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F1 e TV: o que é o presente e o que reserva o futuro?

A troca de emissora trouxe uma nova abordagem para a F1. Menos audiência, mas uma visão positiva do público. O que esperar para o futuro?

20 nov 2021 09h00
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Reginaldo Leme e Sergio Mauricio - as caras da F1 na Band
Reginaldo Leme e Sergio Mauricio - as caras da F1 na Band
Foto: Band / Divulgação

Quando chegaram as notícias de que a Bandeirantes seria a responsável pela transmissão da F1 nas temporadas 2021 e 2022, um grande receio surgiu entre o público da categoria no Brasil. Afinal de contas, simplesmente após 40 anos na TV Globo, o que poderia acontecer?

Naquele momento, havia uma série de questionamentos por parte da audiência pelo trabalho que a Globo fazia: espaço na programação, narrações, comentários...Talvez o ponto mais baixo tenha sido quando a emissora decidiu não transmitir mais a cerimônia do pódio. Foi uma atitude para melhorar os índices, sob a alegação que muita gente deixava de assistir quando a bandeirada era dada e depois era mais difícil recuperar a curva da assistência.

A queda de braço entre Globo e F1 foi bem coberta ao longo de 2020 pela mídia especializada nacional. Um medo bateu quando foi anunciado que os direitos ficariam com o mesmo grupo que seria responsável pela construção do Autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro. Entretanto, algumas situações não foram cumpridas e as negociações voltaram.

A F1 tem o Brasil como o seu principal mercado televisivo. Ano após ano, o país se posta no topo da maior audiência mundial, mesmo sem ter um representante na categoria desde 2018. Pode se dizer que o brasileiro aprendeu a gostar da F1, mesmo estando longe os dias em que se tinha um título a cada 2,5 anos. 

Para a TV Globo, a F1 era praticamente da família. Ela ajudou a trazer para o país a categoria na década de 70 e transmitiu até 1979, quando Emerson sofria com a sua equipe e Piquet era somente um estreante. A Bandeirantes transmitiu integralmente a temporada 1980, tendo Galvão Bueno à frente. E com o sucesso de Piquet, a Globo obteve novamente os direitos. 

Não deixou de ser um choque. Afinal, a F1 era uma das maiores cotas de patrocínio da casa (a categoria tinha 5 cotas de quase R$ 100 milhões/ano cada uma). Além de atender um público de maior poder aquisitivo, a distribuição da exibição da publicidade ao longo da programação era um chamariz para as empresas.  Mesmo assim, por conta dos índices de audiência e as condições econômicas, a categoria entrou em xeque no modelo de negócio da Globo.

Segundo entrevista dada pelo responsável da F1 ao portal Motorsport.com, um dos motivos que fizeram a categoria escolher pela Bandeirantes foi a postura da Globo de querer não transmitir toda a temporada na rede aberta, bem como não mostrar os treinos. A emissora paulista viu a oportunidade e aceitou a empreitada.

Trazer a F1 de volta significava qualificar a programação e retornar aos áureos tempos do “Canal do Esporte”. Além de consolidar a opção pelo automobilismo, já que um acordo de 5 anos com a Stock Car havia sido firmado e a continuidade na grade da Porsche Cup e o Endurance Brasil. Para a principal categoria nacional, já havia sido contratado Reginaldo Leme, que saiu da Globo em 2019.

A Bandeirantes queria também trazer o público qualificado que acompanha a F1 e aumentar seus índices de audiência. No domingo de manhã, horário habitual das corridas, a emissora ficava estável com pouco mais de 1 ponto em SP (1 ponto = 205 mil pessoas). Também seria uma chance de turbinar o BandSports, canal de esportes por assinatura, que receberia os treinos e exibiria a F2 e F3, preliminares da F1.

Para a transmissão, nomes totalmente familiares: Mariana Becker continuaria sendo a repórter na pista; Nos comentários, além do peso da experiência de Reginaldo, vieram Felipe Giaffone e Max Wilson. Para narrar, Sergio Maurício, que era a voz da F1 no Sportv.

Com a temporada caminhando para o seu final, podemos dizer que a mudança tem mais prós do que contras e levanta uma possibilidade para o futuro. Vejamos:

- Com a F1, a Band conseguiu se colocar na briga direta com Record e SBT pela vice-liderança, Inclusive conseguindo superar as duas em alguns momentos ao longo do ano. Eis a evolução da audiência ao longo da temporada até aqui, considerando a Grande São Paulo, maior mercado consumidor do Brasil:

Eis o gráfico da audiência da BAND em SP até o GP Brasil
Eis o gráfico da audiência da BAND em SP até o GP Brasil
Foto: Sergio Milani
Gráfico do pico de audiência da Band em SP até o GP do Brasil
Gráfico do pico de audiência da Band em SP até o GP do Brasil
Foto: Sergio Milani

A média até o GP do Brasil ficou em 3,75 pontos. O último dado disponível da Rede Globo é de 2019, quando a emissora carioca reportou uma média de 9 pontos e o GP do Brasil com uma média de 12 pontos. Mais uma vez lembrando que cada ponto na Grande SP equivale a cerca de 205 mil pessoas.

- Com a exibição dos treinos, embora não tenham dados detalhados disponíveis, a audiência da Band Sports também subiu, embora seja um canal que faz parte de pacotes mais caros dos canais por assinatura, não tendo tanta penetração junto ao público. Para tentar resolver a questão do acesso, foi aberta a possibilidade de contratação avulsa. Esta exibição dos treinos na TV aberta ajudou a subir a audiência, embora este ano houve problemas por conta dos contratos de afiliadas no mesmo horário. Em média, a audiência da Band ficou na casa de 2 pontos para a qualificação. 

- Com o aumento da audiência, o faturamento também subiu. 4 cotas publicitárias de R$ 20 milhões (preços anunciados, sem considerar descontos e comissões) e uma 5ª estava em negociação. A meta é ter 6.

Se considerarmos estes dados, bem como a última informação da Globo sobre suas cotas de anunciantes (5 cotas de R$ 98 milhões), podemos chegar a conclusão inicial que, cada ponto em SP para a Band, ela consegue arrecadar R$ 21,3 milhões (R$ 80 milhoes ÷ 3,74 – média de audiência). A Globo conseguiria um valor de R$ 54,4 milhões (R$ 490 milhões ÷ 9  – média de audiência) considerando os dados de 2020.

-   No GP do Brasil, foi o melhor índice em São Paulo até o momento da Band. Uma média de 7 pontos, com um pouco de 7,8 e liderança nos últimos 30 minutos de prova.

- Em uma enquete organizada por este escriba no twitter, feita de modo informal, sem uma tabulação científica específica, mais de 75% do público considerava a transmissão como “ótima e boa”. Cerca de 80% via a mudança de emissora como algo positivo.

A Band tem o acordo com a F1 até o final do próximo ano. Até o momento, não ficou claro qual o valor desembolsado pela emissora pelo acordo, bem como o modelo. A versão que mais circulou à época da conclusão das negociações foi a de que a Band dividiria os ganhos de publicidade com a Liberty Media, além de um valor em dinheiro. Algumas vozes dão conta que não houve desembolso de dinheiro, pois é de interesse da Liberty Media que o mercado brasileiro ainda esteja disponível, já que é considerado estratégico por eles.

Não deixou de ser uma aposta dos americanos neste aspecto. Parte considerável das receitas da categoria (mais de 30%) vem dos direitos de televisionamento. E nos últimos anos, o Brasil vem sendo a maior audiência mundial em termos televisivos (um total de quase 100 milhões de telespectadores ao ano), além da interação nas redes sociais, uma vertente que a F1 cada vez explora mais, crescendo a dois dígitos por ano, e que o nosso país é um dos expoentes.

Quanto ao streaming, o F1TV teve um aumento de assinantes do país, mas a Liberty não detalha quantitativos. A partir deste ano, a modalidade Pro foi ofertada no país, bem como a opção do áudio em português (o mesmo da Band).

A Liberty tem diversos aspectos para considerar a partir de 2023. Vai considerar simplesmente os dados de audiência? Afinal, se analisarem friamente os dados disponíveis, a queda de audiência pode ficar em cerca de 50% em relação a anos anteriores. Vão fazer pesquisas junto ao público? E o valor pago pelas emissoras? A Globo pagava US$ 15 milhões.

O fato é que, para a Band, a F1 foi um achado: conseguiu multiplicar a sua audiência em relação ao mesmo período do ano anterior (a média de audiência oscilava entre 1/1,5 ponto). Não bastando, o público que acompanha a categoria é de um maior poder aquisitivo (cerca de 28,8% são das classes A/B) . Este dado garante um ótimo atrativo em relação aos anunciantes para a próxima temporada.  Mas suportaria um aumento no valor pago à Liberty? (ou até mesmo aguentar desembolsar algum valor?)

O fato é que a emissora do Morumbi está satisfeita e quer ficar. A Globo agora quer recuperar o produto com quem ficou por 40 anos e ajudou a trazer e popularizar no país. Uma bela queda de braço será vista nos próximos meses.

Parabólica
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