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Vitória de Lula é respiro democrático para o Brasil, a América Latina e o mundo

Reeleição de Lula tem poder de reduzir crescimento da ultradireita no Brasil, mas não elimina a força do extremismo que se estabeleceu no país. Desafio agora é viabilizar um mínimo de governabilidade em meio a uma oposição severa e fortalecer os mecanismos de de defesa da democracia para o futuro

25 out 2026 - 22h07
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Resumo
A vitória de Lula em 2026 traz alívio democrático e contrapõe a extrema direita, mas não encerra a polarização. Seu plano busca aliar crescimento, sustentabilidade e redução das desigualdades, enfrentando restrições fiscais, redes digitais ativas e um Congresso conservador. Mais do que governar, o desafio do campo progressista será entregar melhorias concretas, disputar projetos de sociedade e construir uma sucessão viável para além de sua liderança histórica.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2026 representará um alívio democrático, mas não encerrará o ciclo que levou a extrema direita ao centro do poder.

O resultado preservará condições institucionais para reconstruir a democracia. Não eliminará, porém, a força da direita no Congresso, suas redes de mobilização ou sua capacidade de disputar ideias nas plataformas digitais.

O desafio será transformar a vitória em mudanças concretas. Lula terá de governar uma sociedade polarizada e negociar com um Congresso de forte presença conservadora. E a possível saída do presidente da vida pública traz outra pergunta: a esquerda conseguirá construir um projeto para além de sua principal liderança?

Um contraponto à expansão da extrema direita

A eleição de Lula representa um contraponto político à expansão da extrema direita, por sua trajetória vinculada à inclusão social e pela defesa do pluralismo e das instituições democráticas.

Num cenário de articulação entre organizações ideológicas, financiamento privado, mobilização religiosa e redes transnacionais, Lula ocupa lugar central na disputa entre projetos de sociedade.

O relatório The Next Wave: How Religious Extremism Is Regaining Power, publicado pelo European Parliamentary Forum for Sexual and Reproductive Rights, em 2026, documenta a ampliação da influência política de movimentos religiosos extremistas e forças populistas de direita na Europa.

O contraponto representado por Lula, contudo, não se limita à polarização eleitoral. Cabe ao governo traduzir essa posição em políticas que combatam a fome e as desigualdades, ampliem direitos e protejam as minorias. E isso inclui defender a laicidade do Estado contra privilégios econômicos ou convicções religiosas particulares.

Como argumenta Marilena Chauí, a oposição entre privilégio e direito constitui uma chave para compreender os obstáculos históricos à democracia brasileira. A capacidade de Lula de ampliar a cidadania e democratizar o acesso às decisões públicas será decisiva para dar consistência a esse contraponto, o que dependerá também da articulação com o Congresso e do fortalecimento da sociedade civil.

O que Lula 4.0 pretende fazer?

O programa de governo registrado por Lula no Tribunal Superior Eleitoral combina valorização do trabalho, inclusão social, desenvolvimento e sustentabilidade.

Entre as propostas estão a redução da jornada semanal para 40 horas sem corte de salário, a valorização do salário mínimo, a ampliação de programas sociais e habitacionais e o fortalecimento dos serviços públicos. Há também investimentos em infraestrutura, reindustrialização e transição energética.

Essa tenta associar crescimento e proteção social. Resta a questão: como conciliar limites orçamentários com expectativas de melhoria de vida? A resposta dependerá do desempenho da economia, das escolhas fiscais e de acordos políticos.

Na segurança pública, a coordenação federal e o combate ao crime organizado exigirão cooperação com estados e municípios, além de respeito aos direitos fundamentais.

No meio ambiente, será preciso conciliar o combate ao desmatamento com interesses econômicos que frequentemente entram em conflito.

A questão, portanto, não é só o que o governo promete, mas o que conseguirá executar. Propostas dependem de orçamento e, às vezes, do Congresso; numa correlação de forças desfavorável, podem ser modificadas, adiadas ou bloqueadas.

Resultados em emprego, renda, saúde e educação pesarão na relação do governo com a população; falhas de implementação darão à oposição novas oportunidades.

Dois projetos de sociedade

As propostas de Lula expressam uma disputa mais ampla sobre o papel do Estado, a distribuição de recursos e os direitos sociais. A polarização brasileira não se resume à competição entre lideranças: envolve concepções distintas de como organizar a sociedade.

O projeto de Lula atribui ao Estado papel central na redução das desigualdades e na ampliação de direitos. Em setores da direita, ganha força a ênfase na liberdade econômica, na responsabilidade individual, na autoridade e nos valores tradicionais.

Nas vertentes mais radicalizadas, esse repertório se associa à desconfiança das instituições e à contestação de direitos de minorias. Nenhum dos campos é homogêneo. E há eleitores que combinam posições que não se encaixam perfeitamente em nenhum deles.

Essas disputas também se desenvolvem nos ambientes digitais, onde ideias sobre liberdade, segurança, família e direitos circulam e alcançam públicos distintos. É nesse espaço que o poder das grandes empresas de tecnologia se tornou uma questão política central.

A religião participa dessa disputa quando lideranças mobilizam interpretações morais para influenciar a agenda pública, como mostra a atuação da Frente Parlamentar Evangélica.

O desafio democrático é assegurar a participação de diferentes convicções sem que uma delas se imponha como medida dos direitos de todos. A laicidade não exige excluir a religião do debate público, mas preservar a igualdade de direitos numa sociedade plural.

A discussão sobre a mão invisível das big techs aponta para a influência dessas empresas sobre a circulação de informações e o debate público. O desafio será ampliar a transparência e a responsabilização dessas empresas sem transformar a regulação em instrumento de censura ou controle político.

O fim de um ciclo?

A eleição de Lula para o quarto mandato abrirá a oportunidade de reconstruir políticas públicas, recompor a confiança nas instituições e dar continuidade à redução das desigualdades. Mas a resposta democrática não pode se limitar a restaurar o que existia antes. Será preciso entender por que a extrema direita transformou insatisfações sociais em força política duradoura.

Como sociólogo, considero importante evitar o triunfalismo e o fatalismo.

A derrota eleitoral da extrema direita não autoriza anunciar o fim do bolsonarismo, assim como seu crescimento não condena a democracia. O poder não depende só de quem governa, mas da distribuição desigual de recursos e das disputas pela definição legítima da realidade. A eleição altera uma dimensão dessas relações, mas não muda automaticamente suas bases sociais.

Há ainda a questão da sucessão. Lula não é apenas um presidente: sua trajetória está ligada a uma identidade política e a uma base social. O campo progressista precisará renovar lideranças e reconstruir vínculos sociais. A direita, por sua vez, continuará disputando o significado da democracia e dos valores que devem orientar a vida coletiva.

O Brasil democrático respira, mas não pode confundir alívio com solução. O ciclo de Lula pode acabar sem que termine a polarização que marcou sua trajetória.

A eleição decidiu quem governa; não decidiu quem herdará o seu legado nem qual projeto de sociedade prevalecerá. Essa disputa continua aberta.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Péricles Andrade não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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