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Análise: carros como Mobi e Kwid deveriam custar R$ 26 mil

Análise: classe média está esvaziada, achatada, mas a indústria só faz carros para o lado da "ampulheta" que tem menos gente e mais renda

1 jul 2020
15h00
atualizado às 22h23
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Fiat Mobi Easy: poderia custar R$ 26 mil, mas custa R$ 36 mil. Vale a pena?
Fiat Mobi Easy: poderia custar R$ 26 mil, mas custa R$ 36 mil. Vale a pena?
Foto: FCA / Divulgação

As vendas de carros estão crescendo, assim como o número de vítimas da pandemia de coronavírus. Enquanto os brasileiros tentam sobreviver (inclusive financeiramente), a indústria automobilística faz contas e projeções para retomar o ritmo de vendas considerado normal. Em alguns setores as vendas crescem --- como explicar a corrida pelo novo Volkswagen Nivus, um carro que começa custando quase R$ 86 mil? Talvez a explicação esteja na Teoria da Ampulheta. Por meio dela poderíamos pensar num Fiat Mobi que custasse R$ 26 mil ao invés dos atuais R$ 35.990?

Esta semana a revista AutoData publicou uma reportagem com o presidente da Fiat Chrysler (FCA), Antonio Filosa, na qual o executivo afirma que o mercado será menor e terá duas pontas contrastantes. “Na avaliação da FCA, em conjunto com o Google, a sociedade de consumo formará uma espécie de ampulheta, dividida em dois polos: um com mais gente e menos renda e outro com menos gente e mais renda, tendo no meio uma classe média esvaziada, achatada pelas consequências econômicas da pandemia”, afirma a reportagem do jornalista André Barros.

Renault Kwid: versão Life, de R$ 34.990, vem sem o "kit dignidade".
Renault Kwid: versão Life, de R$ 34.990, vem sem o "kit dignidade".
Foto: Renault / Divulgação

Filosa acredita que as vendas de carros na América Latina só voltarão ao patamar do ano passado em 2024 ou 2025. Só no Brasil, o mercado deixará de vender 900 mil carros este ano. Mas, para fugir das aglomerações de ônibus e metrô, muitas pessoas estão interessadas em comprar carros. Por isso, segundo AutoData, “a aquisição do automóvel (...) tende a ficar mais racional, embora ainda exista espaço para a compra aspiracional”.

Filosa acredita que a FCA está preparada para a Teoria da Ampulheta, pois a Fiat tem em seu portfólio carros mais simples, como o Mobi e as versões de entrada do Argo e do Cronos, bem como veículos mais conectados (e mais caros) como as picapes Strada e Toro, além dos SUVs da Jeep. Porém, nem a Fiat nem as outras marcas estão em condições de oferecer carros realmente acessíveis.

Fiat Uno de entrada: R$ 44.990 e já com ar-condicionado para enfrentar o país tropical.
Fiat Uno de entrada: R$ 44.990 e já com ar-condicionado para enfrentar o país tropical.
Foto: FCA / Divulgação

O Volkswagen Gol mais barato hoje está custando R$ 50.250. Dentro da própria Volks, o Up (ainda configurado para cinco pessoas) sai por R$ 49.590. É muito dinheiro para um carro de entrada. Na Ford, o Ka parte de R$ 48.380. Na Fiat, o Uno mais acessível custa 44.990 -- um patamar bem mais interessante do que o do Gol, por exemplo. Mas quem pode comprar esses carros? Pessoas de baixa renda, com certeza, não podem. Resta a classe média “esvaziada, achatada”, como fala a Teoria da Ampulheta. Vale a pena comprar um carro básico por esse valor? Muitos acharão que não; por isso, vão procurar carros no mercado de seminovos.

Mas vamos descer um pouco mais a régua. Se a procura de carros racionais será apenas para fugir das aglomerações de ônibus e metrô, carros menores -- como o Fiat Mobi e o Renault Kwid -- poderiam ser opção. O Up talvez passe a ser quando a Volkswagen conseguir vendê-lo como veículo de quatro lugares e por um preço menor. Por enquanto, é muito caro. 

Ford Ka: versão mais barata custa R$ 48.380.
Ford Ka: versão mais barata custa R$ 48.380.
Foto: Ford / Divulgação

O Fiat Mobi tem uma versão Easy por R$ 35.990 sem muita “dignidade”. Ar-condicionado? Nem pensar. No máximo desembaçador e ar quente, mas ainda assim pagando mais R$ 700, o que eleva o preço do Mobi Easy para R$ 36.690. Já o Mobi Like tem ar-condicionado, porém custa R$ 42.690 (melhor comprar o Uno por R$ 44.990). A Renault tem o Kwid. O mais barato é o Life, que custa R$ 34.990, sem ar e sem direção assistida. Para ter esses itens, é preciso passar para o Kwid Zen, que custa R$ 42.490. De novo, melhor comprar um Fiat Uno, que é um automóvel superior.

Como resolver essa equação? As montadoras dizem que não podem reduzir mais os preços porque os carros de entrada “não dão margem”, ou seja, não dão lucro. Não há como checar isso, pois ninguém abre os números. Mas deve ser real, pelo menos em parte, pois todas as marcas falam a mesma coisa e praticam preços parecidos. Para ter um Mobi de R$ 26 mil ao invés de R$ 36 mil, só existe uma chance: cortar os impostos. Sabemos que mais de 50% do preço dos carros brasileiros é formado pelos impostos (federais, estaduais e municipais).

Volkswagen Up: é caro e apertado para cinco pessoas, por isso deve mudar para quatro.
Volkswagen Up: é caro e apertado para cinco pessoas, por isso deve mudar para quatro.
Foto: VW / Divulgação

Para manter essa parte da economia aquecida, seria necessário que o governo federal abrisse mão dos impostos desses carros mais baratos, pelo menos por uns seis meses, como forma de aquecer a economia. No entanto, seria necessário também que os governos estaduais e municipais fizessem a sua parte. Isso vai acontecer? Não. 

Primeiro porque os governos estaduais e municipais estão com um problema seriíssimo para resolver, que é administrar a crise sanitária, pois o ritmo de casos de coronavírus (e mortes) continua aumentando. Segundo porque o governo federal é incapaz de liderar uma ação organizada em qualquer setor, envolvendo estados e municípios. Para além disso, na área econômica, uma questão como essa não está na cartilha do ministro Paulo Guedes, que é adepto de um hiper liberalismo que já fracassou recentemente no Chile e na Argentina. Guedes prefere que o mercado resolva as questões por si só, no que tem o apoio de grande parte da população.

Volkswagen Nivus: por que tem gente correndo atrás de um carro que parte de R$ 86 mil?
Volkswagen Nivus: por que tem gente correndo atrás de um carro que parte de R$ 86 mil?
Foto: VW / Divulgação

Resta então à indústria automobilística conviver com a Teoria da Ampulheta. Numa ponta, pouca gente com muito dinheiro disputando carros como os novos Volkswagen Nivus, Chevrolet Tracker e Fiat Strada. Na outra ponta, muita gente com pouco dinheiro tentando pescar promoções que permita a compra de um Fiat Mobi, um Renault Kwid ou um um hatch maiorzinho de entrada. No meio, a classe média, “esvaziada, achatada”, pagando pelos pecados que ela mesmo cometeu ou que outros cometeram em seu nome.

 

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