
Foto: Isaac Salém, gerente do projeto TADP

Depois de dez anos de planejamento e uma pandemia, iniciou nesta sexta-feira (16), por volta das 15 horas, a primeira perfuração de subsolo no município de Rodrigues Alves, no Acre, do mais amplo programa de pesquisa científica já estruturado para estudar a origem e a evolução da Amazônia afim de entender o funcionamento do planeta Terra e os impactos das mudanças climáticas.

Os trabalhos de campo da equipe de pesquisadores do Trans-Amazon Drilling Project (Projeto de Perfuração Transamazônica, na sigla em inglês TADP) ocorrem em uma praça de sondagem montada em um terreno particular que recebeu uma estrutura com cerca de dez caminhões com toneladas de equipamentos e a presença de ao menos 25 profissionais. A região é considerada uma área ainda bem preservada da Amazônia às margens do Rio Juruá, que é um afluente da margem direita do rio Solimões próximo da fronteira com o Peru.

Os pesquisadores pretendem alcançar 2000 metros de profundidade em rochas e sedimentos para coletar testemunhos da era Cenozoica, de 65 milhões de anos atrás, período que marca a extinção dos Dinossauros. O projeto envolve ainda uma segunda perfuração a 1200 metros de profundidade na bacia do Marajó, no Pará, que deve ocorrer nos próximos meses. Ambos locais foram escolhidos por conta de perfurações da Petrobras realizadas na década de 1960 próximas dessas regiões que indicavam a presença das rochas sedimentares ideais para o trabalho científico.

“Os sedimentos acumulados ao longo do tempo estão organizados em camadas, que funcionam como um tipo de arquivo do passado da superfície terrestre da Amazônia”, explica André Sawakuchi, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), e um dos pesquisadores do comitê executivo do TADP. “Esses sedimentos são detritos produzidos pelo intemperismo das rochas e transportados pelos rios até as bacias sedimentares. Eles guardam informações sobre o clima da América do Sul no passado, das antigas florestas e dos rios que existiram aqui”.

Nesses sedimentos os pesquisadores vão olhar todo o registro de pólen e de fósseis, ou seja, com base nas filogenias vão estabelecer as hipóteses de como eram essas florestas no passado. A literatura científica ainda não conseguiu uma explicação única para a origem e a evolução da Amazônia, por isso a relevância e originalidade do projeto.

“Em termos de ciência básica, é o progresso do conhecimento humano em entender um elemento globalmente importante para o planeta, porque a Amazônia além de ser a maior e mais diversa floresta tropical do mundo, hospeda 11 dos 20 maiores rios do planeta e representa o coração da Monção da América do Sul, que é um dos principais elementos do clima global”, completa Sawakuchi.

 “Quando a gente consegue entender como eram nossas florestas nos últimos 100 milhões de anos, como elas mudaram e o que aconteceu com base nas mudanças climáticas, conseguimos também fazer melhores previsões para o futuro”, diz Lucia Lohmann, integrante do projeto e professora do Instituto de Biociências da Amazônia. “Então, estamos reconstruindo o passado para poder entender e se preparar melhor para o futuro”.

O TADP envolve 30 pesquisadores de instituições brasileiras e 30 estrangeiros, de doze instituições, incorporando geólogos, geofísicos, geógrafos, oceanógrafos, paleoclimatólogos e biólogos. O comitê executivo é composto pelos brasileiros André Sawakuchi, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP) e Cleverson Silva (Universidade Federal Fluminense) e pelos norte-americanos Paul Baker (Universidade de Duke), Sherilyn Fritz (Universidade de Nebraska) e Anders Noren (Universidade de Minnesota).

O investimento da sondagem é de cerca de 3 milhões e 900 mil dólares, valor que inicialmente era destinado a três perfurações, mas que precisou ser reajustado para apenas duas devido ao encarecimento dos equipamentos, materiais e serviços por conta da Guerra da Ucrânia e do impacto da pandemia.  Um milhão e cem mil dólares vêm do financiamento vem da International Continental Scientific Drilling Program (ICDP), consórcio de países que financiam projetos científicos que necessitem de perfurações, 1 milhão e 100 dólares do National Science Foundation (NSF), 700 mil dólares do Smithsonian Tropical Research Institute (STRI) e 1 milhão de dólares da Fapesp (Fundação de Amparo e Pesquisa do Estado de São Paulo).

Pesquisa científica iniciada com primeira perfuração na Amazônia
Pesquisa científica iniciada com primeira perfuração na Amazônia
Foto: Isaac Salém, gerente do projeto TADP

Pesquisa científica e a relação com a comunidade local

Imagine um município de 20 000 habitantes receber em menos de três semanas uma estrutura de pesquisa científica como essa? Pensando no impacto do projeto na comunidade local, o núcleo de pesquisa e divulgação científica da USP, o GeoHereditas, realizou durante 14 dias uma expedição não só de esclarecimento do projeto científico, como também oficinas e workshops de educação ambiental pelos municípios de Rodrigues Alves, Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima, bem como de patrimônio geológico no Parque Nacional da Serra do Divisor. Isso tudo antes mesmo da praça de sondagem terminar de ser montada na região.

O público-alvo das ações foram os replicadores de conhecimentos, como educadores e professores, que levaram estudantes da rede pública de ensino nas atividades, além de servidores públicos das prefeituras, secretarias locais e membros do ICMBio.

“O imaginário popular das pessoas ali associa sondagem com busca por petróleo ou acham que o projeto pode ter ligação com a construção de uma ponte que eles querem de travessia entre os municípios de Cruzeiro do Sul e Rodrigues Alves. Então, o nosso trabalho foi também de esclarecimento à população de um projeto com fins científicos”, diz o pós-graduando do Instituto de Geociências da USP e especialista em geotecnologias do GeoHereditas, Carlos Mazoca.

Além de explicar detalhes do projeto do TADP, o grupo promoveu uma série de atividades de geologia básica com conhecimentos sobre o ciclo das rochas, com doação de uma série de kits da USP, noções sobre o tempo geológico e experiências com uso de microscópio com amostras de areias dos diferentes rios da Amazônia, como o Solimões, Japurá, Tapajós, Amazonas, Rio Negro, Xingu entre outros. “Montamos um varal da linha do tempo das épocas geológicas com comprimento de 4,6 metros, que é correspondente a idade da Terra de 4,6 bilhões de anos.

“A ideia disso é que eles percebam a dimensão da história da Terra em comparação com o surgimento do homem, um evento bem mais recente”, diz Maria da Glória Motta Garcia, coordenadora do GeoHereditas e professora do Instituto de Geociência da USP.

“Como professor, eu fiquei imensamente satisfeito. Agora vai ficar bem mais fácil trabalhar de forma mais agradável para os alunos e despertar o interesse deles”, diz o professor Joaquim Neto, de Cruzeiro do Sul. “Temas como o ciclo das rochas e a escala geológica é muito difícil de trabalhar e causar interesse dos alunos e através do trabalho da equipe da USP e do presente dos kits vai facilitar o nosso trabalho de ciências da terra”.

“A missão é que a gente deixe um legado para comunidade local na área de desenvolvimento sustentável, conscientização sobre mudanças climáticas, geodiversidade e patrimônio geológico”, diz a geocientista e educadora ambiental Raquel Romão. “Além de divulgar conhecimento, estabelecer contatos e criar redes, fomos ouvir essas pessoas para saber se além desse conhecimento que está sendo passado existia um interesse também na criação de produtos personalizados para eles utilizarem tanto na educação quanto no turismo”.

A ação de outreach, de divulgação científica, contou com a participação do paleontólogo Francisco Negri e do especialista em solos Edson Soares, ambos da Universidade Federal do Acre, e do professor Ingo Daniel Wahnfried, do Departamento de Geociências da Universidade Federal do Amazonas, e Isaac Salém, oceanógrafo e gerente do projeto do TADP.

Região é considerada uma área ainda bem preservada da Amazônia
Região é considerada uma área ainda bem preservada da Amazônia
Foto: Isaac Salém, gerente do projeto TADP

*Fellowship de jornalismo científico da Fapesp.

Fonte: Redação Nós
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