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Única

Ser única é uma fantasia que nos torna não especiais, mas solitárias

22 nov 2020
03h11
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"Mas eu quero ser única!" Foi essa a frase final que explodiu em sua fala na longa conversa de um curto relacionamento profissional. Afinal, uma conversa de duas horas é longa. Mas um relacionamento profissional de dois anos é curto.

A questão também era outra. A ansiedade e o tempo sempre foram inimigos, sempre brincaram com os desejos dela e criaram obstáculos para a velocidade daquilo que julgava "merecer por direito". É ariana, impulsiva e precipitada, como diziam os horóscopos lidos para ela desde pequena pela mãe para tentar fazer com que se conhecesse melhor e lidasse com os limites.

O tempo, o inimigo e a ansiedade, a válvula que disparava o botão que a cegava e a fazia agir sem pensar. Uma força maior do que ela eclodia de um lugar que passava longe do raciocínio lógico e afiado que também tinha. Estava ali, sentada em frente a sua maior referência, alguém que amava e odiava ao mesmo tempo. Sentimentos conhecidos há tempos.

Primeiro foi sua fã, queria aprender e estar com ela, ser como ela, ter sua bênção, apoio incondicional, seu olhar e quem sabe até sua admiração. Depois de algum tempo, após ser aceita na organização, "sentia" que tinha sido finalmente notada e atingiu o patamar que desejava na hierarquia que tinha criado em sua própria cabeça. Era agora, enfim, uma das principais em seu grupo de trabalho, sabia que era. Mas, assim que atingiu o "posto" almejado, em algumas poucas horas, algo parecia não estar mais certo.

Da vontade de ser aceita e pertencer passou rapidamente para a vontade de ser única em meio a tantas. A comparação foi instantânea e a certeza de que estava acima do grupo, também. Não percebeu que dar ouvidos a essa voz a faria entrar por uma porta e atrás dela um caminho sem limite, sem paz e sem fim.

Ao longo da vida, tinha sentido muitas vezes a sensação de superioridade, mas sempre de alguma forma a vida, a mãe ou a escola conseguiram segurar seu ímpeto de se colocar em um patamar superior. Primeiro entre as irmãs, que amava, mas, por se sentir especial, intuía a fama que certamente a colocaria em lugar de destaque. Depois entre amigas, não tinha culpa, mas era sempre a mais popular na escola.

Agora, em frente à sua mentora, a certeza veio à tona. Ela era real e aquela válvula ligada à ansiedade fez o tal botão ser disparado. Queria ser única e especial e queria já. O poder de lhe dizer que isso era verdade estava nas mãos dela. "Se não vou ser tratada como especial, não fico."

Decisão tomada, a ariana de cabeça e chifres erguidos e coração partido deixou a sala em que por meses abriu sua caixa de desejos, foi recebida com alegria, acolhimento, sensatez, amor e profunda dedicação. Saiu como se deixasse parte de si, a parte que ainda queria criar laços afetivos sem a competição desnecessária, sem a luta diária por atenção e distinção. Saiu sem energia, sugada pela própria fúria.

Porque a mesma energia usada no rompimento, na batalha contra inimigos invisíveis, na destruição poderia ter sido usada para a composição de novos arranjos mais fortes e transformadores. A imposição por reconhecimento forçado poderia ter sido substituída pela aceitação de que o tempo traz o pódio e a reverência na hora certa. Ser única é uma fantasia que nos torna não especiais, mas solitárias. "Em princípio o homem é nada e será nada até o que fizer de si mesmo", diria Simone de Beauvoir em profundo entendimento de que todos somos nada e iguais.

ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE 'MODA À BRASILEIRA'

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